Segunda-feira, 26 de Dezembro de 2005
![capt.cub10312240448.cuba_parliament_cub103[1].jpg](http://agualisa5.blogs.sapo.pt/arquivo/capt.cub10312240448.cuba_parliament_cub103[1].jpg)
Poderia ser um excelente sinal simbólico de que uma boa e inspirada ideia tinha saído da cabeça do Coma Andante. Por exemplo, permitir a liberdade de expressão e o pluralismo político para os cubanos.

Ao Funchal, entre outras desgraças e muitas formosuras, calhou-lhe ter um
Bispo estúpido. E chamo estúpido ao D. Teodoro de Faria, para não dizer da Eminência Reverendíssima que, pior que estúpido, é um meio demagogo com outro tanto de charlatão.
Muitos devem ser os afazeres de D. Teodoro. Só a engomar as suas tantas e tamanhas vestes mais a catrefa de paramentos, muito do tempo de ler e saber o que vai no mundo, deve ir-se embora. Pois se o D. Teodoro não gastasse tanto tempo a engomar, engomando-se, saberia que ninguém defende a abolição do uso público e privado de símbolos religiosos. Nesse aspecto, usem-nos e abusem-nos. O que se trata é da não imposição dos símbolos de
uma religião (da do D. Teodoro ou de outra) em associação oficialista com o Estado, que é, constitucionalmente, laico.
E essa das chagas na bandeira como piada, está gasta, senhor bispo engomadeiro. Antes de si (e preceder um Bispo no seu pensamento e homilia não é desprimor para as sotainas?), já uma legião de comentadores e bloggers clericais, semi-clericais e vigésimo-clericais, badalaram a mesma anedota.

Há
suceptibilidades rigoristas que arrepiam. Não porque não sejam justas nem bem esgalhadas.
[No caso, é um excelente texto] Mas, apenas, por sentir que é golpe de bisturi no tosco do uso da liberdade metafórica e que, muitas vezes (parece-me que será o caso de Lobo Antunes), não é mais que uivo bruto para com dores agarradas na pele, na sua pele. Mais que esguicho de machista. Pelo menos, de machista estúpido. Porque o machista que o sabe e o quer ser, que é o mais estúpido dos machistas, apalpa pela surra e quando a luz se acende finge que foi buscar mais um copo de cognac. Preferindo, sempre, aparecer junto dos outros como bêbado, nunca como enamorado, sabendo, de ciência feita, que o enamoramento é a morte do machista.
Direi, para disfarçar e por defesa espúria da honra de Lobo Antunes, que
esquecer um blogue inteligente custa um número incalculável de blogues estúpidos. E eu, exactamente por isso, nunca me esqueço de ler o
Lida Insana.
![capt.e122506a[1].jpg](http://agualisa5.blogs.sapo.pt/arquivo/capt.e122506a[1].jpg)
Se forem Boas, que sejam Festas.
Sábado, 24 de Dezembro de 2005

