Segunda-feira, 5 de Julho de 2004

Alussa oli suo, kuokka ja Jussi

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Tenho fundas impressões da Finlândia (Helsínquia e Vaasa) onde estive por mais de uma vez. E deste país guardo distantes memórias:

- Ter a luz do dia, em plena intensidade, a entrar pela janela às cinco da manhã.

- Abrir a janela do quarto do hotel que dava para o terminal rodoviário em hora de ponta, cheio de uma enorme multidão a caminho do emprego, e não se ouvir um ruído ou um murmúrio.

- Não perceber patavina do que eles diziam na sua língua.

- Experiência reconfortante da diária “sauna finlandesa” (entre cada sessão, convívio à volta da mesa com cervejolas e salsichonas, cada um enrolado na sua toalha) que é a forma típica de eles, ao fim do dia, conviverem e até porque há uma sauna em cada quarteirão.

- Encontrar um povo que consegue ser mais tristonho que o nosso.

- Enorme afinco e produtividade no trabalho.

- Magnífica roupa de Inverno.

- Não os conseguir acompanhar na bebida.

- Custo de vida muito alto.

- Paisagens magníficas muito ao meu gosto.

Isto vem tudo a propósito de um magnífico blogue (de um português que vive na Finlândia) que tem o nome, perfeitamente acessível, de Alussa oli suo, kuokka ja Jussi. Perceberam? Vão lá espreitar. Aposto como ficam “clientes”. Li lá, intitulado Libertação, um dos melhores e mais sucintos posts sobre os portugueses e o Euro 2004.

A luso-blogosfera está-se a estender pelas sete partidas. Imparável. Qualquer dia, a esfera armilar da bandeira tem que ter dentro o símbolo da Internet. Porque ela se está a tornar na nova versão do nosso talento de navegadores.

(NOTA: A imagem representa um banho integrado no processo da sauna. Mas, segundo percebi, o sujeito em pelota não é o nosso compatriota.)
Publicado por João Tunes às 16:31
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NA GUINÉ-BISSAU

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O Jorge Neto trouxe-nos dessa desgraçada e martirizada Guiné-Bissau, eco impressivo de um exemplo do fervor com que os povos das antigas colónias viveram a carreira dos feitos da Selecção de Portugal no Euro 2004:

“A coisa foi planeada em 24 horas e a única divulgação foram uma dezena de cartazes A4, espalhados por alguns estabelecimentos comerciais do centro de Bissau, e uma notícia nas rádios locais. A organização, que esperava entre 300 a 500 pessoas, viu aparecerem no estádio cerca de 3 mil adeptos guineenses da selecção das quinas. Foi a loucura total, com pessoas a procurar o melhor lugar para si. De tal forma que a polícia de intervenção teve que ser chamada a manter a ordem.”

O futebol ainda vai fazendo o melhor da nossa ligação com os povos africanos de língua oficial portuguesa. Porque, em futebol, todos nos entendemos e nele somos entendidos. E, no futebol, os ídolos universalizam-se com a maior das facilidades. Porque, no futebol, os ídolos têm pés com chuteiras.

Emociona-me ver esta efémera irmandade que, à volta da bola, reuniu Brasil, Guiné, Moçambique, Angola, São Tomé, Cabo Verde, Timor, Goa. Demonstrando que o afecto é o mais forte e perene na relação entre os homens. Talvez por isso mesmo é que a política e a história são tão cruéis, porque a dominação e os preconceitos a primeira coisa que assassinam são os afectos.

A raiva que me dá é que esta onda não seja aproveitada para tornar perenes os laços pela cultura, pela língua e pela educação. E eu sei que a seguir, logo a seguir, o assunto é negócios. Antes o futebol, desabafo meu.

Obrigado Jorge Neto pelo testemunho. E um abraço de saudação a essa militante africanidade.
Publicado por João Tunes às 15:50
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DECLARAÇÃO SOBRE LUTINHAS

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Isto das lutas têm que ser organizadas como deve ser. Porque senão pode virar-se o feitiço contra o feiticeiro. E luta, luta mesmo, deve ser coisa séria e não ir atrás do impulso só da criatividade. Nem se podem fazer lutas por dá cá aquela palha e sem as massas populares estarem devidamente esclarecidas e mobilizadas. Bem sei que agora, com o SMS e os blogues, há muito quem pense que a coisa é instantânea, salta a ideia, cria-se o banner e toma lá disto.

Isto se estamos a falar de lutas e não de paródias de lutinhas.

Já disse que estou contra a ideia de passarmos pelo pesadelo de termos o Santana como Primeiro, defendendo que a única saída decente para a actual embrulhada política é a convocação de eleições antecipadas. Mas daqui até andar para aí com performances que não ajudam nada à causa vai uma grande distância. Porque, então, a emenda pode ser pior que o soneto. Sobretudo é preciso cuidado em não entrarmos em populismos para combater o populismo. Até porque, quanto a populismos, é jogarmos no terreno do Santana e dificilmente lhe levamos a melhor. O tipo é profissional da coisa.

