Domingo, 21 de Agosto de 2005

HÁ LÁGRIMAS QUE...

Neste post, introduzi a adenda que achei devida face às últimas notícias sobre o acontecimento.
Publicado por João Tunes às 17:14
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PAMPILHOSA DA SERRA

Fogo 015.JPG

Um nosso leitor, Rui Silva, enviou-nos este mail que merece transcrição:

”Às terras da Pampilhosa da Serra ligam-me os laços de família, das recordações dos seus verdes a perder de vista, das suas gentes simples e boas talhadas à imagem da rudeza das pedras.
Onde sobrevivem tendo tudo, no quase nada que a sociedade “próspera do litoral" lhes proporciona.
Onde o comboio não chegou, onde quase lhe quiseram tirar a “carreira”, onde ninguém passa para dar notícia que existem.
Hoje, contudo, é Verão, lembraram-me as imagens, muitas, dos meios de comunicação social.
Porque no Verão a Pampilhosa da Serra existe, enche os noticiários, preenche a nossa revolta esquecida desde o último Verão.
Agora aguardemos o próximo Verão, esquecendo que ela existe no Outono, no Inverno e na Primavera.
Para nosso descanso de dever cumprido, para que os que lá habitam possam, em silêncio, lamber as feridas e, para que nada se faça para que, no próximo Verão, tornemos a ouvir falar da Pampilhosa da Serra.
Até lá, nós, os donos de quase tudo, esqueceremos que os meios são (ou não são) suficientes, se se deve ou não declarar a calamidade, se se limparam ou não as matas, se se abriram ou não os asseiros, se as florestas estão ou não ordenadas.
Discutiremos, calados, o que vamos dizer que deveríamos ter feito, quando as chamas irromperem no próximo Verão.
Rui Silva”


E eu recomento:

- Entendo e partilho os sentimentos que perpassam nas palavras do Rui Silva. E agradeço-lhe. Sem deixar de assinalar (manias estéticas...) o fio da boa prosa com que teceu a sua elegia de desconsolo.

- Digo que não é verdade que os que amam a Pampilhosa da Serra (e falo como achadiço) só dela se lembrem no Verão. Em Abril deste ano, muitos lá estiveram a espremerem e gritarem soluções e saídas que evitassem o não retorno, pensando nos que lá vivem e que são quem a pode salvar. Podem ter sido inúteis os gritos e as propostas, mas gritou-se com direito, pelo menos, à dignidade quixotesca, o que é o mais que podem fazer os cidadãos fora da sertã do poder. Agora, resta ter força para não desistir. O que exige muito mas seria uma nova tragédia se as cinzas fossem amanhadas com o baixar de braços.

- Para além do choro pelo irremediável, raivas cansadas, confio que o Rui Silva se vai juntar aos que não recusam um braço de ajuda àquilo que se gosta com a responsabilidade do gostar.

Nota: Este post é, não podia deixar de ser, uma “negação” de escrito recente. Mas a vida é assim – arriba acima, arriba abaixo, arriba acima... E nada melhor que um “desanimado” para nos espevitar a recuperação da vontade de não desistir. Também por isso, obrigado Rui Silva.

Imagem: Evacuados de Sobral Valado, Pampilhosa da Serra, Agosto 2005.
Publicado por João Tunes às 16:15
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UMA EMBIRRAÇÃO

lisbon[1].jpg

Não sou lisboeta. Nunca fui e já é tarde para o ser, mesmo que adoptivo e se tal ambição transportasse. Mas não entendo a embirração persistente e já a entrar nos laivos maníacos que Vital Moreira vem dedicando à Capital e aos seus habitantes. Os lisboetas lá terão os seus muitos defeitos e alguma virtude perdida mas uma coisa tenho como certa – em pouquísimas outras grandes cidades se é tão aberto aos forasteiros e tão pouco portador do sentido de superioridade arrogante. Quando muito, andam tristes e perdidos com míngua de gregarismo. Vejo assim mas talvez seja falta de perspicácia minha ou então carregue às costas uma qualquer experiência excepcional e exemplar. Ou, quem sabe, Vital Moreira tenha tido um azar muito especial e particular nos encontros e encontrões que teve quando por Lisboa andou. Mas Lisboa é grande e, por isso, tudo tem obrigação de perdoar.
Publicado por João Tunes às 00:49
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Sábado, 20 de Agosto de 2005

FÉ EM LULA

121703lula[1].jpg

Eu acredito que Lula nada soubesse sobre o mensalão. Acredito até que, no PT, ele fosse o único a nada saber sobre a marosca. Quem sabe mesmo se Lula não terá sido o único brasileiro que estava a leste do saber algo, pelo menos um pouquinho, sobre as manigâncias dos pagamentos por conta de votos a favor e que suportavam a sua governação.

