Sábado, 23 de Julho de 2005

PAÍS COM PICHA ARDIDA

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Lá fui em saltada até à Serra do Açor, destino Pampilhosa da Serra, levando dois simpáticos e jovens companheiros para espetar com eles nos braços dos avós. Um matar saudades que lhes quis oferecer, sabendo o gozo imenso que dava às duas partes, e que me misturei para aproveitar boleia de carinho e como contra-veneno para que a alma não azede e comece por aí a engolir vinagre por perda de sabor ao que merece o nome do vinho bom da vida. E o espectáculo valeu para compensar o esforço de galgar serras na ida e volta tendo pouco mais que uma noite de intervalo.

A viagem está mais que sabida e quase sabendo de cor e salteado cada curva, cada recta de folga e cada vista que, mesmo de solaio, já está registada na memória. Os fogos rondam mas, por enquanto, estão longe da vista as suas cinzas e o castanho de destruição de árvores e mato.

Eis senão quando, saído do Pedrogão Grande, entro nessa sequência tripla das três localidades gémeas e quase pegadas entre si ladeando a estrada – Picha, Venda da Gaita e Senhor dos Aflitos e que, normalmente, dá direito aos comentários do costume. Mas, desta vez, a chacota entupiu-se perante o espectáculo mais que desanimador. É que, sem que eu tenha dado por ter sido notícia gorda nos periódicos e telejornais, Picha ardeu. E bem (o fogo envolveu as casas da localidade e chegou junto à sua bomba de gasolina). Não tendo tido disso notícia e por isso faltando-me o devido sobressalto, este País ia ficando sem Picha e não se safou sem que ela ficasse metida entre restos carbonosos de um valente churrasco. Se calhar fui o único a não saber. Ou então este desgraçado País já está por tudo e tudo disposto a perder e a churrascar. Sinal de que estamos mesmo nas últimas – queimam-nos a Picha e o País muda ministros mas não muda de modorra. Nada se passa aqui?
Publicado por João Tunes às 21:51
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Sexta-feira, 22 de Julho de 2005

RESPOSTA PELA VIA MONÁRQUICA

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Se os meus amigos, como este, desatam a candidatarem-se para Presidente da República, arriscando-me a que sejam todos presidentes (por uma questão de mérito, coisa que a nenhum deles falta, não sobrava um que deslustrasse a função) e assim ficarem sem tempo para me aturarem, eu não vou ficar para aqui reduzido a chatear os vizinhos, nem os velhotes e as velhotas do Centro de Dia, muito menos embirrar com a mulher, os filhos, o neto e o cão. Se a ideia do Xicuembo (que eu já não sei se é amigo de Almeirim ou amigo de Peniche) era condenar-me à solidão, está bem enganado. Ainda me dá, mas é, um vaipe, abarbato o trono ao Juan Carlos (que para isso não é preciso eleições), conquisto esta Província e meto um vice-rei em Belém. Como assim, se calhar é mesmo essa a missão que me trouxe ao mundo – antecipar a inevitabilidade histórica. O Xicuembo que trate da sua eleição que eu vou já arrancar com a aclamação.

Adenda: E nem é tarde nem é cedo. Vou arrancar já para a campanha de aclamação na Serra do Açor. E pode haver maior e melhor aclamação que a dos afectos? Pois, até já que eu não demoro.
Publicado por João Tunes às 12:44
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CANTILENA PELA POESIA