Ando a receber vários apelos para que o povo, o bom povo português, não tire as bandeiras das janelas como exigência das eleições antecipadas. E nesta é que eu não alinho mesmo. Sobretudo porque não tenho (nem tive) bandeira na janela (porque acho que o futebol é a 256ª prioridade do país). Assim sendo, como é que faço? Vou comprar uma agora? Nessa não caio eu. A vizinhança vai pensar que pirei de todo ou então estou armado em grego e a gozar com o pagode, contente por termos perdido. Para além de que o mais certo seria o chinês da loja das bandeirinhas me atirar com um riso amarelo ao trombil, eu não gostar, dar uma chapada no chinês, depois vir a polícia fresquinha do pouco trabalho que teve no Euro e dar-me uma chanfalhada, eu então ir-me queixar ao governo mas o governo estar demissionário e só em gestão corrente e, assim, correr o risco de ficar a apodrecer em prisão preventiva até vir o governo que sair das eleições antecipadas ou não antecipadas. E tudo isto pode pôr em risco a minha integridade física, psicológica e até moral. Não. O preço é demasiado alto para alinhar nesta “esquerdice”.

Vamos lá a pensar melhor antes de se lançarem estas acções de luta! E com as bandeiras não se brinca.
Publicado por João Tunes às 12:16
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ESTADO PIMBA

Presumo que aquelas pessoas estavam na Tribuna como figuras de Estado. Logo seria de esperar um comportamento de Estado.

Mas, ainda mais ridículo que a gravata do Zé Manel (a do azar), foi ver a Guida Barroso a sacudir o pó à bandeira, o fato da Primeira Dama e Mota Amaral com a camisola do Pauleta ao colo. Só faltou mesmo que o PR aparecesse com a cara pintada e um chapéu com guizos ...

Pois é. O populismo está a fazer moda. Populismo pimba num Estado cada vez mais pimba. E depois clamam pela falta de consideração da populaça para com a classe política que temos. Eles também querem ser da populaça, só que ao nível mais rasca.

Uma vergonha. Eu, pelo menos, tenho vergonha (por eles).
Publicado por João Tunes às 02:52
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DEIXA LÁ ISSO ...

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... MUITO PIOR É SE TIVERMOS DE GRAMAR O SANTANA COMO PRMEIRO.
Publicado por João Tunes às 02:17
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Domingo, 4 de Julho de 2004

ADEPTA A VER ENTREGAR A TAÇA ...

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AZUIS E BRANCOS LÁ GANHARAM (MAIS UMA VEZ...) !!!
Publicado por João Tunes às 16:51
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AINDA OLIVENÇA

1)

De um nosso visitante, António Marques, recebemos um mail a propósito de um post intitulado “Olivenza” (ver no arquivo deste blogue) e que passamos a transcrever:

”Passo com frequência pelo seu «Bota Acima». A escrita, as memórias (os retratos do Barreiro operário e pequeno-burguês são antológicos), o optimismo desencantado com que aprecia a nossa realidade, justificam (quase) sempre a sua leitura.
E também a sua «hispanofilia» e «taurofilia» me suscitam curiosidade e em nada me repugnam.
Todavia, lendo o seu postal «OLIVENZA», fiquei surpreendido pela ligeireza como aprecia a «Questão de Olivença», o que, desculpe-me se interpreto mal, parece um reflexo condicionado por aquela referida «hispanofilia»:
1.º - A argumentação do Arcabuz, para que remete, além de juridicamente frágil, não é nova e muito menos é definitiva (?).
2.º - «Tratamento revivalista»? Ao contrário: o tema - enquanto tal, i. é, abstraindo aqui de saber «a quem pertence a razão» - é perfeitamente actual. Basta ter em conta que será, no âmbito da U. E., caso único de limite fronteiriço por fixar. Repare-se que mesmo as mais controvertidas delimitações resultantes da II Guerra Mundial (germano-polacas, p. ex.) foram há muito estabelecidas e acordadas. No caso de Olivença, isso não acontece, desde há 200 anos! e é, ainda hoje, tema assunto politicamente relevante em Espanha (veja-se o último livro - e o seu impacto - de Máximo Cajal, ex-embaixador de Espanha em Paris, ex-conselheiro diplomático de Zapatero, que, sintomaticamente, coloca no mesmo nível e no mesmo saco, Ceuta, Melilla, Gibraltar e Olivença). Parece-me que só isso bastaria para nos interrogarmos porquê e, claro, procurar uma solução.
3.º - Ao que conheço do tema, não tem ele nada a ver com quaisquer revivalismos «ultramarinistas». Não se trata, da parte de quem olha com alguma saudade para Olivença e conhece os dramas de que se faz História, de gritar na Península que «Angola É Nossa». Porque não se trata de Lourenços Marques, Porto Amélia, Vila Pery, Nova Lisboa, Silva Porto, Salazar, Carmona ou Teixeira Pinto. Estes eram territórios coloniais situados algures. Olivença, tem com eles uma parecença, sim: também foi (está a ser ainda hoje) colonizado por gente estranha aos que ali eram naturais, a quem roubaram a memória e a cultura colectivas, proibiram a língua. Por direito de conquista, é bem certo... Mas acaba aí a similitude. Não é, não era, nunca foi colónia de Portugal: era (ou é...) Portugal, como o são V. F. Xira, Melgaço ou o Barreiro.
4.º - Finalmente, entenda-se o que se entenda sobre a «Questão de Olivença» - e todos os entendimentos são legítimos - o que menos compreendo é que entenda escrever OlivenZa em lugar de OlivenÇa. Porquê? Devemos escrever SeviLLa? AndaluCÍa? London? Moskva? Veja, foi isso que mais me penalizou no seu postal! Para sermos amigos de Espanha não precisamos de abdicar de nós próprios! Mais, para quem - como é manifestamente o caso do João Tunes - assume e defende uma cultura portuguesa, como aceitar essa minimização perante as culturas concorrentes? Olivença, há-de convir, é - ou, pelo menos, foi - um espaço de concorrência inter-culturas; porque não sustentar aí e a propósito a defesa da cultura portuguesa?
5.º - Para lá destes aspectos, ainda tenho para mim que a «Questão de Olivença» tem pano para mangas, seja numa vertente histórica, cultural, legal, moral, até. Claro, aqui entra a minha opinião, simplesmente. O Sr. terá a sua. É tudo. Porém, permita-me que pergunte: já inquiriu a geral opinião dos espanhóis/andaluzes sobre a soberania de Gibraltar? (parece que, «revivalisticamente», é de franco apoio à reivindicação que o Estado espanhol nunca deixou efectivar, nas suas «Cortes» e em tudo o que é sítio). Porquê, então, negarmo-nos nós aos nossa próprios «créditos»?
Continuarei a lê-lo com gosto. Os melhores cumprimentos,
António Marques