"Um
Natal Alegre".
Sexta-feira, 23 de Dezembro de 2005
![capt.sge.irq06.261105003327.photo00.photo.default-280x369[1].jpg](http://agualisa5.blogs.sapo.pt/arquivo/capt.sge.irq06.261105003327.photo00.photo.default-280x369[1].jpg)
Sempre me fascinaram as estações ferroviárias. Gosto de andar de comboio mas prefiro o movimento, o mistério e o sortilégio das estações. Sobretudo, perder-me numa delas. Qualquer. E muito mais não digo sobre isso porque está tudo mais que dito. Seria demasiado banal. Eu sei, sondagem minha, que 90% partilha esta querença.
Se a família não se ofendesse, murchando a festa, e para isso a coragem fenece, zarpava da consoada e ia perder-me numa estação a ver chegar e partir comboios. Ou metia-me dentro de um, a ver-me partir ou chegar. E oferecia-me um natal egoísta, unipessoal, só cá para mim - eu e o menino jesus, que não é pessoa mas símbolo plástico, a discutirmos, por exemplo, as presidenciais que, como se sabe, não têm nada para discutir. Afinal, o único natal que me falta na colecção - um natal sem tradição nem convenção. Porque dos outros, com os outros, mais os outros, conforme os outros, desses já tenho a caixa do peditório a deitar por fora.
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[Como dizem no cinema a fazer-se filme e quando a cena corre mal e tem de ser repetida:
Corta!]
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Voltando à caixa do peditório correcto (mas sincero):
Bom Natal a todos os visitantes!
![capt.u122111au[1].jpg](http://agualisa5.blogs.sapo.pt/arquivo/capt.u122111au[1].jpg)
Olhem-no bem nos olhos e nas comissuras dos lábios. A um Pai Natal destes, haverá algum menino ou alguma menina que hesite entre pedir um brinquedo ou desatar logo a comer a sopa?
Quinta-feira, 22 de Dezembro de 2005
![capt.nyr10512132337.pixar_exhibit_nyr105[1].jpg](http://agualisa5.blogs.sapo.pt/arquivo/capt.nyr10512132337.pixar_exhibit_nyr105[1].jpg)
Disse o Profeta Pré-Presidencial:
Num curto discurso aos cerca de oitenta representantes das comunidades religiosas, Bahai, Fundação Aga Khan, Hindú, Islâmica, Ismaelita, Israelita, Ortodoxa Grega e Protestante com quem almoçou, o candidato apoiado pelo PSD e pelo CDS-PP falou no «diálogo entre as religiões do bem», embora sem definir quais serão as religiões do mal.Talvez, se Cavaco olhar para o seu séquito, para aqueles que sustentam e alimentam a sua candidatura, encontre grande parte dos sacerdotes da religião do mal os banqueiros gananciosos, agiotas, e dos lucros que disparam arriba quando o cinto aperta; os ansiosos pelos despedimentos sem lei nem roque; os das gestões empresariais em que o pagamento aos que trabalham é um custo; os dos ferraris e dos salários por pagar ou para minguar.
Ele, Cavaco, piedoso crente, podia bem ter dito para a sua plateia eucuménica:
Continuem com as religiões do bem que, para a do mal, estou cá eu e recomendo-me, até como seu Profeta!

Sei que podia ser pior. Muito pior. O que não quer dizer nada, pois cada um sabe de si. Mas não pode ter um bom natal quem, como eu, religioso e cumpridor dos deveres de culto, missa, penitência, jejum, confissão, comunhão, procissão, novena e terço, não conseguiu arranjar um bilhetinho para ver esta british-gajada apanhar no coco lá para Fevereiro do ano que há-de vir, ali, na minha catedral. Por isso, agradeço que parem, os festeiros e as festeiras, os amigos e as amigas, os conhecidos também, mais os faz de conta porque amigos-somos-todos-sobretudo-no-natal, de me desejarem um bom e santo natal. Não aguento mais. Por favor, respeitem-me as dores. No mínimo, as dores natalícias. Haja respeito. Sei do que falo: há raivas que só passam na solidão dos infelizes. Sejam vossas mercês felizes, eu cá me atamanco. Dorido, mas sim. Foda-se!