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Há vezes em que marx escreve direito por linhas tortas e acrescente-se que lenine também porque nunca nos vão obrigar a separar um do outro nem nas linhas nem no que fôr e isto vem a propósito de ter lido ontem o josé pacheco pereira no público apesar de ele ter sido pelos chineses quando não devia ser porque se fosse pró chinês hoje em dia até o era muito bem porque os camaradas dos têxteis deles agora até estão unidos aos trabalhadores do vale do ave mais a sua luta pela defesa dos postos de trabalho e são do pouco que resta do verdadeiro socialismo queira ou não o facho da madeira mas esse josé pacheco pereira como já disse foi pelos chineses na altura que eles estavam desconcentrados e desencontrados dos camaradas soviéticos e portanto na contra-revolução mas agora até nem sei se foi marx ou engels ou mesmo lenine que disse que era péssimo para a revolução ter-se razão fora do tempo e o certo é que agora que os chineses estão na linha justa é que o josé pacheco pereira lhes virou as costas e ganha a vida a caluniar a memória do camarada álvaro contando coisas que se calhar até aconteceram mas de que a burguesia se aproveita e isso para um verdadeiro revolucionário deve sempre ser tido em conta e que é o princípio de nunca se fazer o jogo do inimigo seja ele qual fôr e que são tantos que a gente nem sabe para onde se virar mas voltando a essa peça jornalística do josé pacheco pereira no artigo de ontem do público vá lá que temos de lhe reconhecer que esse facho teve um vaipe de lucidez dialéctica ao escarrapachar os méritos poéticos do nosso camarada jerónimo que editou aquele livro de poesias originais e editadas por aquele jornal que de público só tem o nome porque se eles fossem sinceros chamavam àquilo o público burguês mas apesar disso e só para ganharem uns dinheiros para engordarem o belmiro editaram o livro de poesia do camarada jerónimo e e que está a ter um enorme sucesso e que recolhe as poesias populares que ele escreveu entre os discursos do tempo da cintura industrial de lisboa e em que dia sim dia não havia uma manif e o camarada jerónimo discursava sempre mas pelos vistos nos dias não em que não havia manif e o camarada não discursava aproveitava para fazer boa poesia e demonstrando assim que não se fica atrás dos desenhos e dos romances mais os filmes do camarada precedente e de que ele está a continuar a obra e muito bem e tanto que já não se viam tantas lutas juntas desde os tempos da muralha de aço como o facho do josé pacheco pereira acaba de reconhecer que até gostou daquelas poesias que não tenho dúvida que vai ser o grande sucesso autodidacta do stand dos livros da próxima festa do avante a par dos desenhos do álvaro e dos romances do álvaro e dos dvds com os filmes do álvaro e mais as fotografias com o álvaro a empurrar a revolução porque agora já podemos dizer o que nos vai na alma sobre o álvaro sem nos mandarem calar por causa dessa coisa que era proibida lá do culto da personalidade quando o kruschov começou a trair a revolução soviética e a preparar o poleiro para o traidor do gorbachov e se agora podemos dizer bem do álvaro que está falecido como falecida está a união soviética também não vamos deixar o jerónimo atrás lá porque é metalúrgico e está vivo e cheio de energia para combater a direita e ainda arranja tempo para fazer boa poesia.
Publicado por João Tunes às 00:20
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Quinta-feira, 21 de Julho de 2005