2)

Com todo o gosto, respondo:

a) O fundamental dos argumentos a favor da “causa de Olivença” são conhecidos porque bastamente esgrimidos. Pelo menos, o grupo dos “Amigos de Olivença” usa e abusa do “spam” que, volta e meia, me entra pela mail box dentro seguindo, talvez, o princípio de que cada português é um amigo deles.
b) Conheço os argumentos e não me convencem porque conheço Olivença/Olivenza. De facto, a terra está tão hispanizada (nos hábittos, nos costumes, na cultura, na identidade) que a causa, só por isso, se torna um absurdo ou uma teimosia. Só os traços históricos e monumentais de séculos passados é que atestam que Olivenza já foi Olivença. Mas as pedras estão mortas e são apenas memória. Faça-se uma viagem, ao fim da tarde, de uma das nossas cidades alentejanas fronteiriças e dê-se um salto até Olivença. Encontraremos extroversão, barulho, vida e movida lá e no regresso sentiremos a calma triste alentejana e muito nossa (luzes apagadas, o peso do silêncio, uma ou outra pessoa na rua, tudo encafuado em casa a ver tv). É um pequeno indício de que os habitantes de lá nunca quereriam (ou aceitariam) passar para cá. O que íamos fazer? Desterrar os habitantes para Badajoz e povoar a terra com alentejanos tristes para quem a sombra de um chaparro chega para se sentirem vivos desde que tenham à beira um compadre para dois arrastados dedos de conversa até à hora da janta? As sondagens já disseram o que é óbvio: eles querem ser espanhóis e não portugueses. Se teimam tanto que se faça um referendo e arruma-se a questão. Por mim, que não votarei em tal referendo, sempre direi que, como português, prefiro que Olivença se conserve espanhola – para continuar a poder visitar e admirar uma cidade com história e traços portugueses mas com vida e dinamismo bem espanhol.
c) Obviamente que escrevi Olivenza como truque de estilo e provocação. Foi a minha vingançazita contra o “spam” dos “Amigos”. Mas não é a questão de fundo e volto à ortografia correcta.
d) Também não faltou a velha e aparente similitude com Ceuta, Melilla e Gibraltar. Mas Gibraltar é um “problema militar” (controlo da entrada no Mediterrâneo), Ceuta e Melilla são cidades árabes/berberes. As três, são cidades “ocupadas” com populações “não integradas” nos países ocupantes (não conheço Gibraltar, portando no que refere a este caso já não estou tão certo). Também aqui, o referendo é a solução (e, no caso de Gibraltar, não são os andaluzes que têm de votar, é a população que povoa o rochedo).
e) Não nego que, volta e meia, sofro de “ligeireza” e de “reflexos condicionados”. Se este foi mais um caso, não foi a primeira vez e temo bem que não seja a última. É o que tem isto de blogues. Às vezes, a chinela cai do pé. Mas tenho orelhas suficientemente largas para levar nelas. E, assim, vou-me aguentando à dança.
f) Agradeço ao gentil visitante e comentador o seu contributo para este “papo” tanto mais que o fez com correcção e consideração. E, claro, muito obrigado pelos elogios que tão bem fazem ao ego.

