Sexta-feira, 3 de Junho de 2005

O MEDO NO NÃO

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Em mais uma das suas crónicas no Público com que reforçamos a ideia que o suicídio é a única via para a sobrevivência dos portugueses e dos europeus, VPV refere as virtudes americanas (exemplificando no campo do sucesso na educação e na incorporação tecnológica) e termina: “Contra isto, a França, a Holanda e a “velha Europa” têm o seu “modelo social”. Até não terem nada.” Como se os caminhos que forjam povos e nações pudessem ser invertidos.

A idolatria neo-liberal tem destas coisas. E uma daquelas em que mais abusa a inventar dicotomias é entre o “social” e o “mercado” (quando o problema, nesta área, em vez de primado, resulta da diferença entre a competência e a incompetência em as conjugar).

A América nasceu selvagem, individualista e feita por imigrantes. E continuam a ser imigrantes os que renovam hoje a onda capitalista selvagem americana, agora falando castelhano com sotaques latino-americanos. Como são eles, os imigrantes mais recentemente chegados da América Latina, quem garante as vitórias de Bush. E tornam a América mais americana. Porque um imigrante recém-chegado aos EUA, a fazer pela vida, é logo americano dos pés à cabeça (em França, na Alemanha, na Holanda, é assim?).

A Europa teima em não querer adoptar a selvajaria mas confundindo-se sobre onde ela está. Sobretudo, a Europa, ao contrário da América, tem medo dos imigrantes. Primeiro, esse medo europeu dos imigrantes pintou-se de fascistóide e xenófobo, hoje uma parte (em crescimento) da direita democrática e da esquerda democrática (ou não) vai atrás das primeiras fatias eleitorais que se deslocaram da esquerda para a direita (melhor, para a extrema-direita) fixadas nesse medo. Um medo que cresceu a assobiar-se para o lado como se fosse uma fantasia de mau gosto. E a história, mal amanhada, da Turquia foi a gota de água a transbordar o copo da irresponsabilidade na lide com os medos.
Publicado por João Tunes às 12:25
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Quinta-feira, 2 de Junho de 2005

HISTÓRIA NO SANGUE DE ANGOLA

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A não deixar de ler os três magníficos posts que o WR dedicou a ”OS TEMAS PROIBIDOS NA HISTÓRIA RECENTE DE ANGOLA” bem como os contributos depositados na sua “caixa de comentários”. Isso mesmo, enquanto duram os tabus não há História, há estórias. E até que a história do 27 de Maio de 1977 se faça, ainda há muitas estórias para contar.

Aqui.

Adenda: Agradeço também ao WR mostrar o caminho para ler a esclarecedora entrevista que se pode encontrar aqui.
Publicado por João Tunes às 15:37
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EM CASA NOVA (OUTRA VEZ)

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Teve que ser. O Água Lisa (2) já estava sobrelotado. Benvindos são.

Nota: Antes, andei pelo Bota Acima e pelo Agua Lisa (1).
Publicado por João Tunes às 15:29
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SOBRE A EDUCAÇÃO TESTEMUNHAL (3 e último, antes que seja tarde demais)

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Um:

Leio, esforçando-me por acabar com o riso (tem que ser - o Pedro olha-me aflito, o cão ladra como costuma ladrar furioso quando o Benfica marca golo, já vejo a cabeça de um vizinho empoleirada no estendal da roupa):

”Exemplo prático sobre a verdadeira "educação testemunhal na evangelização da sexualidade":
Era uma vez um casal que tinha problemas de comunicação a nível sexual. A mulher já estava desesperada, e o marido ainda mais desesperado estava.
Um dia, o marido leu num jornal um anúncio que dizia "resolvo qualquer problema sexual com o método da evangelização" e, em desespero de causa, foi ver o que era.
Era um bonitão, que lhe explicou a simplicidade do método: marido e esposa cumpririam o dever conjugal, digamos assim que hoje vem a propósito, enquanto ele se sentava ao lado e ia lendo o evangelho em voz alta.
Em desespero de causa, assim fizeram. No dia aprazado, o casal foi ter com o bonitão, despiram-se, começaram, e o bonitão ia lendo em voz alta, sentado ao lado da cama. Às tantas a mulher começa a protestar, que é tudo igual, que não vê diferença nenhuma, que não vale a pena, e o marido lança um olhar aflito ao bonitão, que lhe diz: "vamos tentar de outra maneira - você vem para aqui ler, e eu vou para a cama com a sua mulher".
Trocaram, o marido começou a ler, o bonitão começou a fazer o trabalho do marido, e daí a nada a mulher já não estava nada com cara de querer reclamar.
Às tantas, o marido, furioso, grita:
"Vês, meu palerma, vês como se lê o evangelho?"