CANTILENA DA OTA E DO TGV

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Não dou dois dias bem medidos ao governo reaccionário do sócrates agora ainda mais alinhado à direita desde que mandou embora o ministro das finanças que era o único que defendia os direitos dos trabalhadores e o aumento dos ordenados e das pensões mais a progressão de carreiras dos camaradas da função pública e para mais cedendo em toda a linha às privatizações do ministro rachado que é esse não sei quê lino que antes de atraiçoar este ministro das finanças com as suas políticas de privatizações já atraiçoara o nosso querido camarada carlos costa que é um dos camaradas melhores que cá temos e a quem desejo do coração que ainda tenha muitos anos de saúde e de energia e que porque não era sectário confiou tanto nesse tal lino que até fez dele o seu braço direito para depois sair pela direita baixa e armar-se em renovador social democrata e apoiante do traidor do gorbachov que nos deu cabo da nossa rica união soviética que era quem aguentava a revolução em todo o mundo e metia respeito aos americanos e assim acabou muito bem expulso do partido e vem agora esse ministro rachado qualquer coisa lino a querer privatizar os aeroportos e as estações e linhas de caminhos de ferro e como os capitalistas nunca se cansam de encher a pança ainda lhes quer dar a ota para expropriarem as hortas dos operários agrícolas de alenquer e arredores e para mais prejudicar os camaradas taxistas que vão ter muitas dificuldades em pagarem o gasóleo da ota para lisboa e de lisboa para a ota quando estavam tão bem neste aeroporto e onde era uma beleza expropriar os capitalistas camones que iam do aeroporto para os hotéis da baixa dando-lhes tantas voltas pelo caminho que quando chegavam ao hotel já queriam voltar para casa porque já conheciam lisboa da frente para trás e de trás para a frente e não satisfeito com isto ainda quer meter os comboios a andarem mais depressa que é para as bilheteiras cobrarem mais dinheiro pelos bilhetes e assim engordarem os lucros e não darem tempo a que se façam plenários dos camaradas ferroviários na luta pelo seu contrato colectivo que como sabemos é a coisa mais sagrada que um trabalhador pode ter apesar da ofensiva com o novo código do trabalho que muito bem a cgtp não aceita e não podia aceitar porque ele está feito à medida dos amarelos aliados do patronato mas é por estas e por outras e graças ás lutas populares que este governo do sócrates não se vai aguentar só com o apoio da direita e se se quiser salvar eles que apoiem para a presidência o nosso camarada carvalhas que é assim para o mole e para as falinhas mansas e nada que se pareça com o metalúrgico jerónimo que é o camarada com mais espírito de classe que conheci até hoje mas tem de haver camaradas para todos os gostos e feitios e não podemos ser sectários nem impôr os nossos pontos de vista e através da discussão mas nos sítios certos é que se chega às decisões correctas e essa de candidatar o camarada carvalhas até que está bem vista e os socialistas que nem candidato conseguem arranjar se se querem ver livres da pressão da direita vão ter mesmo de alinhar com o camarada carvalhas que foi um camarada que já deu muito ao partido e até sacrificou bons ordenados porque ele tinha estudos e era muito competente nas economias e não pode andar por aí sem tarefas atribuídas.
Publicado por João Tunes às 17:40
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CHARADA OU CIFRA?

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Por vezes muito temos de nos espremer para entender certos posts. Até que cheguei a um que bateu o record – espremeu-me (mais que espremê-lo) e não saíu nada. Ajude-me quem o souber decifrar:

”.atsilaicos adreuqse ad laicnediserp otadidnac o res a otsopsid átse laramA od satierF

!otiugnam mu savel ,etrap ahnim aD”


Isto será linguagem cifrada a anunciar algum atentado? Pelo sim ou pelo não, fica à atenção dos tipos do SIS. Declaração de interesses: utilizo, com frequência, transportes públicos (comboio, autocarro e metro).
Publicado por João Tunes às 16:16
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Quarta-feira, 20 de Julho de 2005