Abraço, caro António Marques. Disponha sempre.
Publicado por João Tunes às 16:09
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Sábado, 3 de Julho de 2004

BEIRA

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A memória que tenho da Beira, é forte e indelével. Sobretudo, porque foi uma descoberta surpreendente.

Não pela decadência, pelo desmazelo e por tudo o mais que marcam as cidades pós-independência. Porque se entende que elas foram construídas e consolidadas segundo uma velha ordem, muitas vezes imitando e tentando ultrapassar cidades metropolitanas, não resistindo ao impacto de novas ocupações e migrações massivas de massas rurais.

Mas a Beira, comparando por exemplo com Maputo, está mais degradada e mais desajustada. A ocupação asiática (aquela ocupação) adaptou-se pela sua fraca exigência de qualidade e porque, talvez, o pouco custo seja a lei máxima da ocupação. Mas a ocupação africana parece perdida e desorientada, anárquica pois. Talvez por isso, por ser uma cidade desenhada para europeus, os africanos se continuem a amontoar na periferia medonha e em plenos pântanos.

De qualquer modo, a Beira é um sinal fortíssimo da presença portuguesa no Índico. Uma herança terrível que não caduca. Um outro Moçambique urbano.

Pela configuração do país, Maputo ficava longe de Moçambique. O seu recorte de cidade política e administrativa, deu-lhe para vagares de maneirismos e racionalismo urbanísticos que ainda se conseguem ler entre os destroços. Mas Maputo sempre foi pouco mais do que o Terreiro do Paço moçambicano. Além do mais, pelo peso do seu racismo de imitação, Maputo (e as outras cidades moçambicanas) não beneficiou (comparando com as cidades de Angola ou de Cabo Verde) de uma mestiçagem marcante e cujo papel, ali, foi ocupado pelas colónias indianas que, contrariamente aos mestiços, são ocupações de cortes e não de pontes.

Na Beira, ao contrário, estava o poder económico, logo, o verdadeiro poder colonial. Se se preferir, enquanto Maputo era a superestrutura, a infraestrutura estava na Beira. E não seria por acaso, que o “Vice-Rei” Jardim tinha o trono na Beira. Aliás, a Beira é uma cidade “inventada”, construída sobre pântanos por ser a menor distância de acesso ao mar das riquezas das colónias britânicas do interior.

A guerra de libertação nunca incomodou Maputo. Quem lá vivia, tinha a sensação de que a guerra “era lá para o Norte”. Como paradoxo, Maputo veio a saber o que era guerra, depois, com a Renamo, que fez da capital um alvo preferencial.

A Beira foi a capital, de facto, do domínio colonial sustentado. E quando a guerra de libertação ameaçou a Beira, foi o bom e o bonito. As marcas da revolta foram tão fortes que abriu uma brecha nunca superada, crítica, entre o poder dos colonos e o poder metropolitano. E a opção anticolonial do Movimento dos Capitães deve muito à acção dos colonos da Beira, à sua radicalização. Idem com as igrejas.

Com a desarticulação económica e o definhamento dos eixos estratégicos, foi a independência de Moçambique que fez de Maputo o coração de Moçambique. Quando a economia cedeu às elites políticas, Maputo tornou-se Moçambique e a Beira passou a uma cidade quase redundante. Curiosamente, a Beira (como Tete e como Nampula) vota Renamo (!) (votos de revolta, julgo eu), enquanto Maputo é a praça forte da Frelimo.

Ao contrário de Angola, Guiné e Cabo Verde, onde quase tudo se lia e se lê nas suas capitais, Moçambique ostenta essa enorme diferença: para entender e conhecer, politicamente, o Moçambique colonial, os seus sinais mais fortes estão na Beira; para se conhecer e sentir, politicamente, o Moçambique independente temos Maputo (o resto funciona como contraponto esclarecedor).
Publicado por João Tunes às 23:06
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UMA MULHER, A MULHER

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Sofro em ver a corrosão dos teus oitenta anos de vida gasta a gastar, até ao limite, a tua força, a tua coragem e a tua alegria.

Custa-me ver a tua coragem optimista calar-se pela opressão do império da lei da vida. Embora a gargalhada fresca nunca falte quando o corpo o permite.

Vivemos na quimera de que os grandes homens e grandes mulheres são imunes e eternos. Que nunca nos vai faltar a força da sua coragem e do seu exemplo. Sabendo, bem sabido e bem esquecido, que isso é uma ilusão que é a nossa salvação.

Tu és o meu mito, mesmo não partilhando o sangue. Uma gigante na minha história. Uma mulher que é A Mulher.

Em tempos, quando tu e eu tínhamos disposição para isso, dispus-me a recolher-te a memória antes que ela esmorecesse e os teus netos ficassem com lembranças esfumadas. O projecto ficou em meio caminho. Culpa minha. Mas ainda ficou qualquer coisa que não perdi e aproveito para recordar:

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Nasci em 1924. Veja lá a idade que já tenho.

