Terça-feira, 27 de Setembro de 2005

Mapa já tenho. O que dá todo o jeito do mundo para não nos perdermos e, nas tantas, encalharmos, em vez do estádio, num tasco (e que belíssimo nome esse de Bishop Blaize Pub) e depois trocarmos a partida por um (ou dois... e etc) pint do malte transformado em líquido bom porque nosso (e tentar ofender os gajos, pedindo-lhes Guiness), mas contando com a boa companhia dos católicos azuis de lá (*) - os do City, hoje aliados por hora e meia.
Assim, conto encontrar o caminho e bem. Na ida e na volta. E não ter que, no regresso, trazer vergonha como companhia. Basta-me tanto. É que dá azar o pobre pedir demais. Mesmo que, no íntimo, o impossível se deseje. Sempre.
Adenda: Tudo nos conformes, confirmo agora, verificando que a tv de casa não se moveu e funciona no Canal 1. Assim, o mapa laboriosamente estudado transformou-se, num ápice, numa perfeita inutilidade. Não faz mal, a cultura não ocupa lugar.
(*)
Porque será que eu gosto tanto dos católicos (idem com "azuis") de lá quanto desgosto dos de cá?
Segunda-feira, 26 de Setembro de 2005
É preciso enterrar el-rei Sebastião
é preciso dizer a toda a gente
que o Desejado já não pode vir.
É preciso quebrar na ideia e na canção
a guitarra fantástica e doente
que alguém trouxe de Alcácer Quibir.
Eu digo que está morto.
Deixai em paz el-rei Sebastião
deixai-o no desastre e na loucura.
Sem precisarmos de sair do porto
temos aqui à mão
a terra da aventura.
Vós que trazeis por dentro
de cada gesto
uma cansada humilhação
deixai falar na vossa voz a voz do vento
cantai em tom de grito e de protesto
matai dentro de vós el-rei Sebastião.
Quem vai tocar a rebate
os sinos de Portugal?
Poeta: é tempo de um punhal
por dentro da canção.
Que é preciso bater em quem nos bate
é preciso enterrar el-rei Sebastião.Manuel Alegre(bem lembrado
aqui)

Decerto é uma questão de estética. Também decoro, pois claro. E, ainda, desejo de vida.
O nosso imaginário, a retorta da memória, a vontade de não deixar morrer o desejo, o querer viver vivo, fixa-nos o beijo, os beijos, como dos momentos mais solenes e mais simbólicos das nossas vidas da real, da imaginada e da projectada. O nosso primeiro beijo, quantas vezes repetido, mantem-se na lembrança ténue como das coisas mais limpas e puras que fizemos na vida. Os beijos de amor acompanham-nos mesmo que na desolação da saudade. Se os beijos nos ficam magros, secos e fugidios, desejamos que eles regressem gordos e molhados. Nós, afinal, vivemos porque esperamos um próximo beijo. Porque, tantas vezes, um beijo é tudo.
Por assim pensar, por efeito de choque não amortecido da repulsa pelo beijo da imagem - a do célebre beijo marxista-leninista entre Brejnev e Honecker -, porque sendo este um beijo que é a negação do beijo, apenas sobrando poder e polícia, é que nunca poderei votar no Jerónimo. Mesmo que ele se lembre de, para angariar fundos e gasto que seja o filão do Che, impingir esta imagem em t-shirts de celebração do falecido internacionalismo proletário numa próxima Festa do Avante. Porque, como tudo, o internacionalismo tem limites. O beijo (sadio porque de amor) é que não.

Que mais não fosse para que um dos políticos mais bimbos do PS José Lello aparecesse a botar faladura indigente para referir o parasitismo partidário de Manuel Alegre, a candidatura do poeta valeu a pena.
E não se julgue que o cú não tem a ver com as calças. Tem. Senão elas, as calças, não se enfiavam pernas acima até se ajustarem no sítio onde prespegamos as cadeiras. Uma campanha, sobretudo a campanha presidencial, é o momento certo de recolocar os princípios, os valores, a vontade de futuro na decência, na opção de se ser de esquerda ou de direita e correndo todos os riscos para ganhar ou perder, no centro da política. Se o PS nos está a querer enfiar de cabeça no pantanal, mostrando-se indeme na capacidade de ter moral para responder a qualquer reinvidicação e privilégio pessoal e de grupo, procurando que fiquemos vergados à impotência de vermos a vitória cavaquista (procurando, depois, tirar dividendos da harmonia bipolar centrista de Sócrates em São Bento e Cavaco em Belém) pela mão da ilusão da gero-bravata soarista, é bom e saudável que se possa dizer não e diferente.
Um partido e um governo que meteu Fernando nos petróleos, Armando na Caixa e permite parcerias energético-parlamentares entre Pina e Vitorino, merecerá o regresso do clan Soares e ter José Lello como seu arauto moral. Mas esse é o problema do pântano. Nós, outros, merecemos o direito a respirar a diferença política que é ter Alegre como candidato, resistindo a desacreditar da política, dos políticos, da democracia e... do PS.

