Segunda-feira, 3 de Outubro de 2005

... A foto-reportagem do
Jorge Neto sobre a cerimónia da tomada de posse de Nino Vieira como Presidente (eleito) da Guiné-Bissau (e de onde foi tomada a foto da imagem).
Resultado: Imagens e legendas de um free-lancer irreverente valem mais que mil páginas de jornalismo de referência.
Domingo, 2 de Outubro de 2005

O aparente meio-consenso das sondagens que dá esmagadora vitória ao ainda-não-candidato Cavaco, em que se dá a ideia de que o País já está meio-grávido de uma escolha presidencial, é apenas expressão da pré-volta, não servindo para mais que isso.
Cavaco beneficia, ainda, de não ser candidato assumido e estar a gerir um mistério desvendado. Quando abrir a boca, iniciar a pré e a campanha, mostrar ideias, obsessões e tiques, evidenciando os défices da figura, vai sofrer o desgaste que, pelo seu lado, Soares e Alegre já começaram a sofrer. Por outro lado, a direita ainda não mostrou as suas divisões, aparentando estar toda abrigada na tenda cavaquista. O que dá a ilusão de uma direita unida perante uma esquerda tetra partida. E, quanto a isso, a procissão ainda vai a dirigir-se para o adro. Estou convencido que a direita não resistirá à tentação de lançar, na caça ao tempo de antena, os seus jerónimos e louçãs.
Soares só tem como potencial para acrescentar valor, o peso do aparelho institucional e histórico, mais o que puder espremer-se do reumatismo do baronato socialista. Ainda, contabilizar as perdas de Cavaco quando este demonstrar os défices e excessos da sua imagem o seu formato limitado para o desempenho do cargo e a tendência para o autoritarismo e intromissão na esfera governativa. De qualquer modo, suficiente para que Soares represente muito mais que os resultados das sondagens perante um Cavaco mudo, com aquele ar de quem acabou de comer uma espetada e engoliu o pauzinho e penteado com a laca do tabu de Polichinelo.
Alegre tem o enorme património projectivo do inconformismo e da rebeldia. O que reanima a tradição e o modo cultural da esquerda incapaz de se rever no autoritarismo cinzento e medíocre de Sócrates que está a exaurir a maior vitória da esquerda sobre a direita. Com o tremendo poder corrosivo da pedrada no charco, mesmo o eleitorado conformista-socialista acabará por entender que, ganhando ou perdendo, o efeito Alegre é a única dinâmica que pode levar a uma segunda volta e evitar que o resultado das presidenciais seja um abraço entre náufragos de Sócrates, Soares e a esquerda. Porque tem o poder de transformar a planeada peleja desinteressante entre dois clássicos já vistos e revistos, numa disputa em que a discussão em torno de ideias, valores e projectos esteja no centro da campanha e, com isso, torne os eleitores em cidadãos exigentes e disponíveis para votarem. Além que a sua ida à luta, só ela, dá energia à dicotomia esquerda-direita de que tirará benefício próprio (se forçar a segunda volta e for ele a passar) e acabará por criar as condições e a dinâmica para que, na segunda volta se consiga o objectivo difícil mas possível de vencer Cavaco e a direita, elegendo-se Alegre ou Soares.

Gosto de Igrejas quando vazias. Se o cheiro a cera queimada não for muito intenso.
Gosto-lhes da paz, do fresco, do espaço amplo, da arrumação e limpeza e do silêncio. Se beatas não rondarem.
Gosto de admirar a arquitectura das Igrejas e parar-me a descobrir-lhes os pormenores, enfeites e inspirações. Se os sinos não tocarem.
Não gosto, nas Igrejas, o desconforto da dureza penitente dos assentos e não haver mesas ergonomicamente concebidas para se ler um livro ou escrevê-lo.
Não gosto, nas Igrejas, da memória do homem que, em miúdo, vi ser espancado pela GNR por não ter ajoelhado à passagem de uma procissão.
Não gosto, nas Igrejas, a falta de humildade e decoro de os católicos nunca terem pedido perdão por terem alimentado, vivendo-lhe à pala no domínio como religião oficial, décadas de fascismo à portuguesa, abençoando-lhe as suas ignomínias, continuando hoje, serena e cinicamente, apregoarem a supremacia do bem e da virtude.
Sábado, 1 de Outubro de 2005

