Terça-feira, 29 de Novembro de 2005

Disse
lá o quanto me comoveu a linda homenagem que a
Isabella prestou à memória do seu pai. Comoveu-me por eles, filha e pai, e também pela saudade de mim (nós, a lermos os outros, não nos vemos através dos outros?). E isto de saudades, também se sabe, são as do que se teve e as do que nos faltou.
Perda de pai (ou mãe) é sempre chaga que nos arrasta a vida. É uma perda de colo e isso, numa qualquer hora de solidão, daquelas de arrasar, é-nos tudo. Porque é uma ausência em que ninguém se pode sentar no seu lugar. Não há volta a dar. Mas como é bom que do(da) ausente fique uma memória de conforto da ternura. Eu que cresci e vivi na falta de colos (de pai e de mãe), por ter sido entregue a colos emprestados, senti e comunguei a nostalgia deste bonito post e, sem pedir licença, aboletei-me ali, em abuso intrometido, a ouvir, com eles, o Glenn Miller. Estarei desculpado?
Segunda-feira, 28 de Novembro de 2005

Se forem à tabanca do
Lutz podem ler os mais enfronhados e vivos debates sobre a liberdade religiosa a que assisti na blogosfera (não perder os ricos e animados recheios das caixas dos comentários, há lá de tudo, autêntico bazar chinês e de chinesices).
Diga-se que o Arquitecto e Cavalheiro
Lutz se desenrasca bem, com elegância, paciência e pertinácia. Mas, em cada volta de vontade de síntese superadora, agrava o estrago. Assim que, conciliador, desata a colar cacos e apelar ao bom senso, suscita mais barafundas que ainda partem mais loiça que as peças antes partidas. Uma autêntica cornucópia de concertos e desconcertos. Deliciosa também, na medida em que os demónios escondidos se enfurecem e sopram os ventos medievos. Sem que o nobre liberal de esquerda perca o tino, a paciência e o sentido das alturas. Direi mais, além de uma delícia, um verdadeiro espanto. A não perder, tão refrescante que é.
Como refúgio de síntese superadora ou escapista, pareceu-me, o
Lutz socorre-se das práticas da sua terra-mãe e vai buscar o exemplo alemão em que a questão dos símbolos religiosos nas escolas públicas são decididas pela decisão dos pais dos alunos, escola a escola. Se nenhum pai se opuser, o símbolo fica, se pelo menos houver contrariedade manifesta de um dos pais, o símbolo sai. Traduzindo para a prática, a laicidade, mesmo constitucionalmente consagrada, fica ao arbítrio da soberania dos pais, assim a modos que soberania delegada nas comunidades parentais. O que não deixa, sendo aparentemente sábia como meio de derrimir conflitos ao colocá-los nas esferas das responsabilidades comunitárias, de levantar uma outra questão na evolução dos direitos humanos os direitos e os princípios da protecção e da autonomia das crianças. E se os pais são responsáveis pela protecção e pela educação das crianças, são igualmente obrigados a respeitar a sua autonomia no desenvolvimento da sua personalidade e das suas opções e livres escolhas. Um pai ou uma mãe que educa uma criança para seguimento das suas escolhas ideológicas, políticas ou religiosas, está a pré-determiná-lo como seu seguidor por acto prosélito. E tem esse direito? Com base em que direito de propriedade intelectual ou espiritual? Não basta o efeito da influência do meio sócio-familiar (esse, sim, inelutável)? Porque raio um pai e mãe budistas, hão-de querer garantido que o seu filho também o seja e vá ser educado de pequenino para o ser? E se o pai for budista e a mãe muçulmana, como fazer? Não creio, pois, que, no caso, a solução alemã seja uma boa solução. Num Estado Laico, nem a Escola nem os Pais, devem ter o poder de pré-determinar e influenciar (explicitamente) as escolhas religiosas (ou políticas, ou orientações sexuais, ou outras) das crianças. Deixem-nas crescer e escolher. Só isso. E o melhor crescimento é o que é feito em liberdade, sem baias nem redis. O problema é quando os adultos gostam de estragar ao imporem os seus gostos como "marca de propriedade parental".