CANTILENA SOBRE UMA DEMISSÃO

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Estão a ver como o ministro das finanças já foi desta para melhor e logo ele que nunca trabalhou numa fábrica nem conhece os sofrimentos do proletariado e estava apenas habituado a dar aulas mais pareceres e a receber reformas vitalícias e antecipadas no banco que fabrica os euros e não se aguentou nos balanços de inclinar o barco da governação para a direita e tanto para a direita que estava quase na extrema direita para lixarem o povo trabalhador como bem avisam os nossos sindicatos e que afinal o próprio ministro que era das finanças e dava aulas sobre essas coisas nos veio dar razão e como mais vale tarde que nunca cá eu se encontrar o homem em setembro na festa do avante ali para as bandas do seixal vou dar-lhe um abraço e perguntar a este camarada se está tudo bem com ele e que emprego novo é que ele arranjou mas avisar o camarada que agora que aderiu à causa do nosso partido para fazer a revolução e não deixar cair o marxismo do leninismo o recebemos de braços abertos mas ele que não se lembre de começar a mijar fora do penico e dar-lhe já para embirrar com o camarada jerónimo e a querer fazer para aí uma cisão ou uma fracção armado em folha seca porque hoje a gente já não sabe em quem há-de confiar e tudo está das avessas como se viu pelo chamado arrastão e que os camaradas do paigc ou do mpla ou da frelimo denunciaram como uma mentira imperialista da imprensa racista mas quanto a eles serem do paigc ou do mpla ou da frelimo é que já não sou capaz de distinguir porque eles são todos pretos e embora camaradas nossos e dos bons não deixam de ser pretos e a gente que não esteve em áfrica tem dificuldade em saber no meio dos pretos quem são os do paigc e do mpla e da frelimo e até quem são os camaradas e os que são dos bandidos do savimbi mas isso não vem ao caso e os pretos que se entendam e estão lá os camaradas da cor deles para ajudarem os proletariados africanos a seguirem em frente e se tiverem dúvidas que perguntem ao camarada mugabe que está a meter a áfrica no caminho do socialismo avançado embora não lhe goste do bigode que me lembra o nazi do adolfo cuja única coisa boa que fez foi o acordo com o camarada zé dos bigodes mas tirando isso foi uma desgraça embora se durasse um bocadinho mais também não se perdia nada e os camaradas palestinianos do lenço igual ao que ofereci ao meu filho mais novo quando fez o nono ano pois desses mesmos os do arafat e que tinham de certeza a vida mais sossegada sem os imperialistas judeus a reprimi-los e a mandar-lhes bombistas suicidas para estoirarem nos campos de refugiados e logo nos campos deles que o que querem é paz e sossego e nada querem com bombas nem roquetes sejam roquetes russsos ou do sporting mas voltando ao camarada que teve a coragem de deixar de ser ministro das finanças deste governo de direita eu a esse garanto é que não fica sem um beijinho na festa do avante que está aí quase a acontecer porque o camarada teve hesitações isso é certo mas acabou por se definir e eu se há coisa que não sou é disso dos sectarismos e até sou muito aberta senão não estava aqui a falar com vocês que são uma cambada de reaccionáros senão não vinham ler este blogue de um rachado que traiu o nosso partido e deve servir-se para intoxicar a opinião pública de um computador pago pela cia.
Publicado por João Tunes às 23:40
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VAMOS LÁ DESCER À TERRA

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Tirando a questão de somenos quanto ao estilo (prefiro os “menos pesados” e o dele induz-me transpiração de anfiteatro cheio de Lentes em dia de solene Seminário Académico), eu leio sempre e com muita atenção os textos do estimadíssimo Miguel Silva. E, por regra, aprendo ou, pelo menos, fica-me a fazer pensar (o que é o melhor para se motivar o aprender).

Este post não foi excepção na regra. Gostei e até enfiei a carapuça de “jogador do totoloto” quando ele diz:

”Por essa blogosfera tem havido uma profusão de textos muito bons sobre a necessidade de entender o fenómeno das formas actuais de terrorismo para melhor o combater. Mas, ainda assim, com a igual quantidade de opositores a esta concepção, não é demais relembrar um autor que se dedicou, com lucidez, a esta temática. Até porque há quem confunda a compreensão com a aceitação ou a capitulação. A compreensão do outro não inviabiliza o juízo moral sobre os seus valores, tal como não pressupõe uma assimilação cega nem uma recusa obstinada dos seus modelos culturais. Permite, isso sim, uma visão crítica mais informada da realidade. Quem não perceber isto só vai acertar nas medidas mais correctas para combater o terrorismo como quem acerta no Totoloto: por mero acaso.”

Mas, carapuça enfiada, não deixo de considerar que na parte da defesa de uma certa dama (e que é honrada como todas as outras desde que vestidas com argumentos), há um sofisma que atravessa o argumentário e que ele tenta fazer perdurar.