Claro, isto só podia vir da Helena que, entre outras muitas boas acções, também é o Alter Ego do Manuel António.

Dois:

Agarrem-me senão converto-me.
Publicado por João Tunes às 12:21
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Quarta-feira, 1 de Junho de 2005

UM ÁS DO CASTRISMO

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Recomendo a leitura do post do Fumaças sobre a eminência parda do Castrismo, o irmão de Fidel - Comandante Raul Castro.
Publicado por João Tunes às 23:41
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SOBRE A EDUCAÇÃO TESTEMUNHAL (2)

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A Helena reagiu à minha intromissão do post anterior (e que coloquei no “Dedos de Conversa” como comentário) e quase me acusou de mata-frades ao pensar-me assim: ”estou cá a imaginar que se você fosse touro numa tourada, em vez de um pano vermelho bastava que lhe brandissem uma batina, e lá ia você, tu-tu-tum tu-tu-tum tu-tu-tum, e lá iam batina e toureiro!”

E rematou, tipo estocada inteira com direito a orelhas e rabo, com um terrível desafio: ”Para tornar o debate muito mais fecundo, ganhando nós todos com a sua diferença, proponho um desafio: se você fosse padre, como falaria de sexualidade com os jovens? Hmmm, alto, já vi um primeiro problema. OK. Se você fosse pastor protestante, como falaria de sexualidade com os jovens?”

Sobre a ignorância da Helena sobre touradas e o efeito do vermelho sobre os touros (sobre os curas, presumo que o contrário ocorra, exceptuando no colorido dos Conclaves), já a esclareci no seu sítio. Fi-lo, julgo, com a calma olímpica que possa ter um pacífico devorador de salsichas, embora me reste o mistério indecifrável do porquê de ela imaginar que se faça “tu-tu-tum” (parece-me mais coisa de índios) quando um touro investe ou um herege tenta virar de pantanas um cura a fugir de sotaina arregaçada. O que demonstra a desgraça igual que é um ateu meter-se em coisas de religiões ou um crente caricaturar pessoas de nenhuma fé religiosa. E eu concedo que a asneira original foi minha. Mea Culpa. O que não me impede de continuar a perorar, sobretudo perante um repto estimulante.

Fica, que se esprema sem picardia nem sequer ironia, o desafio de eu me imaginar cura ou pastor a “falar de sexualidade com os jovens”. Que diria? Isso mesmo, que diria?

Boa pergunta, ficando claro, como declaração de princípio em ante-sala e para facilitar, que, em qualquer circunstância e sobre qualquer tema, se a desdita me tivesse levado a ser cura ou pastor, a primeira coisa que faria (ou devia fazer), sempre, era deixar de o ser. E esta nota aqui fica como mero sinal de respeito pela diferença e por achar que entendo bem que falamos do mesmo tema mas com posturas em plateias diversas, relativizando a essência provável da discordância.