[Com os meus dois filhos, foi assim: remeti-os sempre, sem esconder as minhas opções, para as suas escolhas, as suas opções, dando-lhes o conceito que sempre que se escolhe há sempre várias hipóteses para escolher, isso é que valoriza a escolha e que as vidas mais tristes são as feitas em caminhos de sentido único. Não os baptizei, mas sempre lhes disse que se baptizariam e frequentariam igrejas se e quando o entendessem e pela religião que escolhessem (a minha filha mais velha baptizou-se pela religião católica, quando adulta, o meu filho mais novo, nos 17, anda a ponderar a questão); frequentaram e não frequentaram, nas vezes que escolheram, as aulas de Religião e Moral. A minha filha mais velha é adepta ferrenha (sem cartão) do Sporting; o mais novo, é sócio, nada ferrenho, do Benfica. O meu filho mais novo é laranjinha (tem cartão e tudo) e cavaquista; a minha filha mais velha anda entusiasmada a garantir-me que Manuel Alegre vai à segunda volta e ganha. E eu só me sinto completo com esta diversidade, porque nenhum filho meu é cópia minha. E, garanto-vos, um e outro são catitas. E felizes, vejam lá!]

Contrariamente ao que - com toda a sinceridade - esperava, a questão da abolição da exposição de um simbolo religioso particular (o crucifixo) nas escolas públicas deu numa chinfrineira de todo o tamanho. Eles foram bispos, amigos e protectores da Família Cristã, padres avulsos, presidentes de juntas de freguesia, CDS em peso e católicos desatinados em histeria miguelista. E, para espanto maior, o Cavaco que não fala, também falou. Tudo contra. Num cenário de vítimas inventadas como se a Carbonária (Octávio Ribeiro, da direcção do CM, chamou-lhe mesmo um acto carbonário) se levantasse das brumas da memória para, de escopo, martelo e pé-de-cabra, desatar por aí a profanar cruzes e a deitar altares abaixo.
O desatino inesperado demonstra a forma integralista como a Igreja Católica, incluindo uma parte dos seus devotos, não aceita o seu papel de influência na sociedade portuguesa se ela não comportar um domínio absoluto e não estiver legitimado como religião oficial (no beiral da obrigatoriedade). Valendo-se do peso da tradição e do muito tempo em que foi cimento da ideologia do regime, impante do sucesso do culto fatimista, apesar da Concordata, a Igreja não reconhece de facto o princípio da laicidade do Estado constitucionalmente consagrado. Aquilo que se afigurava como uma rectificação serôdia, pelo seu atraso, de uma anormalidade (a exibição de símbolos religiosos de uma única religião em estabelecimentos públicos de ensino), foi visto, perversamente, como um acto de levantamento da questão religiosa, uma perfídia de jacobinos e ateus contra a Santa Madre Igreja.
Só consigo entender esta encenação de vitimização católica, ridícula perante as benesses que continua a usufruir para dar continuidade à sua posição de Igreja dominante, pela própria crise que corrói por dentro a própria Igreja e a sua incapacidade em ultrapassar os seus atrasos perante práticas e disposições que não casam com questões de direitos humanos. Falo na questão da sexualidade castrada dos padres, cuja não resolução mancha a Igreja com inúmeros abusos sobre menores e da vergolha das práticas sexuais paralelas e clandestinas, do papel da mulher na Igreja. E a congregação dos fiéis à volta de um empolamento vitimizador vem mesmo a calhar para abafar o ruídos das contradições insanáveis de uma Igreja que, não tendo tempo, não consegue viver com o nosso tempo, este tempo em que a evolução nos direitos tornou anacrónicas certas descriminações que continuam a contaminar a prática católica. Uma cópia, afinal, da histeria dos integralistas católicos espanhóis que já têm prática de movimentação anti-Zapatero por causa do casamento de homossexuais e da obolição da obrigatoriedade do ensino de Religião e Moral nas escolas públicas. Um arremedo também de imitação das práticas dos fundamentalistas islâmicos, em que escola é madrassa ou deve vir abaixo.