É que, caro Miguel, não julgo que “nós outros” estejamos contra o aprender e o compreender o terrorismo (negociar com eles, já é outro negócio). No meu caso, defendo que as competências policiais e criminalistas de combate ao terrorismo exigem sofisticação de meios, de informações e de entendimentos. A diferença fracturante, pelo menos a que consegui perceber, não está por aí. Porque, que eu saiba, ninguém defendeu a marrada policial ou a cegueira gatilheira. E quem defenda tal, decerto que o vai camuflar num celofane respeitável. Até porque os tempos que correm não são propícios à estupidez assumida (essa fica para os que fazem o trabalho sujo do racismo e da xenofobia). Julgo que a grande diferença esteja entre os que escrevem “a necessidade de entender o fenómeno das formas actuais de terrorismo para melhor o combater” e outros que escreveriam em alternativa “a necessidade de melhor combater o terrorismo e, para isso, entendê-lo o melhor possível”. Para que as águas fiquem nos tanques devidos e não haja confusão entre chefes terroristas e lideres eleitos nas democracias. Não dando margens a dúvidas que os primeiros são para aniquilar (poupando vítimas, poupando-nos) e os outros são, quando demonstrem falta de mérito, para serem substituídos em próximas eleições e sem confusão de valorização entre bomba e urna de voto, dando como adquirido que este paradigma está mais que entendido e compreendido. E que, muito menos, seja necessário regredir para o caos para depois reconstruir tudo direitinho. Porque, como dizia o cantor, para pior já basta assim.
Publicado por João Tunes às 17:24
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CLEPTOBLOGANDO

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Se feio é roubar, também se rouba por bem ou por reconhecimento. No último caso, até se pode roubar por gosto. É o caso. Com o gosto de transcrever:

“São de toda a parte, de remotos lugares esquecidos de deus e dos homens, pequenos pontos negros no mapa da nação que os chama a defender o império, angola é nossa, portugal do minho a timor. Ao longe todos iguais, pescadores sem redes, lavradores sem enxada, mole esverdeada encurralada entre o rio e as grades e a polícia militar e a banda que toca marciais marchas para elevar a moral.

Boina castanha cobrindo o cabelo rapado, mochila às costas, cigarro nervoso queimando as pontas dos dedos, sorriso forçado para benefício dos que ficam, mãe, pai, namorada, amigos. Não chores mais minha mãe, vai ver que não me acontece nada, Leva este santinho que o senhor abade benzeu, não te esqueças de rezar o terço e que deus te proteja e guarde meu filho, Espera por mim meu amor, quando voltar casamos, Promete que me escreves todos os dias e vê lá não me esqueças tu, Cuide das vacas meu pai, Dá cá um abraço rapaz, Adeus rapazes, vocês tiveram sorte, Sorte tens tu pá, dizem que as pretas se pelam por um branco e são boas como o caraças.

O corneteiro toca a formar, pelotão, companhia, ao longe discursa uma farda, pelo menos parece só uma farda, não se vê o homem dentro dela, só o faiscar das medalhas e o dourado dos galões. Os altifalantes gritam palavras, valorosos infantes, dom afonso henriques, dom nuno álvares pereira, os valentes de mouzinho, os heróis de la lys, pátria, nobre missão, se necessário com o sacrifício da própria vida.

Meia-volta, volver, ordinário-marche, sobe-se o portaló do navio, niassa, vera-cruz ou outro qualquer, tanto faz, já se vai enchendo o bojo do monstro que vomita rolos de fumo cada vez mais grossos e negros, anunciando a partida. Nos conveses amontoam-se os corpos, luta-se por chegar à amurada, para se chegar a um último adeus aos que ficam.

