Sexta-feira, 13 de Fevereiro de 2004

ALEGRIA NUMA TRISTE SINA

Já não me bastava ter uma em casa, passei a ter duas. Provavelmente demais para lidar com este químico cartesiano retirado.

(Toda uma vida feita em lide com átomos e moléculas. Desde que, aos meus dez anos de idade, resolveram meter-me na Escola Industrial e Comercial Alfredo da Silva lá no Barreiro para tirar um curso de analista químico na problemática esperança de engrossar a legião dos súbditos do Império dos Melos. Provavelmente, destinado, como desejo projectado de subsistência, a analisar amostras de pirites alentejanas de São Domingos e Aljustrel, matéria-prima para o ácido sulfúrico que, por sua vez, tinha a nobre sina de ferver e reagir, acabando em sulfato de amónio para revitalizar vinhas, pomares e outras coisas mais deste lindo Portugal. Pipetas, balões, retortas e provetas, líquidos que ferviam ou sublimavam, de todas as cores e composições, foram-me injectadas no alma do corpo como destino de menino pobre e adoptado que, em vez de escolher, só tinha o direito de dizer obrigado, muito obrigado. Naquele tempo, liceu não havia no Barreiro e fazer tal curso em Setúbal requeria cabedais de gente fina que era ínfima minoria numa vila operária. Depois, a vida dos protectores foi-se compondo e como eu não dava mostras de ser néscio total, lá fui subindo na escala de progressão nas químicas até me encartar em engenharia química e, depois, meter-me em outras habilidades mais. Até acabar a carreira a escrever num blogue que, com a química, só tem semelhança pela luta dura a lidar com a alquimia dos sentimentos e a volatilidade das palavras.)

Pois, voltando ao início, sendo eu homem de ciência com desvios para as filias do amor à poesia, às almas bonitas, à liberdade e à igualdade, e tendo-me a vida brindado com uma companheira psicóloga, uma outra do mesmo mister passa hoje a viver comigo, pelo que passo a ter duas (!) psicólogas (!) cá em casa. É que a minha Inês, brilhantemente, entrou-me em casa, orgulhosa, com um brilho nos olhos e um canudo debaixo do braço igualzinho ao da Mãe.

Estou feito. Logo eu, que embirro com Freud e seus comparsas. Resta-me a consolação de que, talvez, talvez, os meus parafusos perdidos e ferrugentos passem a estar melhor consertados.

Mas que estou feliz e babado, lá isso estou. Um grande beijo, minha querida Inês. Que o futuro se abra para ti num riso escancarado.
Publicado por João Tunes às 12:00
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EM HONRA DE UM PRÓXIMO PROLETÁRIO

Minha querida e jovem amiga,

Disseste-me, quando casaste, que querias ser mãe de muitos filhos. Eu achei óptimo. Porque pensei que, essa tendência para tribos grandes, ajudará a compensar a fraca produção dos avarentos em proles.

Na mudança de ano e no jantar privado de amigos chegados, lembrei-me de te oferecer uma agenda própria para grávidas planificadas. Tu riste mas senti que gostaste do meu banal gesto de ternura. Que é grande como sabes, até pelo orgulho que sinto de te ter como amiga, sendo tu mais nova que a minha filha Catarina, o que me faz sentir menos velho que aquilo que a lei da vida impõe.

Há pouco tempo, num almoço de amigos, disseste-me da coincidência de poucos dias após a minha oferta da agenda, teres sabido que um embrião já germinava no teu corpo. Esbocei dar-te um beijo de alegria que mandaste parar porque as coisas não estavam a correr bem. Suspendi o beijo amigo e nem sabes como me custou pará-lo assim e engoli-lo cá para dentro. Sobretudo porque vi uma sombra nos teus olhos. E nada me põe mais triste que sombras nos olhares dos meus amigos.

Disseste-me, há pouco, que afinal tudo está bem e lá para final de Setembro, o primeiro dos teus proletários estará cá fora e a lutar por um lugar feliz no mundo. Em espírito, fiz a mímica da metade que faltou do beijo interrompido. Só espero que ele tenha galgado quilómetros e chegado aí ao Porto, com a mesma ternura com que saiu do meu coração.

Caro Nuno,

Vamos lá a treinar com afinco essas coisas das fraldas e biberões.
Publicado por João Tunes às 11:58
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VIAGEM AO BARREIRO

No quadro da concentração industrial proteccionista adoptada por Salazar, Alfredo da Silva obteve a fatia gorda da indústria química. E foi no Barreiro que instalou o seu império fabril.