D. Januário Torgal, um bispo que normalmente gosto de ler e ouvir, porque é homem de pensamento ágil, também não escapou a meter-se no barco do escândalo integralista sobre o raio do crucifixo nas escolas. Quando julgo que, quanto a privilégios e apuramento dos princípios da laicidade, D. Januário devia ter gerido a sabedoria do silêncio. Porque em termos de privilégios inaceitáveis que a Igreja Católica usufrui no quadro constitucional de um Estado laico, o crucifixo nas escolas é uma abencerragem simbólica mas uma abencerragem menor, no meu entender. Pior, muito pior, mil vezes pior, é D. Januário Torgal ser Major-General das Forças Armadas por ser Bispo, sendo oficialmente Bispo das Forças Armadas e das Forças de Segurança. E, com ele, D. Januário, haver mais 50 (cinquenta) capelães, igualmente do quadro do oficialato, pagos pelo Orçamento do Estado, ou seja, alimentados por todos os contribuintes, católicos e não católicos. A que propósito? E com que direito de usufruto de monopólio da assistência religiosa aos militares e às forças de segurança? E a que propósito muitas das cerimónias militares e policiais contemplam os ritos católicos (missas, homilias, pregações) na sua encenação programada?
Como se verifica, a história do crucifixo é apenas a ponta desse imenso iceberg da questão não resolvida, por inércia ou falta de coragem, do princípio da laicidade que impõe a separação entre Estado e Igreja. Mantendo-se as promiscuidades e privilégios herdados de um regime que usou a religião católica ao serviço da ideologia católico-fascista. A Igreja Católica, nos cinquenta anos de desforra da República, dominou de tal forma a sociedade portuguesa que, hoje, o regresso aos templos não se lhe afigura fácil de engolir. Já vimos este filme com os militares armados em políticos. Também, para esses, o regresso aos quartéis custou que se fartou. Mas voltaram. Pelos vistos, as sotainas serão mais teimosas que as fardas, mas também lá irão. Irão, talvez, é mais devagarinho.
Domingo, 27 de Novembro de 2005
- Porque falas sobre as decisões do Papa se não és católico?- É que...
- O que tens a ver se os padres são solteiros, virgens, hetero, santos, tarados ou pecadores?- Bem...
- Porque te faz cócegas que a mulher, segundo os usos internos da Igreja Católica, tenha um papel subalterno e não se considere ainda como suficientemente decente, pela sua natureza pecaminosa, a exercer o sacerdócio?- Então, vamos lá ver...
- Que raio te deu para meteres o bedelho nesse atentado contra a privacidade dos assuntos internos da Igreja Católica que é a retirada dos crucifixos nas escolas públicas?- Mas olha que...
- Cala-te. Não és católico. Não tens que te meter. Tens é que te converter porque vives num país católico. Depois, sim, falamos. Isto é, seguimos o Papa e os Bispos.
Sábado, 26 de Novembro de 2005

O Movimento já é um movimento republicano de juventude que encontra a sua razão de existir na candidatura presidencial de Manuel Alegre. O seu surgimento contraria a lógica das cúpulas, sendo antes o resultado de vontades diversas da juventude de todo o país que procurou organizar-se, cívica e politicamente, em torno deste mesmo projecto presidencial. O movimento reúne os adeptos do ideal republicano e humanista, que reconhecem a necessidade de dar voz à cidadania pela própria cidadania e reformar os aparelhos da República no sentido de valorizar o conceito democrático. Reconhecemos na candidatura de Manuel Alegre esta condição, o que justifica, em grande parte, uma necessidade que cada jovem deste movimento sente de dar opinião, de se manifestar e de agarrar esta nova maneira de encarar a política e os políticos.
As eleições presidenciais não existem para os partidos ou para os candidatos, existem para os cidadãos. Este é o ponto em que este projecto se distancia dos outros, não foi Manuel Alegre que se candidatou, não foram os partidos que candidataram Manuel Alegre, foram os cidadãos que candidataram Manuel Alegre e sobretudo os jovens. Por isso surge o Movimento já, para candidatar Manuel Alegre à presidência da República.