No cais não se reconhece ninguém, só lenços brancos acenando, choros e gritos e ranger de dentes, e a banda que continua a tocar, e os capacetes brancos da polícia militar, ou serão mais lenços. Chegam a bordo as senhoras do movimento nacional feminino distribuido cigarros e bentas imagens e aerogramas e apertos de mão, cheirosas senhoras bem, filhas de famílias bem, esposas fidelíssimas de senhores bem e mães extremosas de meninos bem a estudar em londres ou com adiamento de incorporação a beber bicas no nicola e a ler sartre. Piedosas senhoras bem comprando bilhetes de lotaria da taluda do reino do céu, anda à roda no dia do juízo final, E tu que fizeste minha filha, Distribui cigarros e bentas imagens e aerogramas e apertos de mão, senhor.

Larga amarras o navio afastando-se lenta e inexoravelmente de terra, adeus cais de alcântara, adeus ponte salazar, adeus farol do bugio, adeus, adeus, até ao meu regresso. Roncam mais forte as entranhas da nave, mais negro e espesso o fumo que expele, entrando mar adentro, o mar salgado das lágrimas de mãe que o poeta cantou.

Quanto dura a viagem, Um mês, dizem os lavradores sem enxada, riem-se os pescadores sem redes, mais feitos a estas coisas do mar, só o barco é maior que as ondas são as mesmas, Quinze dias com escala na madeira. Quinze dias de balanço, para cima e para baixo, para cima e para baixo, quinze dias de enjoo e diarreia, até todo o navio cheirar a merda e todos os homens cheirarem a vómito, suor e punheta, pela primeira vez irmanados oficiais, sargentos e praças, a outra será por entre o ondular do alto capim e os balanços do unimog, quando o medo for a causa da náusea e da diarreia, que todos nascemos e morremos do mesmo modo e nas misérias da carne todos os homens são irmãos. Para matar o tempo, que não é ainda tempo de matar, jogam-se intermináveis jogos, inventam-se maleitas, forjam-se acidentes, em tempo de guerra não se limpam armas, qualquer estratagema serve se o resultado dor baixar à enfermaria, ou, derradeira esperança, voltar a casa como inapto, ou tão só não ir para o mato, esse matos de que os velhinhos falam com mistério e sobranceria, Como é o mato, conte lá nosso primeiro, Vocês depois vêem, para se borrarem de medo já chega quando lá estiverem...

Quase imperceptivelmente o tempo vai aquecendo e uma madrugada sussurra-se por todo o navio, Chegamos, chegamos a áfrica, e todos se levantam para ver essa terra remota e estranha que lhes dizem também ser portugal e estar ameaçada. Ameaçada por um bando de pretos mal agradecidos, cães que mordem a mão do dono, de quem os tirou da barbárie e lhes levou deus e civilização, os turras. Cuidado com os pretos, dizem-lhes, Cuidado com os pretos, não lhes dêem confiança que qualquer filho da puta dum mainato pode ser um turra disfarçado, um espia. Se abusarem arreiem-lhes e cuidado com as pretas, são todas umas putas, animais com cio, cadelas saídas, ponham-se a pau com os esquentamentos.

E amanhece em áfrica e sobem a bordo cheirosas senhoras bem, piedosas senhoras bem, só os vestidos são mais leves e a pele mais morena, uma banda toca marciais marchas, desta vez não há lenços brancos a acenar, só os capacetes da polícia militar.

O corneteiro toca a formar, pelotão, companhia, desce-se o portaló do navio e gritam-lhes, Toca a despachar seus checas de merda, toca a subir para as berliets.

No cais não se reconhece ninguém.

.

Eu não me lembro, não vivi a guerra, só sei de ir à escola e fugir para o rio e roubar mangas e papaias. Talvez não tenha sido bem assim, mas é assim que eu recordo as palavras dos que lá estiveram e me contaram. Do resto só sei o que li, porque os que me contaram, chegando aqui, puxam do baú da memória de velhas estórias de copos e putas e impalas abatidas a tiro de g3 e de súbito recordam o 29, O gajo de mangualde ou será que era de manteigas, O gajo era lixado para a paródia, uma vez íamos na picada e ..., e embaciam-se-lhes os olhos, embarga-se-lhes a voz e emudecem. E eu não insisto.