A campanha chegou ao bairro. Profissional e profissionalizada. Enquanto o governo se descuida e a revolução procura ganhar espaço, há que cuidar que os votos não faltem. Porque a mãe democracia é generosa. E assim se vão aguentando, sazonalmente, uns tantos postos de trabalho.

Eu dizia: esta coisa saturou-se. E se rebentar é pelas costuras.
Porque acho que já cá tínhamos de tudo. Sobre tudo. De todos os gostos, para todos os gostos, com todos os feitios, incluindo os bons e os maus e, ainda pior, os assim-assim. A blogosfera já era melhor que uma etno-polis-ethos-culto-memo-farmácia. Supunha até que a energia da surpresa se tinha esgotado. O que viesse agora seriam reprises, sessões da meia noite, DVDs para adormecer no sofá, imitações que tivessem o fim frustado de tentar fintar o aviso cantante do Sérgio Godinho solenemente dirigido ao Casimiro. Mais umas tantas réplicas atrasadas de exercícios de narcisos e narcisas maduros e maduras e outros nem por isso mas para lá caminhando, mesmo daqueles a quem as fraldas os largaram há poucochinho. E assim achando, ia entendendo que continuar, eu teimar, era só pelo afinco serôdio de invocar que a antiguidade é um posto e tamanho que era pergaminho suficiente para aqui ainda estar.
Mas se o mundo é grande, a surpresa nunca é pequena. O que se resume a reconhecer que nunca conseguimos meter o mundo no bolso. Ninguém. E é o que nos vale e nos faz ter vontade de rir de qualquer ditador ou putativo candidato a tal
[na política não tenho a mesma certeza, mas sobre o gosto, ah isso garanto que sim].
Pois, a surpresa está aí -
este era o único
blogue que faltava. Um blogue sobre cinema, com equipa de luxo, e onde se escreve assim:
O cinema é uma amante exigente. Por muito que a tentemos domar, vulgarizar, misturar com centros comerciais, sofás, pipocas e afins, o Cinema resiste. Tem que resistir. A paixão que ela desperta pode muito bem ser um dos únicos sortilégios que temos para moldar o Tempo. Ou para fingirmos que ainda temos 15 anos, que a escola já acabou, que a tarde e a noite são nossas e o Cinema é aquilo que quisermos.O quê? O estimado visitante não gosta de cinema nem acha que dele precisa? Passa bem sem ele ou dele ouvir falar? Então porque bloga ou lê blogues? Deixe-se disso se desistiu de viver, vivendo-lhe as ilusões e as fantasias que tornam a vida viva - desligue o computador, corte com a internet, vá dar uma curva. E quando se perguntar o que é a vida, entre no cinema mais próximo. Vai encontrá-la, à vida. E vai gostar. Julgo, claro que não garanto que goste. Mas recomendo.

Mswati II, rei da Suazilândia, decidiu-se. E quando um rei decide, está decidido. Pois o rei-garanhão, o garboso da foto, acaba de escolher a sua 13ª esposa, uma jovem de 17 anos, de seu nome Phindile Nkambule. A notícia foi dada numa cerimónia que incluiu uma dança colectiva em que participaram 4.000 supostas virgens despidas da cintura para cima.

Enquanto os guerrilheiros limpavam as armas no outro lado, podia acontecer um miliciano ser nomeado, por engano e por duas horas, Oficial de Estado Maior.
Conta-se
aqui.

Queremos de volta a nossa filha que esteve desaparecida...
Domingo, 25 de Setembro de 2005

Pode ler-se
aqui.