Eu acredito em Lula. Não me passa pela ideia que Lula não fale verdade. Só não percebo é para que raio, nada sabendo nem conseguindo saber, Lula é Presidente do Brasil.
Publicado por João Tunes às 18:14
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DO FOGO – 5

Fogo 062.JPG

Já muita coisa inútil aqui escrevi. Em grande parte, fruto da vontade de que as coisas arribem. Para melhor, porque, como diz e bem o Sérgio Godinho, para pior já basta assim.

Reconheço agora que atingi o ridículo com a maior de todas as inutilidades que pela blogosfera fui escrevendo. Com este texto bati o record das minhas inutilidades escritas, ultrapassando a margem de confiança permitida a qualquer crença. Uma ingenuidade bacoca esta de acreditar que o nosso interior podia ter perdão por o ser. Que ninguém se preocupe mais com Pampilhosa da Serra. A menos que tenha préstimo para o défice do Orçamento a exportação do Portugal reduzido a cinzas.

Imagem – Concelho da Pampilhosa da Serra em Agosto 2005.
Publicado por João Tunes às 17:15
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DO FOGO - 4

Fogo 016.JPG

Aquilo foi uma coisa medonha! (ouvia-se em desabafo de espanto não refeito)

Imagem: Um grupo de cidadãs de Sobral Valado, Pampilhosa da Serra, evacuadas durante o fogo que atacou a aldeia. Agosto 2005.
Publicado por João Tunes às 04:02
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DO FOGO - 3

Fogo 019.JPG

Porquê tamanha fúria contra nós?(era o que se lia nos silêncios dos rostos teimando em continuar humanos)

Imagem - Dois habitantes de Sobral Valado, Pampilhosa da Serra, evacuados devido ao fogo que atacou esta aldeia. Agosto 2005.
Publicado por João Tunes às 03:43
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DO FOGO - 2

Fogo 031.JPG

Uma aldeia espreitada através dos esqueletos das árvores e das cinzas.

Imagem: Sobral Valado, Pampilhosa da Serra, Agosto 2005.
Publicado por João Tunes às 03:36
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DO FOGO – 1

Fogo 009.JPG

As duas semanas embutido na minha tribo disponível e enfiado dentro das águas calmas do Sul, mirando-lhes os reflexos e os brilhos tão próprios desta época, deram-me na modorra, assim uma espécie de apetecer ver tudo pelo prisma do relativo e a um passo do deixa andar. Dizem-me que isto é a descarga do stress e eu acredito. Porque não? Deve ser mesmo verdade porque me apeteceu aproveitar o pretexto e deixar conviver com as alforrecas alguns botes de que andava farto de puxar a remos. Enfim, coisas da boa vida. Que, como se sabe, é bem de pouca dura.

Entrei depois na chamada fase da transição. Meio cá, meio lá. Assim a modos de balhelha à procura de energia para o tino.

Meio curado, ou a caminho da descura, vieram cinzas a cairem quentes e estúpidas e a empurrarem-me para o Portugal a arder. No braseiro, estava (e está) metida uma parte da tribo que ficou agarrada às raízes do centro beirão. Havia que acudir e partilhar. Gerindo os medos do demónio feito fogo a querer queimar os cabelos que decoram a vida e os atavismos telúricos da recusa em abandonar a terra-mãe como se os pés fossem feitos de raízes agarradas às cinzas. Sem escolha. Melhor, sem esse direito.

Água e depois Fogo. Para quê a necessidade de espalhar cinzas de míngua de água e de fartura de incúria e abandono em cima da memória dos reflexos e brilhos das águas do Sul? Rompi com a dialéctica porque raios partam a mania da unidade dos contrários quando nisto dá.

Imagem: o fogo avança sobre Sobral Valado, Pampilhosa da Serra, Agosto 2005. Foto de Pedro Tunes.
Publicado por João Tunes às 03:31
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Terça-feira, 16 de Agosto de 2005

DO SUL – 5

Armona 163.JPG

Mesa de fartura extra em dia de aniversário. Não estava toda a tribo mas nem todos faltavam na companhia de celebração dos 35 da “mais velha” – a Catarina - no naipe da terceira geração (e que vai na quarta já com um trio de estalo). E uma Ilha emprestada deu moldura à festa. Bonita como só podem ser as festas dos que nos continuam.