Talvez um dia, quando o peso dos anos e o tempo tiverem amainado a sua dor e sentirem necessidade de revelar aos seus netos o que aconteceu, talvez nesse dia me contem e eu então contarei, para que se não esqueça...”


Obrigado Magude. E desculpa lá este clepto-impulso.
Publicado por João Tunes às 14:56
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UM DIA, VARADERO PARA OS CUBANOS

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- Varadero é altamente competitivo nos destinos turísticos sol-mar. Particularmente, no package TI (tudo incluído). Nesta altura, as marcações estão já praticamente esgotadas nas Agências de viagem. São as leis do mercado.

- Nas praias e complexos turísticos de Varadero os únicos cubanos a quem é permitida a entrada são os funcionários de hotelaria ali em serviço. É rigorosamente impedido a qualquer cubano tomar banho nas praias de Varadero ou frequentar as estruturas turísticas. Varadero é coutada reservada a estrangeiros. É um socialismo real.

- Um dia virá em que os cubanos poderão gozar das praias de Varadero como os estrangeiros. Será quando a sua Pátria fôr toda a Pátria.
Publicado por João Tunes às 00:26
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Terça-feira, 19 de Julho de 2005

CANTILENA DA GREVE GERAL

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Ó minha senhora isto só lá vai com uma grandessíssima greve geral e oiça o que lhe digo porque mais tarde ou mais cedo é isso que vai acontecer e já o meu marido diz que eu tenho a mania dos exageros e vai-se a ver eu acerto sempre e só não acerto no euromilhões porque isso é coisa capitalista e a classe exploradora não quer nada comigo nem com os meus camaradas como não quis com aquele santinho que no mês passado foi a enterrar e não satisfeito com o que lhe fizeram quando vivo veio o imperialismo do bush e ainda o mandou queimar todo quando faleceu só que os camaradas estão organizados nas suas células que é onde as coisas se discutem e mandaram vir o jerónimo lá da coreia e da china que é o que nos sobra de bom na política internacional mais as praias de varadero onde a minha filha vai este verão se entretanto o furacão com que o bush atacou o camarada fidel for derrotado pelas massas populares e depois como eu lhe dizia os camaradas desforraram-se e ainda fizeram um enterro maior ao álvaro que o funeral reaccionário da irmã lúcia e que fez perder as eleições ao santana lopes e que connosco não resulta porque nós sabemos bem que isso de eleições é teatro da burguesia para adormecer os operários e se a senhora viu e que eu saiba foi a primeira vez que num funeral se gritou assim se vê a força quando o costume é achar que ao defunto a força é a coisa que mais lhe faltou e tanto que se ele se mexer desata tudo a fugir e a pensar em bruxas mas isso de enterrar o falecido com a força do pêcê foi mesmo o que mereceu este governo de direita que está ainda mais à direita que todos os outros e assim a luta é que é o caminho e pode acreditar que se os camaradas polícias entram na luta e cortam pontes e mais o que for preciso então não tem nada que saber que estes capitalistas caem mesmo porque muito por isso já fizeram os camaradas médicos mais os camaradas professores e os camaradas enfermeiros além dos camaradas da função pública e os camaradas donos das farmácias que também se vão juntar à luta porque a classe operária não pode adormecer e se a luta é de todos ninguém lhe deve faltar e a senhora vai ver se depois das férias e quando voltar aí a chuva que bem falta faz à reforma agrária que parou porque o alqueva está seco e todos com as ideias mais frescas e menos endrominados com a comunicação social se não se arma para aí uma grandessíssima greve geral e o governo da burguesia vai de pantanas e temos aí o camarada cavaco a meter isto na revolução.
Publicado por João Tunes às 23:03
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AMEAÇA DE IMITAÇÃO DE LIBERDADE (2)

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Voltei. A pensar em ir. Aliás, voltei porque fui mas o que queria mais era voltar.