Chamo-me Maria da Conceição. Só assim, sem apelidos. Foi assim que me registaram. Não sei porquê. Aliás, eu sempre pensei que tinha os apelidos do meu pai e da minha mãe. Só soube que não estava registada com o nome completo quando me casei e fui ao Registo. Aí, quando me perguntaram o nome, disse-o com os apelidos. Eles foram ver e depois disseram que não era assim que tinha sido registada, constando apenas Maria da Conceição. Assim ficou.

A minha irmã, que ainda hoje vive na terra, também foi registada como Maria da Conceição mas com direito aos apelidos. Coisas daquele tempo. Tem algum jeito, duas filhas na mesma casa com o mesmo nome? Acontece que nós em casa, incluindo os meus pais, pensávamos que a minha irmã se chamava Maria de Jesus e ela também se assinava assim. Só que, no registo, tinha ficado Maria da Conceição como eu. Estas trapalhadas do registo devem-se a que, naquele tempo, as pessoas só registavam os filhos uns tempos largos depois das crianças nascerem. E era de qualquer maneira. Até porque se pagava multa por causa dos atrasos.

O meu pai era um grande trabalhador. Trabalhava no campo e como pedreiro. Na altura, os meus pais tinham muita fazenda. Isto é, muitas hortas para cultivar. Ele fartava-se de trabalhar no amanho da terra e quando havia trabalho de pedreiro, fazia mais uns dinheirinhos. E era muito boa pessoa. Nunca bateu nos filhos. Dava-se bem com toda a gente e era muito prestável para ajudar os outros. Era capaz de deixar para trás um compromisso de família para dar uma mão de ajuda a quem lhe pedisse. E era muito amigo da família. Dava-se bem com todos. Os cunhados, por exemplo, eram como se fossem irmãos para ele.

O meu pai, tão bom que era, só viveu com um remorso. A minha Avó Ana, Mãe do meu Pai, casou-se com um homem que, embora boa pessoa, era mais velho 20 anos que ela. Aquilo foi um casamento ajustado por famílias porque o meu Avô era de uma família com muitas fazendas. Mas o meu Avô tratou sempre a minha Avó como uma Rainha. Ele não a deixava fazer quase nada. Vidinha de casa e mais nada. De manhã, o meu Avô levantava-se cedinho, deixava a minha Avó na cama, agasalhava-a bem com as mantas e dizia-lhe “Ana, deixa-te estar que é Inverno e está muito frio”. Pegava no cântaro ia à fonte buscar água, acendia o lume da lareira, aquecia água para que, quando ela se levantasse, já tivesse tudo pronto para começar a fazer a sopa. Dizia-lhe “Ana, eu vou trabalhar mas venho almoçar” e abalava. Quando o meu Avô morreu, a minha Avó ficou viúva ainda muito nova. Passado uns tempos, a minha Avó fez amizade com outra viúva e as duas iam distrair-se, dando passeios até ao Cabril e ao Souto onde tinham conhecimento com uns senhores daquelas aldeias. O meu Pai, tendo então 13 anos, envergonhava-se de, na aldeia, dizerem que a mãe ia para o Cabril namorar um homem. Para envergonhar a mãe, o meu pai resolveu “correr o Entrudo” (prática que se dava no Carnaval em que, com uns funis, as pessoas denunciavam em público, coisas que achavam que estavam menos bem). Combinou com uns rapazes amigos o que haviam de dizer e foi para casa. Já ele estava ao pé da minha Avó, os amigos, conforme combinado, falaram alto para toda a aldeia “Oh Senhora Ana, pouco por pouco, vale mais no Cabril que no Souto!”. A minha Avó envergonhou-se, deixou de dar os seus passeios e passou a rezar muito para desconto dos pecados. Até morrer. Esta atitude do meu pai ficou sempre como uma mágoa para com ele. E só se atenuava porque sabia que a minha Avó esteve sempre convencida que a iniciativa do “Entrudo” não tinha partido do filho.

A minha mãe era boa pessoa. Mas era amiga de nos dar umas sapatadas. E tinha um grande defeito: não queria que as filhas namorassem! Isto era influência das prédicas do padre que passava o tempo a avisar para os perigos das tentações nas raparigas. Vou dar um exemplo. Tinha eu para aí os meus 20 anos, havia baile no dia da festa de São Lourenço (10 de Agosto) em Sobral Valado. Eu gostava muito de dançar. Uma tia minha entrou no baile e puxou-me para ele. O baile era mandado. Às tantas, calhou dançar com um primo que depois foi meu cunhado. A minha tia foi-se embora e eu fiquei a dançar com o meu primo. A minha mãe andava lá nas suas lides. O meu pai que estava a ver o baile, sentado à porta de casa, disse para a minha mãe: “Olha, a tua filha anda lá no danço!”. A minha mãe pôs-se ao caminho, entrou baile dentro, deu-me uma palmada no rabo e disse “Vamos embora para casa!”. Lá fui envergonhada, fartei-me de chorar e já não sai de casa nesse dia. Entretanto, o baile acabou porque ninguém ficou com vontade de se divertir. Tanto mais que eu era a mais foliona.