Este movimento tem como seus os valores da solidariedade, da igualdade e da fraternidade. Combatemos ao lado deste projecto presidencial por uma sociedade mais justa, por um mundo mais igual e por um país mais desenvolvido. Rejeitamos a reprodução do patriarquismo ou dos ícones neoliberais, assumimo-nos como jovens progressistas, defensores dos valores de Abril e da ética republicana.
O cargo presidencial é considerado por este movimento como a esperança de afirmação progressista. Seremos braços armados de uma candidatura que dá um novo tom à política nacional, que dá voz aos cidadãos e que rompe com as instaladas convenções do politicamente correcto.
O "Movimento Já" acredita que precisamos de uma voz activa na defesa de uma outra solidariedade entre povos: acreditamos no multiculturalismo, acreditamos na capacidade de travar a desigualdade, acreditamos num internacional reformismo capaz de rever as prioridades da globalização e dar prioridade à condição humana e sentido à Declaração Universal dos Direitos do Homem.
Tendo como mote há sempre alguém que resiste, este movimento cresce todos os dias com a vontade própria de cada jovem, a vontade de resistir às convenções, a vontade de se afirmar pela cidadania e a vontade de lutar por uma sociedade mais justa, livre e solidária.
VIVA A REPÚBLICA!
(transcrito
daqui)
Ex.mo Senhor Presidente da Câmara Municipal do Barreiro,
Os legionários abaixo assinados encarregados da propaganda Nacional neste Concelho, vêm junto de Vª. Exª participar o seguinte: no dia 12 de Junho, pelas 12h30, junto ao Parque desta vila e do café conhecido pela Boleira, fomos provocados por um indivíduo de nome António Perdigão, morador na Rua Heliodoro Salgado, Pateo nº 20, porta nº 24, que nos chamou piratas, bandidos, ladrões e mais frases que não percebemos. Não querendo por forma alguma levantar atritos, entregámos o caso à patrulha da GNR que se encontrava mais próxima do local, que por sua vez lhe deu ordem de prisão na qual foram desobedecidos, pois o dito indivíduo conseguiu fugir embora perseguido por nós e pela dita patrulha que tinha como chefe o guarda nº 94. Esperando que V. Exª não deixará de dar seguimento a esta participação que é o desejo destes legionários que estão sempre prontos à primeira chamada para defender a Pátria.
A Bem da Nação.
Barreiro, 12 de Junho de 1951
Cândido José Tavares, Manuel Félix, João Soares, Joaquim Peralta. (*)
Nota: Após a morte de Carmona, improvisaram-se peseudo-eleições (a queda do nazi-fascismo ainda estava fresca) em que o candidato do fascismo foi Craveiro Lopes, enquanto a Oposição Democrática apresentou a candidatura do Professor Ruy Luís Gomes, a qual foi rejeitada com o argumento da sua falta de idoneidade cívica e política (lembre-se que Ruy Luís Gomes era já, na altura, um prestigiado professor universitário). A propaganda do regime era entregue aos legionários, os lambe-botas para todo o serviço. O incidente relatado, pelo seu picaresco, revela como os pobres legionários suavam para, no Barreiro (e noutros locais), cumprirem as suas tarefas de faxinas do regime e como, depois, ajustavam contas com os que não lhes iam nas caras, nas fardas e nas funções. Esta denúncia dos legionários foi depois encaminhada pelo Presidente da Câmara Municipal do Barreiro (Manuel da Costa Figueira) para o Comando Policial a fim de que se iniciasse a sua punição prisional. Repare-se no preciosismo de, não tendo apanhado o indivíduo, os legionários sabiam, com toda a precisão, o seu nome e morada. Eram assim as campanhas eleitorais para a Presidência da República no Estado Novo até que, depois das eleições de 1958, com Humberto Delgado, se passou, para se evitarem mais agitações, a que a eleição se procedesse através de um pré-seleccionado Colégio Eleitoral composto por dignatários do regime.