De Águeda, veio a notícia que me faltava para ter candidato para votar na primeira volta das presidenciais. Se houver segunda volta, então se vê. Uma volta de cada vez, se fazem favor.
Sábado, 24 de Setembro de 2005
A grande surpresa foi a espectacular subida do Partido do Socialismo Democrático, que recentemente adoptou o nome de «A Esquerda.PDS», em cujas listas concorreram membros da Alternativa Eleitoral para o Trabalho e a Justiça Social (WASG), liderada pelo antigo presidente do SPD, Oskar Lafontaine, bem como do Partido Comunista da Alemanha (DKP).
O partido «A Esquerda.PDS» atingiu 8,7 por cento dos votos, isto é, mais 4,7 por cento do que o PDS conseguira nas últimas eleições, superando pela primeira o limite de cinco por cento exigido para a eleição deputados nacionais para o parlamento, onde obtém 54 lugares.
Em consequência, «A Esquerda» tornou-se a quarta força mais votada na Alemanha, à frente dos «Verdes» e logo a seguir aos Liberais (FPD) que recolheram 9,9 por cento dos votos.
Nos estados da antiga RDA, «A Esquerda» sobe entre cinco e nove por cento em relação à votação anteriormente conseguida pelo PDS, conquistando 25,4 por cento dos votos, ligeiramente acima da CDU/CSU (25,3%) e só abaixo do SPD, que baixa para 30,5 por cento.
Na parte ocidental onde, há dois anos, o PDS obtivera 1,5 por cento dos votos, consegue ultrapassar a barreira dos cinco por cento em seis estados, alcançando o resultado excepcional de 18 por cento no Sarre, que teve Lafontaine como primeiro-ministro. Nos restantes quatro estados federais, o resultado oscilou entre os três e os 4,5 por cento.
No rescaldo eleitoral, o partido «A Esquerda» reafirmou a sua recusa em formar governo com o SPD, devido à orientação neoliberal dos sociais-democratas, sublinhando que esta posição de princípio manter-se-á até serem revogadas as contestadas reformas dos sistemas de protecção social, incluídas na chamada Agenda 2010, também conhecida por pacote Hartz IV.
Por outro lado, regozijou-se com a entrada para o Bundestag (parlamento) «de um partido que se opõe a que a segurança da Alemanha se defenda no Afeganistão».
Até ao momento, todas os restantes partidos declararam também que recusam formar alianças com «A Esquerda».Para a continuação desta apreciação dos resultados eleitorais na Alemanha, consultar
aqui.
Sexta-feira, 23 de Setembro de 2005

Pensando estar certo, mas admitindo estar errado, se calhar fifty-fifty, acho que uma efeméride de hoje não é muito estimável para os portugueses e as portuguesas.
Falo, como se percebeu, e quem não percebeu que perceba agora, de lembrar que Sigmund Freud, o inventor da Psicanálise, morreu, em 23 de Setembro de 1939, na sua casa em Londres, com 83 anos de idade como muito bem nos refrescou a mona o
JG (a quem aproveitei para gamar a imagem).
E porque disse o que disse? Pois eu acho que, por mor dos efeitos a médio e longo prazo da cultura da castidade-castração da nossa tradição judaico-cristã (que foi boa noutras coisas, eu sei), os portugueses e as portuguesas não gostam do Freud. É que o tipo esgravatou onde, se calhar, não devia esgravatar. E vou já tentar desenvencilhar-me desta sentença atrevida.
Se há coisa que os portugueses evitam é o tema da sexualidade. Pelo que se sabe, para tantos e tantas, a coisa é pimba e já está e quando se trabalha não se assobia. E se os portugueses e portuguesas são bons e boas, gostando mesmo da coisa (verdade, consta da história!) quando fornicam fora de casa, pelo que se vê, a fornicação caseira não é, não pode ser, de todo gratificante. Senão como entender o número de facadas no matrimónio, cenas de ciúmes, desvios, abusos e crimes sexuais que preenchem páginas de jornais e revistas? E a tendência fácil para o incesto, a pedofilia e a paneleiragem? Mais a atracção por milhentos pontos de alterne com brasileiras, eslavas, travestis ou o quer que seja? Pois daqui pode-se concluir diferente do que - tanta disponibilidade acumulada, extrovertida e enviesada só mostra mínguas domésticas?
Andamos de tusa encolhida mas esbaforida, é o que é. Passada a lua-de-mel, nascidos os filhos, o gosto, a imaginação e a fantasia mirram, a lonjura do horizonte monogâmico encurta-nos perante a rotina, e é então que o fruto exógeno, exótico, transgressor ou proibido passa a ser o apetecido, mesmo que sob o preço de tudo quanto é fugaz. Porque não fomos feitos para sermos só nem libertinos nem castos antes uma sábia combinação de tudo um pouco e sempre leais com quem nós escolhemos e nos escolheu para jogarmos um mesmo jogo de vida. A padrelhada bem fez por nos castrar mas só conseguiu sublimações mal esgalhadas. Limpem, então, as mãos à parede.
Ó Freud, passa ao largo que aqui só espalhas a confusão e o desatino. Aqui, é reino do Papa e da trangressão cobarde do alívio.