Eu adorava dançar mas o padre da Pampilhosa era contra os jovens dançarem. Por causa dos pecados. Onde eu tirava a barriga de misérias era na Aldeia Velha, que ficava longe, entre a Serra da Lousã e a Pampilhosa. Esta era a terra do meu Tio Manuel e tinha um padre que não era contra os bailes. No mês de Agosto, na altura da festa da Aldeia Velha, eu ia lá com o meu irmão, uma das minhas irmãs e o meu pai. Eu, então, aproveitava e dançava o mais que podia. Lá, ninguém ia contra.

Para a minha mãe, todos os namorados tinham defeitos. Nenhum servia. Ou por isto ou por aquilo. Rapaz que se aproximasse das filhas tinha sempre defeitos. Como foi o caso do que veio a ser meu marido. Mas, depois, até foram muito amigos.

Conheci o meu marido Mário desde que éramos crianças. Nascemos e vivemos na mesma aldeia, embora morássemos um bocadinho distantes. Ele morava numa ponta e eu noutra. Mas, em geral, víamo-nos todos os dias. Depois chegou a altura de irmos para a escola e já tínhamos alguma idade porque, quando éramos mais novos, ainda não havia escola na aldeia.

Fomos os dois para a escola e logo aí começámos a ter tendências um para o outro. Ele escrevia-me papelinhos, mandava-mos e eu respondia. Tínhamos um sítio certo onde íamos e lá deixavámos os papelinhos de um para o outro. Era assim que nós os dois se comunicavam.

Depois ele veio para Lisboa, tinha para aí os seus dezassete anos. E foi para a tropa que fez na Marinha. Continuamos a escrever-nos. Mas houve uma certa altura em que nos zangámos. Por causa de uma coisa qualquer sem importância. E deixámos de nos escrever, melhor dizendo, eu deixei de ir a casa dos pais dele para receber as cartas pois era para lá que ele as mandava. Mas o certo é que continuou sempre aquela tendência de um pelo outro.

Eu nunca me esqueci dele porque gostava mesmo dele. Mas chegou-se um tempo, já eu tinha vinte e dois anos, e um rapaz que morava ao pé da minha porta, que ainda pertencia a uns familiares meus, começou a chegar-se a mim. Toda a família dele começou a insistir para eu engraçar com ele. E foi assim que comecei a namorar com esse rapaz. E ele tinha pressa de se casar comigo. Resolvemos ir pôr os papéis a trabalhar no Registo Civil da Pampilhosa para se dar o casamento.

Da minha aldeia à Pampilhosa são uns seis quilómetros que, na altura, só se faziam a pé. Combinámos ir ao Registo no dia de mercado. Como disse que ia ao mercado, a minha mãe deixou-me ir. Mas uma senhora avisou-a que eu ia mas era por os papéis a trabalhar para me casar com fulano. Já eu estava vestida e pronta para ir à vila, a minha mãe chamou-me e disse “Menina, tira a roupa de sair porque já não vais ao mercado”. Eu nunca gostei de ser contrariada e respondi “Pois eu vou mesmo casar com fulano e se não for ao Registo hoje, vou lá noutro dia”. Então o meu pai falou “Estás a ouvi-la? Deixa-a lá ir.”. E lá acabaram por me deixarem ir à Pampilhosa. Eu fui e pus os papéis a trabalhar.

Havia um rapaz que era primo do meu futuro marido, tinha andado por Lisboa e era a modos que reguila. Tantas fez que acabou por ir a Tribunal e teve de cumprir prisão. Ora a prisão era mesmo junto do Registo. Ele, lá trás das grades, viu-me entrar para o Registo na companhia de familiares do rapaz com quem estava para casar. Percebeu o que se passava e mandou um recado para os meus futuros sogros a alertá-los para aquilo. Estes mandaram uma carta para o meu futuro marido, lá para a tropa em Lisboa, a avisarem-no e a sugerirem que ele viesse à aldeia o mais depressa que pudesse.

O meu futuro marido pôs mesmo os pés ao caminho e apareceu na aldeia de surpresa. Um belo dia, vinha eu de trabalhar na fazenda, vejo-o chegar à terra. Não nos falámos. À noite, estava eu em minha casa, chegou-se ao pé de mim uma senhora que era, ao mesmo tempo, minha tia e tia do Mário. Pediu-me para eu ir a casa dela que queria dar-me um recado. Os meus pais ouviram e a minha mãe falou “Então mas se tu queres dar-lhe um recado, dá-lho aqui. E se não querem que a gente oiça, ide aí para fora para esse sobrado e conversai.”. Mas ela insistiu, insistiu “Ela não se demora, ela não se demora.”. Os meus pais acabaram por me deixarem ir. Quando cheguei a casa dessa minha tia, encontrei logo lá o meu futuro marido. Começámos a conversar e ele, muito meiguinho, levou-me à certa. E que, no outro dia, íamos à Pampilhosa parar os papéis com o outro rapaz, eu ia morar para casa dos pais dele e por lá ficaria até ele sair da tropa e casarmos. E assim foi.