(*) -
Carta-denúncia da Legião Portuguesa transcrita no livro A Fábrica e a Luta em Construção, Armando Sousa Teixeira, Ed. Avante

O grande sinal da aliança tripartida da ideologia do Estado Novo era dado, nas escolas, com o retrato de Salazar (depois, Marcelo) à esquerda, o de Carmona (depois, Craveiro Lopes; depois, Tomás) à direita, mais o crucifixo no meio. Era a consagração nacional-catolicista do regime. Desde a parede frontal, por cima do quadro, pretendia-se que a reverência perante aquela trilogia mandante e indiscutível descesse directamente para as cabecinhas que não se queriam pensadoras.
Caída a ditadura há mais de trinta anos, o crucifixo continua pendurado em muitas paredes de salas de aulas, lembrando uma mancha confessional monopolista num estado timidamente laico.
Leio
agora:
O Ministério da Educação está a enviar ofícios às escolas onde existem crucifixos nas salas de aula, ordenando a remoção desses símbolos religiosos.Os vagares com que a laicidade timidamente vai marchando... E como custa ao clero abdicar dos direitos adquiridos. Mais dia, menos dias, temos por aí uma manifestação de sotainas espicaçadas pelo ardor de luta do Jerónimo.
Sexta-feira, 25 de Novembro de 2005

Leio esta indignação perante as orientações vaticanescas:
Algo que parece falhar no que diz respeito à intransigência em relação à ordenação de homossexuais e, já agora, também de mulheres. (
aqui)
E fico perplexo por esta ordem de rejeição e o indulgente já agora aplicado ás mulheres (aqui, na ordem de vítimas do opróbio,
a seguir aos homossexuais!). Traduzindo para miúdos: evoluam, aceitem padres homossexuais e,
já agora, também mulheres. O que equivale, seguindo o raciocínio, que as mulheres devem ser contempladas, á posteriori, com o acesso ao sacerdócio, e por arrastamento, após a consagração pacífica e institucional de padres maricas.
Não posso estar em maior desacordo com o estimado
Miguel Silva. Atrevo-me a pensar que este companheiro não entendeu ainda que a base de todos os equívocos preversos do Vaticano relativamente à sexualidade reside essencialmente na sua misogenia.
O Vaticano, os padres, não aceitam nem suportam a vagina. A vagina (talvez, no imaginário católico, como meio pagão de vida) assusta-os, negam-na, exorcizam-na se necessário fôr. Se o apelo da vagina é forte e insuportável, lhes aquece o sangue, lidarão com ela na clandestinidade. Ou através de fantasias em que a pulsão sexual deixa a vagina na sala de espera (mas "presente" por omissão, rejeição, simulação ou substituição). Se sem a vagina, o nascimento não é possível, então sublimam a vergonha da imposição anatómica de a criança nascer do antro do pecado, através do culto mariano da virgem que concebeu sem pecado (ou seja, sem penetração, sem qualquer contacto com o órgão do pecado). A mulher, para a Igreja, ou é Nossa Senhora, Virgem Maria, Imaculada, ou não é. É essa a base medieval e persistente do "culto mariano", cujo reverso é considerar que mulher normal, mulher com vagina, é, só pode ser, a impura que arrasta o pecado no meio das pernas. Neste sentido, como não entender que pecaminoso seja, também, usar o olho do cú como vagina substituta (pior a emenda que o soneto, pensarão eles)?
Contrariamente ao
Miguel, penso que enquanto a Igreja não resolver o seu grave e doentio problema com as mulheres,
com a vagina, absolvendo-a da infecta culpa atribuída, esta Igreja não resolverá nenhum dos seus atrasos mais atrozes, nunca será uma Igreja do nosso tempo. Culpa da vagina que torna os padres doentes de espírito? Ora, eles não sabem, mas hão-de saber, que, afinal, a vagina é, apenas, a fonte da santidade no prazer (para a mulher, para o homem). E que o homem, os homens, ó machos do Vaticano, apenas têm metade da solução para se alcançar o reino dos céus. Pensem nisto, em vez de andarem a discriminar maricas, dando-lhes palco. Ouviste, Ratzinger? Aqui te fica, e de borla e bom grado, oração de ateu amigo.