Ilha da Armona, Ria Formosa, Agosto 2005
Publicado por João Tunes às 10:23
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DO SUL – 4

Armona 052.JPG

Um Cais quer-se de chegada e de partida. Sobretudo quando é portão de uma Ilha. Porque a água é um limite que se quer romper. Quem se quer sujeitar a sentir as escamas a crescerem-lhe no pensamento? Uma dose forte de salmoura chega e até dá para as sobras nas mínguas do resto do ano.

Um Cais sabe bem e deseja-se de vontade forte. Para abrigar e depois conseguir sair-lhe dos braços a ameaçarem tornarem-se tenazes de fuga ao mundo. Estamos feitos se desconseguimos fugir ao feitiço da Ilha. É por isso que um Cais sabe sempre bem.

Imagem: Ilha da Armona, Ria Formosa, Agosto 2005
Publicado por João Tunes às 10:07
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Segunda-feira, 15 de Agosto de 2005

DO SUL – 3

Armona 099.JPG

A Ria não permite tudo mas ajeita-se a muito consentir. Desde, é claro, que não a arreliem com teimosia demasiada.

A Ria é de raça mansa. Foi dessa massa da natureza que foi parida. Ou consentida? Até permite que um homem, com aspecto de perdido na calma das águas, trate da vida a caminhar-lhe catando bivaldes.

Imagem – Ria Formosa, Agosto 2005
Publicado por João Tunes às 23:51
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DO SUL – 2

Armona 108.JPG

Maré baixa. Tanto que os pequenos batéis são obrigados a dormirem a sesta em chão duro de areia molhada. Ali, ao lado do sinal da veia a céu aberto a drenar passagem da água mais distraída obrigando-a seguir o caminho da fatalidade de se juntar ás águas suas irmãs.

Maré baixa. Sem razão para nervo nem escândalo. A maré alta não tarda aí. Fosse a vida assim e tudo que é ou finge ser psiquiatra ia para o desemprego.

Imagem – Ilha da Armona, Ria Formosa, Agosto 2005.
Publicado por João Tunes às 23:36
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Domingo, 14 de Agosto de 2005

DO SUL – 1

Armona 088.JPG

Amontoado atamancado de casarios espalhados e depois acumulados na invasão da areia. Porque onde mija um português, logo vão mijar dois ou três.

Somos muito assim – gostamos de parir casas como os maníacos das proles parem filhos. Plantar uma casa (e depois de plantar a primeira, plantar a segunda e por aí fora) é aspiração cara a muitos portugueses. Onde calhar, estiver á mão e quando quem ordena sofra de distração crónica ou aguda. E em que é que a areia é menos que o sol? Pois, e o sol, desde que nasce, não espalha o signo da igualdade mais igualitária? Ocupam-se pois o máximo de palmos de areia a construir castelos privativos de lazer em que quase se possa adormecer com o mar a aconchegar os pés. Alguns destes espertos na patifaria urbanística e na devassa do ambiente até não gozam dos privilégios castelares, usam-na antes para meter cobres na conta, pondo a render a construção atamancada na areia privatizada, alugando-a aos orfãos de sol e mar. Depois, bem depois, que venham os legalizadores-urbanizadores remediar o remediável fazendo vista grossa ao irremediável. Somos muito assim.

No amontoado de casarios acumulados, há quem goste de dar um toque de gosto ou de dignidade. Por exemplo, dar a pose aristocrática de uma nobre aldraba à porta inventada em que tinta e ferrugem fazem luta de teimas.

Imagem: Ilha da Armona, Ria Formosa, Agosto 2005.
Publicado por João Tunes às 00:30
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Sábado, 13 de Agosto de 2005

DOIS ANOS

Armona 155.jpg

Dois anos a blogar - tempo muito, tempo demasiado. E a ferrugem na casa das máquinas é tanta que as pás da hélice da vontade nem mexem como resposta ao desafio da força das marés. Não sei se o vício será mais forte que a vontade de parar para reparações ou venda como sucata. Dito de outra forma, vamos ver se desconsigo. De qualquer modo, nada como naufragar encostado a um porto, mesmo que de desabrigo. A terra sempre está a um passo da liberdade da fartura de água.

Na imagem, navio encalhado junto do porto de Olhão, Agosto 2005.
Publicado por João Tunes às 00:30
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