A raiz da minha amizade com o
Leopoldo Amado tem, como tudo, uma história. Nasceu com a blogosfera e os contactos que ela proporciona. Depois veio não só o contacto pessoal como a minha consideração pelo brilho da sua carreira académica e pela descoberta de que ele tinha sido um miúdo guineense (e vão lá uns 35 anos de distância), filho de um funcionário dos Correios, que tinha sido meu vizinho em Catió, no tempo em que lá estive fardado, e que tinha comigo partilhado os medos comuns perante os silvos e deflagrações dos obuses 122 com que Nino Vieira nos enviava a mensagem de que devíamos sair dali rapidamente e em força (ele disse-me com a graça dos sobrevivos: passavam por cima da minha casa antes de aterrarem no teu quartel). Ele, pela sua parte, achará que eu não sou mau rapaz e até escrevinho, vez em vez, umas coisas catitas.
Claro que fiquei inchado de vaidade ao saber que um homem que foi puto meu vizinho é agora um prestigiado académico e com tese quase pronta a defender proximamente na Universidade Clássica de Lisboa e tendo exactamente como tema a Guerra Colonial na Guiné-Bissau (1963-1974).
Pois este meu amigo tem um
blogue chamado
Lamparam. E ele explica como se inspirou para tão aparentemente estranho título:
O termo lamparam designa, no crioulo da Guiné-Bissau, "um engenho tradicional de propulsão normalmente utilizado nas plantações e nas bolanhas da Guiné-Bissau para afugentar a acção predatória das aves sobre as culturas".E eu fico-me para aqui a pensar na imaginativa metáfora que tão bem inspirou o
Leopoldo ao escolher o
Lamparam como título para o seu blogue. É isso mesmo há que cuidar da cultura da memória sem que as aves da rapina dos preconceitos ou da amnésia lhe comam os bagos tão duramente germinados nas dores dos encontros, desencontros e empurrões da história. Não para acusar, porque isso, além do mais, é já tarde para o fazer (e tantos foram e são os que se furtaram ao julgamento da história, falando, é evidente, dos que voltaram e lá ficaram com crimes de sangue a mancharem-lhes as mãos, algumas medalhadas, e que, não contentes, espalham saudades serôdias de revanche por aí). Mas, sobretudo, para não esquecer e conseguirmos, antes, que na memória histórica dos nossos povos (daqui e de África) não fiquem pontos em branco ou manchas negras a darem-nos descontinuidade ao retrato.

Para que:
- Não se pense que o post anterior comporta qualquer acinte democrático para com o bom povo de Felgueiras;
- Não se deduza que duvido, além da boa tradição gregária e desinteressada, da óbvia lucidez eleitoral do mesmo bom povo de Felgueiras;
- Não se extrapole que não respeito, psicologicamente falando, a histeria beata da subordinação popular às benesses sabiamente atribuídas sem ater aos pormenores comezinhos de se querer saber de que sacos saem;
- Muito menos se pense que acho que não é nem pode ser bom ou boa aquele ou aquela em que se vota, muito se quere e a tudo se desculpa.
Declaro:
- Com todo o gosto, irei a Felgueiras e por lá passearei a vista, a cidadania e o orgulho de ser patrício no mesmo país, quando inaugurarem, no largo principal, uma estátua (ou estatueta ou mera placa evocativa) a quem, por Felgueiras, pela dignidade cívica e honrada de Felgueiras, não perdeu nem a dignidade nem o decoro, muito menos traficou a vã glória de mandar o saudoso e emérito democrata e socialista Barros Moura.