Quando morre The Best, só nos podemos curvar e perdoar. Faço-o hoje, pela primeira vez. Nesta hora, só nesta hora (e não tenho homenagem maior para te prestar), digo-te que já lá vai a tristeza do baile que nos deste e me encheste os olhos de humidade humilhada na saída do estádio. Fica a tristeza pelo desatino que te goleou.
![132e2801eb28i3[1].jpg](http://agualisa4.blogs.sapo.pt/arquivo/132e2801eb28i3[1].jpg)
Segundo ouvi à jornalista chilena Patrícia Verdugo (*), ela contribuiu para a demanda judicial a Pinochet ao encontrar um documento falsificado em que o ditador, construindo o seu pecúlio de gamanço, debitou
um milhão de dólares ao Estado para despesas de ajudas de custo, em 1975, quando veio a Espanha participar no funeral do seu camarada de torturas Francisco Franco.
Se acho que Pinochet deve pagar os muitos males que fez e os crimes que cometeu (o golpe em que mordeu a mão ao seu Presidente legítimo, as torturas, os assassinatos), já acho mal o motivo agora invocado para tentarem meter o tipo no calabouço. Façam as contas, traduzindo para a nossa moeda velha, pelo câmbio da época, mais coisa menos coisa, dá
200.000 contos. É muito, para "ajudas de custo" (os gastos de transporte, alojamento e refeições, terão ido para outra conta), vir do Chile até Madrid e Vale dos Caídos, chorar, com baba e ranho, a perda do maior filho de puta entre todos os ditadores? Há dinheiro no mundo que pague as ajudas de custo de um sacana a chorar a perda de outro sacana da mesma laia?
(*)
Patrícia Verdugo (cujo pai foi assassinado pelos militares da Junta Fascista no decurso do golpe de 11 de Setembro de 1973), esteve em Portugal a apresentar a edição portuguesa (Ed. Campo das Letras) do seu livro «Salvador Allende O crime da Casa Branca».
![capt.sge.fzy77.171105003739.photo00.photo.default-389x275[1].jpg](http://agualisa4.blogs.sapo.pt/arquivo/capt.sge.fzy77.171105003739.photo00.photo.default-389x275[1].jpg)
Eles falar, vão começando a falar. Os vencedores e os derrotados. Falas entupidas, às golfadas controladas, com a história fresca e a quererem ficar bem no retrato para a história. Mas é positivo, essencial, que os depoimentos comecem a ser debitados. Para que, mais tarde, a história decante as manhas das justificações, contorne as sombras e ilumine a verdade histórica.
Visto à distância, o registo maior é que o 25 de Novembro foi uma estória com um final feliz. Valha-nos isso. Perdendo muito do 25 de Abril, deixou, como herança, o essencial e mais sagrado a democracia, a liberdade, a possibilidade de escolha. Mas recuperou do 24 de Abril, as desigualdades, a iniquidade do capitalismo selvagem, a marginalização social e cultural de muitas e importantes franjas da sociedade portuguesa, a iconografia dos tecnocratas e da contabilidade pública, a liquidação do conceito do adquirido, o amorfismo português para matar o rumo ao destino nacional.
O 25 de Novembro libertou-nos das perversões e entorses da máfia vanguardista de civis e militares. Dessa nomenklatura canalha de iluminados que nos queriam felizes à sua maneira, sob o preço da infelicidade durável e sem prazo, porque simples ovelhas do seu redil ideológico. Mas perdemos o melhor do 25 A, sobretudo a alegria da generosidade, o prazer de ter em cada patrício um camarada para construir um futuro melhor. E essa alegria, que cheirava a cravos, encaminhando-se para ser a nossa perdição, também podia ter sido a nossa salvação como povo pequeno mas teso de vontade. E hoje, uma verdade como saldo, o que somos, sobretudo, é um povo de ressentidos sem capacidade de apontar o dedo e exigir a solução. Por aqui andamos, já nos basta.