Ainda por lá estive oito meses, em casa dos pais do Mário, à espera da hora de me casar. Mas lá chegou a ocasião de eu vir para Lisboa e fazermos o nosso casamento. Tudo isto revela que eu gostava mesmo dele e nunca o tinha esquecido. Quanto ao outro rapaz, claro que me ia casando com ele, mas não era que lhe tivesse grande afeição. A gente, em nova, não sabe bem o que quer e, depois, andavam todos de volta de mim, era a tia, era a avó, era a irmã e ele sempre a escrever-me vamos casar, vamos casar e vamos casar. E foi por causa disso que eu deixei de escrever ao meu futuro marido. Mas, eu confesso que nunca o esqueci, mesmo quando namorava o outro rapaz. Porque eu, confesso, gostar, gostar mesmo, era dele.

Casámos, temos duas filhas que são duas prendas, dois genros que são dois amores, cinco netos que são o melhor do mundo e já temos uma bisnetinha. Somos muito felizes.

Nota: Como bem se entende, um dos genros que são "uns amores" é o autor deste blogue...
Publicado por João Tunes às 17:59
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O KARAKIAS É KE NÃO GANHAMOS AOS GREGOPOULOS !

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Já não sei quem é que disse que andava tudo tão contente com o Euro 2004 (a UEFA, a FPF, os jogadores, os espectadores, os tele-espectadores, os patriotas, as bandeiras e as Nossas Senhoras) que resolveram recomeçar tudo outra vez, voltando-se, no domingo, ao jogo inaugural.

Pois temos aí os gregos, outra vez. Só que agora já não nos vão apanhar distraídos.Karakias ke estamos, o tanapoulos!

Primeiro, o Cristiano já aprendeu que o papel dele é marcar penalties e não provocá-los. Segundo, o Figo já resolveu começar a jogar e a rezar o padre-nosso. Terceiro, o José Manuel Barroso leva a gravata da sorte. Quarto, o jogo é na Luz. Quinto, o Paulo Ferreira não deve jogar. Sexto, a malta já gosta do Scolari. Sétimo, multiplicámos por mil o número de bandeirinhas. Oitavo, aumentámos, no balneário, o stock das Santas e dos Santinhos (agora, os alhos são para espalhar no balneários dos gregos para ver se eles se enjoam com o cheiro).

E, verdade se diga, que os gregos já abusaram de sobra chegando até à final. Já deviam ter ido dar uma volta de barco da marinha mercante até o Pireu há uma data de tempo e ainda por cá andam. Isto parece mesmo perseguição. Já basta eles terem, aproveitando a nabice do homem da gravata da sorte, passado à nossa frente na cauda da Europa pré-alargada.

Levam poucas, levam, esses gregos de uma figa. Vão mas é aturar os turcos. Ou apanhar pedrinhas na Acrópole para ver se a põem tão compostinha como a nossa Torre de Belém.

Portugal! Portugal! Portugal!

Adenda:

Pois aquela gravata da "sorte", além de horrível, não nos dá mesmo sorte. Nem ela nem o dono...

Se a Acrópole, mesmo escaqueirada, valeu mais que a Torre de Belém, que o locatário do Palácio em frente, nos anime neste mar de tristeza.
Publicado por João Tunes às 01:49
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TRABALHOS DE UMA MOÇAMBICANA PARA ENTRAR EM PORTUGAL

Incríveis as formalidades contadas pelo Jorge Neto e exigidas pela nossa Embaixada em Maputo, para que uma sua amiga moçambicana obtivesse visto para puder entrar em Portugal para fazer turismo.

Concordo com ele em como a situação é vergonhosa. Tanto mais que estas situações costumam ser reguladas por princípios de reciprocidade. Se ela não existe, aplique-se. Ou seja, passe a Embaixada de Moçambique em Lisboa a aplicar os mesmíssimos critérios para os viajantes portugueses que queiram entrar em Moçambique. Provavelmente, a situação resolvia-se em três tempos. (a menos, a menos, que a reciprocidade não interesse a Moçambique por as receitas de turismo falarem mais alto que a dignidade dos seus cidadãos, cala-te boca)

Entendidos, pois, até este ponto. Porque estamos a falar de cidadania, dignidade, reciprocidade. No quadro das relações entre Estados soberanos. Falando de Cidadãos. De todos os cidadãos no pleno uso dos seus direitos, em igualdade de usufruto e no quadro das relações diplomáticas e consulares estabelecidas.

O caso muda de figura (quanto à minha concordância com o Jorge Neto) quando ele tenta ampliar o escândalo, dizendo da sua amiga moçambicana:

“A pessoa em causa é economista de profissão e professora universitária numa das mais prestigiadas universidades moçambicanas (Universidade Católica). Tem um salário mensal acima do de qualquer português de classe média (conquistou-o com muito esforço, sou testemunha). Mesmo assim necessita de se rebaixar ao ponto de pedir a alguém que seja seu pai adoptivo durante as férias.”