Continuemos, imaginando-me cura ou pastor, nunca o sendo por não o poder ser. E isso remete-me ao meu papel de pai e de educador com vestes de laico procurando o bem. E só nessa qualidade respondo, dessacralizando a coisa. E digo-lhe: - tenho por norma pedagógica “não falar de sexualidade com os jovens”. Escuto-os, tenho-lhe os ouvidos bem abertos (às palavras e aos sinais) e só entro em achegas se vir que há perigo à vista ou apetência em me saberem a opinião ou a experiência (o que só raríssimas vezes acontece). Porquê? Porque não acredito em “educação sexual”, em “normativo sexual”, em “experiência sexual transmissível”. E sou tolerante sobre os caminhos, que sei serem ínvios (só podem sê-lo) da descoberta da sexualidade, porque acredito que, sem os pisar ou evitar-lhes a atracção experimental e de descoberta, não há síntese de maturidade que resulte. A sexualidade não é esquecida mas não é um “problema” a necessitar de “educação” (excepto quanto à prevenção de doenças sexuais transmissíveis e à gravidez precoce ou não desejada), tanto mais que eu não tenho chave para ninguém (a minha cá vai andando mas sobre ela não falo por pudor e se ele me é permitido nesta conversa de amizade e bem querer) sobre os caminhos de autodeterminação sexual nem normas para dar ou vender, quanto mais testemunhar. E, para mais, nem sequer sei o que é o “sexualmente correcto”. Sou mais um intuitivo que um pedagogo, como vê. E assim me defendo não me demitindo. O tema vem quando vem (sempre e apenas quando lhes apetece, aos jovens) e procuro misturá-lo, enquadrando-o em outros valores, interesses e facetas, retirando-lhes uma carga autónoma de “problema” ou de “tema”. Sobretudo porque penso que a sexualidade é amor (mas tem um campo próprio – e autónomo - de realização de prazer e o prazer só é ilegítimo quando agride alguém) mas que os seus caminhos são únicos e não transmissíveis, não julgáveis, livres de liberdade feita, em que qualquer testemunho normativo ou de mensagem (passado como evangelização ou como redenção dos pobres e oprimidos) é apenas um acto de violência e de tentativa de domínio sobre outro, com dolo se cometido sobre um jovem. Falando do mundo e das pessoas, de nós, de vós, deles, daqui, dali, não falamos de sexualidade? Oh se falamos. Não fosse assim, não se topavam à légua, como se topam, os “sexualmente infelizes” ou “sexualmente sublimados” (aqui está outra categoria dos “infelizes sexuais”). Por isso é que, querendo ou não, julgo que andamos permanentemente a dar “educação sexual” aos jovens. E como ele topam a nossa “autoridade académica” no assunto ou absoluta ou meia inépcia para tal arte. E aqui é que o touro torce o rabo, para terminar com um regresso de estilo aos tais curas, pastores e evangelizadores, ou seja, às minhas embirrações de estimação.
Publicado por João Tunes às 18:05
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SOBRE A EDUCAÇÃO TESTEMUNHAL (1)

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Leio:

”Destacarei três frentes particularmente interpeladoras que apelam ao testemunho dos cristãos.
A nossa profecia cívica deve levar-nos a acabar com o sorriso cúmplice, diante dos «ladinos» que fogem ao dever de pagar impostos e ainda por cima se gabam da sua «esperteza». A ilegalidade, mesmo que menor, não pode ser vista como uma acção eticamente anódina, pois acaba por impor uma sociedade onde a única regra é a afirmação daqueles que não têm escrúpulos.
Também o mundo do trabalho profissional precisa de ser questionado. Se se deve denunciar com veemência a exploração dos trabalhadores, é também necessário defender que os direitos inerentes a uma actividade profissional não se podem divorciar dos correlativos deveres de honestidade e dedicação, particularmente no actual contexto em que os desafios da produtividade e da qualidade são decisivos para a saída da crise económica.
O mesmo se diga do campo da urgência da evangelização da sexualidade. A dimensão do fenómeno da pedofilia e doutras perversões deveria levar-nos a perguntar em que medida não seremos coniventes com o actual clima de erotização global que diariamente entra em nossas casas. As novas tecnologias da informação, designadamente a Internet, estão a ser utilizadas, com o nosso silêncio e porventura com a nossa conivência, para incitar a uma visão desresponsabilizada da sexualidade. Impõe-se cultivar um distanciamento crítico dessas armadilhas do hedonismo, através de uma educação testemunhal que ajude à formação de hábitos mais favoráveis a um desenvolvimento harmonioso da pessoa humana.”


E julgo que percebi quase tudo. Mas fico à espera que o Manuel António Ribeiro nos explique, não precisando de cair nas armadilhas do hedonismo, como se faz a tal educação testemunhal na evangelização da sexualidade. Porque, com a Igreja que temos, a que anda por aí e “diariamente entra em nossas casas”, a inspiração parece escassear.
Publicado por João Tunes às 13:06
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