Não é, ainda, altura do falar verdade. Nos vencidos e nos vencedores. As palavras são medidas, compostas, subordinadas a efeitos. Se nem os vencidos confessam tudo, os vencedores ainda o fazem menos. E uma meia-verdade não é pior que uma mentira? Porque os protagonistas têm mais a esconder que a revelar. Sobretudo essa ala direitista do 25 de Novembro, a da desforra, ontem e hoje encostada ao seu resultado. Eu leio Loureiro dos Santos, Tomé Pinto, Eanes, Jaime Neves e outros mais, só me surpreendendo porque não os vejo de nariz comprido, à moda do Pinóquio. Eu leio Otelo, Vasco Lourenço, Duran Clemente, Costa Martins, Tomé e outros tantos, a surpresa é a mesma. E se Cunhal morreu sem dizer um avo do que sabia (nunca o diria), Costa Gomes idem e Isabel do Carmo continuando a compor a sua auto-estima, o que nos resta? Esperar. Pelo tempo e que o vento levante a poeira da história.
Adenda:Recomendo que não se esqueçam de ir
aqui e lerem
esta entrevista. Falam dois que sabem (um historiador espanhol o que ajudará na distância perante a paixão - e o então responsável do CC do PCP pelo sector militar).
Pela minha parte, já dei, em tempos, o meu depoimento de participação pessoal - que não chegou a ser mais que um projecto mas que revela uma parte do que se pretende esconder. E que resumo:
1) Sendo então militante de base do PCP (condição de que não passei nem nunca quis passar), no fim da tarde de 24 Nov 75 (antes, portanto, de os paras actuarem), trabalhando numa empresa industrial da zona oriental de Lisboa, mandaram-me mobilizar um pelotão na minha empresa (escolhi-os segundo as experiências e especialidades dos que tinham feito a guerra colonial) para irmos para uma escola primária em Marvila à espera de armas que nos seriam entregues a partir da Fábrica Militar Braço de Prata a fim de actuarmos para consumar a revolução socialista. Fomos, lá estive com o meu pelotão à espera de meios, juntamente com outros pelotões, esperámos até às últimas horas dessa noite, altura em que tivemos ordem para desmobilizar e irmos cada um para suas casas (a versão foi: perdemos, há que organizar a retirada).
2) Numa reunião convocada no dia seguinte, foi dada indicação para se preparar a eventualidade do regresso à clandestinidade (destruição de identificações partidárias e materiais comprometedores).
3) A minha experiência, igual à de tantos mais, demonstra que houve uma acção que contou com a direcção do PCP (antes do movimento dos paras!). Do outro lado, naturalmente houve mais, muito mais, que aquilo que hoje contam.
À distância, partilho inteiramente o sentimento do
Raimundo Narciso quando ele diz:
Não estou arrependido. Nem do empenhamento (as nossas circunstâncias!) nem da... derrota! De facto, na altura, estava disposto, e cheio de vontade, de combater, de armas na mão, arriscando a vida e ceifando vidas, contra a revanche do fascismo e pela revolução socialista, seguindo obedientemente a orientação suprema do PCP. Hoje, passados estes trinta anos, só posso manifestar alívio e agradecimento aos que nos lerparam a aventura e, ainda, conseguiram conter a ala fascistóide metida, e bem metida, nas suas hostes. Devendo-lhes, termos, hoje, democracia, liberdade e direito a escolha.

Uma autêntica mesquinhez intelectual, no mínimo, aquilo que alguns defendem a inibição dos não católicos de falarem dos decretos papais e sobre eles opinarem. O artigo de hoje de VPV no Público é bem exemplo desta indigente tentativa de censura sobre a opinião.
Como se a religião católica fosse um feudo privado de práticas religiosas dos seus crentes, cabendo-lhes a eles, os católicos, só a eles, os católicos, pronunciarem-se sobre os seus assuntos internos. Quando toda a gente sabe que a Igreja Católica, falando do caso português, não só marca a nossa história e cultura, os nossos usos e costumes, como o próprio regime. Uma Igreja que se fundiu com o fascismo lusitano e deu ideologia ao Estado Novo. Uma Igreja que tem inúmeros colégios, uma Universidade, uma Rádio (perdeu a Televisão por suposta má gestão), continua a gozar de inadmissíveis privilégios herdados e não extirpados, só admissíveis em estados confessionais. Uma Igreja para a qual são carreados fundos dos contribuintes pagando-lhes ordenados e despesas aos seus capelães (nas Forças Armadas, nas Prisões e Hospitais) para que continuem a usufruir do monopólio de uma profissão de fé. Em que, para a construção de novas igrejas e outras instalações religiosas católicas, as autarquias continuam a contribuir generosamente. Uma Igreja que, quando faz uma procissão, mete militares, bombeiros e polícias, em serviço de teatro do culto.