No Campo de Concentração do Tarrafal, campo de morte lenta do católico-fascismo luso que referi em posts anteriores, utilizaram-se duas formas de tortura-castigo nas situações em que os carcereiros decidiam incrementar sadicamente as condições prisionais de um preso. Na primeira fase, para prisioneiros portugueses, usou-se a Frigideira. Na segunda fase, em que o campo foi reaberto durante a guerra colonial, para presos africanos, recorreu-se a um sucedâneo chamado de Holandinha.
Sobre a Frigideira, remeto para a descrição de
Edmundo Pedro, que foi prisioneiro no Tarrafal:
Era uma cela em cimento armado, um cubo com uma porta em ferro, uma frestazinha em cima, o tecto em cimento e não tinha telhado. Era um forno autêntico, num clima tropical
era sufocante
havia dias em que a temperatura se devia aproximar dos 45 graus
passávamos os dias a suar, tínhamos de andar todos nús. À noite aquilo condensava e caía em cima de nós, parecia um chuveiro
Depois da reabertura do Campo para os militantes anti-coloniais, que durou até 1974, a tortura-castigo passou a ser a Holandinha. O nome atribuído tinha a ver com a sugestão sádica de ser atribuída como estatuto de bom nível de vida. Estando o Campo localizado em Cabo Verde, usava-se como referência o facto de a colónia imigrante entre a diáspora caboverdiana com melhor nível de vida nas remessas para os seus familiares que ficavam no arquipélago era a que trabalhava na Holanda. Logo, Holandinha era um termo que, além da afectividade cínica pelo uso do diminutivo, sugeria abastança e bom estatuto social. E o que era a Holandinha? A sua concepção era idêntica à da Frigideira (uma caixa de cimento, sem janelas nem telhado e com pouca ventilação) mas colocada no interior, dentro da cozinha e mesmo ao lado dos enormes fogões onde os alimentos eram confeccionados (primeiro, os melhores, para os pides e os guardas; depois o rancho para os presos). A tortura consistia em que ao preso enclausurado na Holandinha, além do efeito do calor pela proximidade dos fogões, sem ter direito a alimentação, recebia, pelo ralo respiratório, os odores da sucessão de cozinhados ali ao seu lado. Assim, os presos metidos na Holandinha, além de sujeitos a temperaturas altas e sem capacidade de movimentos, alimentavam-se de cheiros culinários e, inclusive, beneficiavam de partilha olfáctica dos petiscos confeccionados para os pides e restantes carrascos.
Imagem: Edmundo Pedro, na companhia de antigos presos angolanos (da segunda leva) à entrada dos restos da Frigideira em foto recolhida aqui.

Aos poucos sobreviventes que ainda restam e foram prisioneiros do Campo de Concentração do Tarrafal (Chão Bom, Ilha de Santiago, Cabo Verde) todos os preitos de respeito que se lhes prestem só pecam por defeito. Li algures que o Dr. Jorge Sampaio vai-lhes prestar proximamente uma homenagem (aos sobreviventes e às memórias dos muitos que já não pertencem a este mundo). Em poucas outras situações, encarnará com o mesmo sentido a dignidade de ser Presidente desta República.
O
Campo (o
Nosso Campo, a medida salazarista de ter um sósia de Auschwitz ou Buchenwald) foi a maior vergonha da crueldade repressiva do católico-fascismo português. Para uma ideia aproximativa da génese e do cinismo nazistóide que enformou a obra, leiam-se estas palavras serenas de uma grande figura do nosso jornalismo (sobretudo no âmbito desportivo), antigo prisioneiro do Tarrafal,
Cândido de Oliveira.
Mas, lembrando o Tarrafal, uma nota se impõe para dar a dimensão do espírito racista da ditadura. Criado em 1933 para presos políticos, considerados de especial perigosidade, tentando aniquilá-los física e psicologicamente e anulando a probabilidade de fuga, no final da II Guerra Mundial e pela similitude do Tarrafal com os campos nazis, o Campo foi encerrado e os seus presos ou foram libertados ou transferidos para Peniche. Mas nos anos sessenta, iniciadas as guerras coloniais, o Campo do Tarrafal foi não só reaberto como funcionou em ainda mais agrestes condições que as anteriores (agora os presos eram pretos, ou, pior, brancos que lutavam pelos pretos), enchendo-se de novo com prisioneiros vindos das colónias e suspeitos de apoiarem os movimentos de libertação (caboverdianos, guinéos, angolanos, moçambicanos, sãotomenses). E o Campo do Tarrafal só foi definitivamente encerrado depois de 25 de Abril de 1974.
Há cerca de quatro anos atrás, estando em Cabo Verde por actividade profissional, visitei as ruínas do Campo. E a sensação que tivera nos anos oitenta, quando entrei em Buchenwald, repetiu-se: ali estava um sinal indelével da selvajaria totalitária, essa expressão da vontade sem limites de destruir, triturando, homens discordantes.
Hoje, quando se fala do Tarrafal e vejo a lembrança e a homenagem circunscritas às dores e martírios dos prisioneiros portugueses, esquecendo-se a sua segunda e mais cruel utilização (integrada como peça da guerra colonial), não deixo de pensar que, por portas ínvias, algum antifascismo não consegue, também ele, ser imune ao eurocentrismo (digamos assim, para não ofender respeitáveis pessoas).