Vulgar é que os corações se derretam de humanidade (muitas vezes, enfeitada de caridade) nesta época. Lembram-se os pobres e desvalidos, os homens, as mulheres e as crianças sem teto, sem roupa, sem brinquedos e sem pão. Grande parte de nós outros que temos as mesas cheias demais, nunca conseguindo comer tudo que metemos em cima da mesa, tanto que até enjoamos a comida e a bebida, que nos juntamos aos magotes familiares, trocamos prendas e ficamos mais ternos uns com os outros, sentimo-nos mal com este excesso de pico de abastança e de calor humano, costumamos pensar, em flagelação à consciência (à boa), nos (felizmente para o nossos sossego anónimos) que estão fora de nossas portas, ao frio e na míngua. Então, esmolamos, ajudamos a um natal melhor. O natal é, assim, o melhor de nós e o pior da representação hipócrita deste cristianismo de barriga cheia e caridade a escorrer uns pingos do bolso.
Não sou mais nem melhor que os outros. Alinho na parada, pelo menos para evitar o incómodo de destoar. E se tantos dão bacalhau aos pobrezinhos, umas roupinhas - que já não usamos - às criancinhas, mais umas esmolinhas para as consoadas desvalidas, permita-se que me lembre de carenciados de outras carências. Tendo o atrevimento de achar que o bem maior, aquele que pode ajudar a compor barrigas com dignidade e com futuro, é a liberdade, onde quer que ela não se respire. E que, repartindo tarefas na solidariedade, fique com o modesto quinhão de pensar nos oprimidos, nos carentes da liberdade de deitarem a alma para fora, exprimirem-se sobre o que acham bem e acham mal.
Escolho, para este natal, pensar nas Damas de Blanco da distante Cuba, submetida a uma terrível ditadura tropical. Esse grupo de mulheres cubanas, esposas, mães, filhas, irmãs, de prisioneiros de consciência, dos 75 dissidentes aprisionados (um punhado deles, foi entretanto remetido ao exílio), por pensarem e dizerem diferente, desde a primavera de 2003. A quem o Parlamento Europeu atribuiu, este ano, o Prémio Sakharov da luta pela Liberdade de Consciência. Mandando abraços calorosos a Laura Pollán (esposa de Héctor Maseda), Miriam Leiva, (esposa de Osear Espinosa Chepe), Berta Soler (esposa de Ángel Moya), Loyda Valdês (esposa de Alfredo Felipe Fuentes) e Julia Núftez (esposa de Adolfo Fernández Saínz), as cinco familiares dos presos políticos cubanos que foram mandatadas para este mês se deslocarem a Estrasburgo para receberem o prémio das mãos do Presidente do Parlamento Europeu e a quem a ditadura castrista recusou visto de saída de Cuba. Aprisionam-lhes os familiares, impedem-nas de saírem de Cuba, mas não conseguem proibir o Prémio e o seu significado (ele foi recebido, em nome das Damas de Blanco por uma sua membro fundadora Blanca Reys, mulher de Raul Rivero, jornalista e poeta a quem Fidel deixou que trocasse a prisão pelo exilo em Espanha). Nem a solidariedade daqueles que, respirando a liberdade, usando-a, acham que este bem precioso não é privilégio de alguns países e povos, sendo, devendo ser, um bem universal e fundamental. Como o bacalhau, as roupinhas, os brinquedos e a esmola para os desvalidos de bens materiais.
![Guine_Fa_JorgeCabral_Bajudas[1].jpg](http://agualisa5.blogs.sapo.pt/arquivo/Guine_Fa_JorgeCabral_Bajudas[1].jpg)
Do mesmo honorável académico (Prof. Jorge Cabral)
aqui referido (na entrevista sobre a mutilação genital feminina), transcrevo
daqui, este naco das suas memórias eróticas de ex-combatente na Guiné-Bissau:
Bissaque era uma aprazível aldeia balanta. Logo nessa noite, à volta de uma fogueira, reparei na beleza das raparigas, tendo passado a frequentar semanalmente a Tabanca, numa acção sócio-erótica, a qual consistia numa "esfregação" mamária às belíssimas bajudas. Habituado às bajudas mandingas, verifiquei experimentalmente a superioridade dos seios balantas, tendo, e disso me penitencio, contribuído para um conflito étnico-mamário. (*)
Afim de me redimir, em Janeiro de 1970, de férias em Lisboa, comprei 35 "corpinhos" (soutiens) no armazém Fama, sito à Calçada do García, junto ao Rossio, onde agora se reúnem os guineenses. Coincidência?
Premonição? Lembro a perplexidade do empregado do armazém, quando lhe pedi os 35 soutiens de todos os tamanhos e cores.
Regressado à Guiné, em plena Tabanca de Fá Mandinga, organizei a festa do corpinho, para a alegria das bajudas, que envergaram o seu primeiro soutien.
Tivesse esta história acontecido nos dias de hoje, e certamente sentiria dificuldades no aeroporto, até porque os soutiens constituíam a minha única bagagem. Armas secretas? Indícios de terrorismo? Não sei mesmo, se não teria ido parar a Guantanamo.(*) Diga-se que a etnia balanta (como a manjaca e outras), animistas, diferentemente da etnia mandinga que é islamizada (como a fula), não pratica a "mutilação genital feminina" (na Guiné designada como "fanado").
Imagem: O Prof. Jorge Cabral quando
bem acompanhado e jovem, na guerra colonial na Guiné-Bissau (1969/1971).