Obviamente que os laicos não se metem nas ladainhas e nos procedimentos de culto, se devem continuar com o padre-nosso e a ave-maria, mas uma força institucional com a enorme (e desproporcionada) presença que a Igreja Católica apresenta na sociedade portuguesa, mostrando a par e passo que a vontade é aumentar privilégios e não encolhe-los, tem de estar exposta à opinião e à crítica. Sobretudo quando discrimina, continuando a discriminar, quando procede em litígio com os princípios constitucionais do regime. Se a natureza monárquica, autoritária e passadista do Vaticano e das suas delegações colidem com as normas das sociedades democráticas, todos os cidadãos têm o direito e o dever do protesto. Porque deve ser a Igreja a adaptar-se à democracia e não o contrário. Por outro lado, se a Igreja tem direito a propagar a sua fé e as suas crenças, os agnósticos e os ateus têm o mesmíssimo direito de combater, no plano das ideias e da opinião, os sofismas, as contradições e as abencerragens da propaganda papal.
Tão simples como isto: se a Igreja procura influenciar a sociedade, e procura isso com todas as suas energias, a Igreja socializa-se. Logo, a sociedade tem todo o direito em reagir, concordando ou discordando.
Quinta-feira, 24 de Novembro de 2005

Nada mais refrescante, quando a esquerda se torna chata, que ler um texto da
direita inteligente. Tiro-lhe o chapéu, caro Alonso.

Inconfidencial
24 de Novembro de 2005
Ex.mo Sr. Governador Civil
Tenho a honra de remeter a V. Exª, vários prospectos de sondagens que na última noite foram profusamente espalhadas e lidas nesta Vila, especialmente nos bairros adeptos das novas tecnologias e de novas formas de fazer política.
Em vários locais, comenta-se que a estratégia de que a grande final fingida seria entre Cavaco e Soares vai ser um grande fiasco, isto é seria para ser mas não será, apesar dos esforços de todos os aparelhos partidários, desde o Bloco até ao CDS, marcando presença, nesta combinação, todo o arco das nomenklaturas partidárias e sem excepção digna de registo. Aparecerem, também, pintados nas paredes e em grandes caracteres, a preto e vermelho, dísticos de propaganda, como:
Morra o Controlo dos Partidos!
Abaixo o Jogo Combinado!
Viva a Cidadania!
Votai no Candidato a Presidente de Palavra e das Palavras
Apresento a V. Exª os meus melhores cumprimentos.
A bem da Nação
O Presidente da Câmara.
(assinatura ilegível)
Nota: este post só faz (fraco) sentido se lido em paralelo com o post anterior.

Confidencial
30 de Junho de 1951
Ex.mo Sr. Governador Civil do Distrito de Setúbal
Tenho a honra de remeter a V. Exª, vários prospectos de propaganda clandestina que na última noite foram profusamente distribuídos nesta Vila, especialmente nos bairros operários.
Em vários locais, nomeadamente nos tabuados da Companhia União Fabril e da fábrica da cortiça de Barreira & Cª, que confinam com a via férrea, entre o Bairro das Palmeiras e a estação de Barreiro-A, aparecerem, também, pintados nas paredes e em grandes caracteres, a preto e vermelho, dísticos de propaganda, como:
Morra Salazar!
Abaixo Craveiro Lopes!
Abaixo a PIDE!
Votai no Candidato Democrata Ruy Luís Gomes
Apresento a V. Exª os meus melhores cumprimentos.
A bem da Nação
O Presidente da Câmara [do Barreiro],
Manuel da Costa Figueira
(extraído de A Fábrica e a Luta em Construção, Armando Sousa Teixeira, Ed. Avante)