Obs: Bolas, há gente que só pensa em férias...
Publicado por João Tunes às 22:04
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AMEAÇA DE IMITAÇÃO DE LIBERDADE (1)

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Irei. A pensar em voltar. Aliás, vou porque volto.
Publicado por João Tunes às 15:59
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A SUCESSÃO “NATURAL” DE CHISSANO PARA GUEBUZA

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“Este é também um governo de transição. A maior parte dos ministros e governadores não têm experiência para um nível tão alto e inevitávelmente alguns vão falhar. Além disso, nem todos os ministros foram escolhidos por Guebuza. Alguns foram nomeados por figuras seniores do partido Frelimo, alguns por razões pessoais, e o governo contem ainda ministros leais à ala Chissano do partido. Tem havido uma azeda luta interna no governo, e Guebuza está portanto ainda a tentar ganhar a lealdade do seu próprio governo. Parece provável que haja uma remodelação no próximo ano.”

“Entretanto, dentro do partido Frelimo, continua a luta entre apoiantes de Guebuza e de Chissano. A substituição de Chissano como presidente do partido não foi planificada nem esperada, mas aconteceu quando os leais a Guebuza sentiram que Chissano estava a minar o novo governo. Por isso Guebuza está a dispender parte do seu tempo reconstruindo o partido e assumindo o seu controlo, para fazer dele um instrumento de mobilização para o novo governo.”


De artigo do jornalista britânico Joe Hanlon citado aqui.
Publicado por João Tunes às 15:20
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LADINOS

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Não é um blogue de amor fácil por África como outros que se destinam mais a matar ou a curtir saudades pessoais do que a revelar entendimentos que aproximem terras e gentes. O blogue do Rui Guilherme é várias coisas – erudição no estudo da cultura crioula, humildade na redução de filtros interpretativos, prazer na exigência do rigor. Afinal, uma forma superior de gostar de Cabo Verde (não sendo ele um cabo-verdiano) implicitando que o gostar exige o esforço de entender e aprender - o que exige trabalho, persistência e domínio de ferramentas - e que todo o facilitismo a que se deite mão não ultrapassa a meia medida do gosto folclórico ou da cristalização do encantamento preguiçoso. Não é caso isolado entre os bloggers apaixonados por África mas as particularidades de Cabo Verde (a concentração de diversidades muito plurais, a complexidade da cultura e da identidade, lidar-se com um país africano com a tradição e o peso de contar com uma elite crioula fortemente letrada e culturalizada) tornam a empresa de entender e comunicar Cabo Verde como particularmente árdua (e por isso, para os não folclóricos, estimulante). E como são pobres aqueles que de Cabo Verde apenas conhecem uma semana de férias (e que belíssima semana, gabando-lhes o gosto!) na praia-sol-resort-mar da Ilha do Sal e por lá se ficaram a aconchegar a areia e a mergulhar nas suas águas únicas.

Para os não iniciados na cultura crioula ou nela não interessados, a leitura dos textos do Rui Guilherme, entre dois cliques de fugida, não será nem atraente nem gratificante. O que não deixa de ser um mérito pela não transigência. Amar também são os trabalhos do parto do conhecer.

Para os que nunca espeitaram a blogo-divulgação do Rui Guilherme, sugiro a leitura do post ”Ladinos” em que ele transcreve um texto de António Carreira e que é uma revelação interessantíssima sobre o baptismo dos escravos. Vão ver que ficam "clientes".

A foto é proveniente de Iluminando Vidas.
Publicado por João Tunes às 11:56
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SAMBA DO MENSALÃO

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Pode usar esta letra.
Publicado por João Tunes às 01:06
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