O que é que, para o caso, tem a ver que a cidadã moçambicana seja economista, Prof e ganhe uma batelada de massa? Adianta alguma coisa para o caso? Se não fosse economista, nem Prof, nem ganhasse acima da classe média portuguesa, o que mudava na situação? Já se podia “rebaixar”? Em que ficamos? Qual a essência do problema – cidadania ou estatuto social? Quanto ao primeiro, totalmente de acordo; se o problema está (apenas) no segundo, talvez o caso sirva para a cidadã moçambicana aprender mais qualquer coisa (mesmo os Profs devem estar sempre a aprender) com as penas dos seus concidadãos “mais desfavorecidos”.

Fica pois devidamente registada a minha “meia solidariedade” com a indignação do Jorge Neto.

Abraço.

Adenda:

O Jorge Neto comentou e esclareceu:

"Caro João: parto do principio que todas as formalidades exigidas sejam para ter a certeza que a pessoa não está a "fugir" para a Europa. Para que quereria esta minha amiga fugir, se vive bem melhor em Moçambique que em Portugal? Claro que na minha opinião este rebaixamento é humilhante, quer para um quadro de topo quer para um cidadão com a 4ª classe, que eventualmente pretenda ir a Portugal de férias."

Esclarecido que está que o Jorge Neto coloca o problema em termos de cidadania e não de estatuto social, fica registada a minha total concordância com o post do Africanidades.
Publicado por João Tunes às 00:51
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Sexta-feira, 2 de Julho de 2004

UMA DESGRAÇA NUNCA VEM SÓ

brando.jpg

No entanto, continuo a escutar a tua voz e o teu talento. A voz, rouca e ciciada, única. O talento, imenso, maior que Hollywood, do tamanho do mundo, cabendo inteirinho no tamanho acanhado dos meus mitos. Até sempre, Marlon Brando.
Publicado por João Tunes às 22:46
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OLÁ SOPHIA !

sofia_01.jpg

Hoje, a poesia morreu em Portugal. Eu sei, eu sei, não morreram os nossos poetas. Excepto os poetas que nasceram mortos. Excepto aqueles que viveram com poesia morta, capada, cínica ou falhada, dentro de si. Ou que nunca a encontraram no virar da esquina.

O problema não é grande. Só a poesia morreu. Não morreram os poetas. Apenas um deles nos fica hoje a faltar. E, num país de poetas e de poesia, o que vale menos um poeta? Tudo, porque morreu o Maior, a Maior.

Eu sei, eu sei, que os outros poetas continuam. Ainda hoje devem ter nascido uma data deles nas nossas maternidades. Porque somos um país de poetas. E, em Portugal, há um poeta em cada virar da esquina. Até exportamos poetas. Sempre exilámos poetas. E, sendo um país de poetas, os poetas que somos olhamos de lado para os poetas. Porque somos todos poetas e a poesia é tão banal como um frango assado. Porque precisamos da poesia para combater a depressão mercantil quando sabemos que as nossas vidas, mais que da poesia, muito mais que da poesia, dependem do Índice NASDAQ que é alfa e ómega do nosso Estar e Ser. Cada vez mais. Cada vez mais.

Que falta nos vai fazer Sophia? Estava velha e doente. Creio mesmo que já tinha deixado de escrever poesia (embora aqueles olhos, enquanto vivos, tenham sido sempre os seus melhores poemas). Para mais, nem sequer teve Nobel porque o marketing da literatura ganha nos votos em branco. Repito, que falta nos vai fazer Sophia? Toda. Isso, toda. Porque morreu a Maior.

Diz-se que os poetas se querem feios – ou zarolhos, ou alcoólicos, ou maricas, ou tontos, ou suicidas, ou estrábicos, ou misógenos, ou cheirando mal. Sophia, a grande Sophia, conseguiu o milagre de ser a nossa mulher mais bonita e o nosso maior poeta.

Eu sei, eu sei, que, hoje, a poesia morreu mas renasceu. Sem Sophia, continuamos com a poesia de Sophia.

Porque ela, Sophia, linda e viva, mesmo morta, continua aí ao virar da esquina, dizendo:

Quando a pátria que temos não a temos
Perdida por silêncio e por renúncia
Até a voz do mar se torna exílio
E a luz que nos rodeia é como grades.


Que companhia nos vais continuar a fazer, querida Sophia. Um beijo.
Publicado por João Tunes às 22:26
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ESPERANDO

sono.jpg

que o Dr. Jorge Sampaio consulte, pense, consulte, leia, consulte, reuna, consulte, decida, consulte, fale, consulte, discurse, consulte, diga.
Publicado por João Tunes às 13:26
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NÃO FALOU SOBRE FUTEBOL ...

msousatavares.jpg

... e o Miguel Sousa Tavares acertou em cheio.

Quando a futebolite e o FêCêPê não lhe esquentam a cabeça, empurrando os neurónios para o delírio, normalmente diz coisas acertadas e certeiras. É o caso. Simplesmente demolidor.
Publicado por João Tunes às 11:47
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