Terra pacata de fragateiros e outros dolentes misteres de gente vivendo do rio, o Barreiro transformou-se na maior concentração fabril do país. Os perfis dos mastros das fragatas ribeirinhas ancoradas e de velas recolhidas cederam o seu contraste, nos céus do Tejo, às chaminés fumarentas. As primeiras vítimas terão sido as gaivotas que se encheram de ódios justos para com a fumarada agressiva e rumaram a novos poisos.

O império CUF foi crescendo e transformou-se no maior gigante industrial de Portugal. Estreitamente aninhado no proteccionismo estatal, costas livres das facadas da concorrência, estreitamente ligado à rapina das matérias coloniais e à exploração das pirites alentejanas, o morgadio industrial implantado por Alfredo da Silva e legado à família Mello, tornou-se no principal monopólio da estrutura económica do Estado Novo.

As actividades do império CUF não pararam de crescer e foram-se diversificando em actividades que estavam presentes em quase todas as actividades chave. A cereja no cimo do bolo foi a sua posição bancária (Totta) que transformou o grupo no mais poderoso barão da concentração económico-financeira.

Os fragateiros sem fragatas e deserdados da companhia das gaivotas não chegavam para prover a imensa sofreguidão de mão-de-obra que a industrialização do Barreiro exigia. Numa época de trabalho operário intensivo e extensivo, uma numerosa classe operária era necessária e enquanto o diabo esfregasse um olho. O Alentejo dos deserdados de terra e feudalizados pelos lavradores de cortiça e trigo, com hectares de terra a perder de vista e cuja extensão só tinha comparação com a preguiça dos donos e a sofreguidão de estroinarem os ganhos, estava ali mesmo à mão de semear. Foi do Alentejo que veio a grande massa operária de camponeses rapidamente transformados em alimentadores de fornos e das suas labaredas. Vieram aos magotes, ansiosos em apagarem a memória das fomes passadas. E das praças da jorna transitaram, deslumbrados, para uma nova identidade que forjaram num estar, sentir e ser barreirense que foi perdendo a sua matriz fragateira para se transformar num bastião do Grande Monopólio e de sentido de pertença proletária.

Os novos povoadores do Barreiro não deixaram adormecer as suas mãos de luta e de protesto, calejadas que estavam pelo hábito da resistência contra a fome imposta pelos terratenentes. Rapidamente, sentiram que de uma exploração tinham passado para outra. Então, como se fosse um destino traçado, o Barreiro tornou-se no principal bastião da luta operária. Foi a contra-senha da benesse salazarista dado aos Mellos. A vila operária passou a viver numa assanhada dicotomia, com altos e baixos: os Avantes nos bolsos da ganga dos operários, a GNR e a Pide a vigiarem pelo sossego dos lucros patronais.

O desenvolvimento industrial fez crescer o Barreiro, rapidamente tornado porto de abrigo de muitas gentes sedentas de trabalho.

O desenvolvimento das fábricas da CUF e as inovações tecnológicas impuseram um novo tipo de proletariado mais apto e mais produtivo que a primeira legião de camponeses importados. O Ministério da Educação adaptou-se aos desígnios da CUF para fabricar uma segunda geração de produtores. Liceu era para formar gente destinada a mandar, o Barreiro não necessitava disso, os quadros importavam-se onde os houvesse. O Barreiro não teve direito a ter um Liceu. O que o Barreiro precisava era de operários ali à mão, se possível educados, desde pequenos, no culto do império industrial. Assim foi criada a gigantesca (para a época) Escola Industrial e Comercial Alfredo da Silva (o nome era uma marca). Ali se formou a segunda geração de mão-de-obra, em cursos de serralheiros, analistas químicos e amanuenses. O Estado formava, a CUF recrutava. O círculo ideológico de osmose entre o fascismo e os monopólios fechava-se em todas as suas partes.

A democracia trouxe as bandeiras vermelhas para as ruas para se agitarem ao ritmo da brisa ribeirinha. Com a afirmação comunista, veio o sectarismo estremado como que a querer recuperar gritos engolidos durante décadas. O punho erguido fez preguiçar o pensamento político. O império CUF tornou-se num anacronismo impossível de adaptar às novas regras da economia.

Hoje, o velho Barreiro não existe mais ou somente perdura em algumas memórias. As fábricas foram, na sua maioria, comidas pela ferrugem. O Barreiro tornou-se um dormitório e passou a Cidade. O ensino secundário está unificado. A marginal virada para o Tejo lá está e mais bonita, mas quando se calam os sons dos passos das lentas passeatas dos operários reformados nos seus rituais de conservação da memória, o barulho faz-se ouvir pelas frestas da movida em bares e discotecas. O PS é maioritário na Câmara Municipal. O Barreirense anda pela II Divisão B.

Quase tudo mudou. Como tinha de ser. Ficou a vista esplêndida sobre Lisboa através do Mar da Palha porque ainda não se lembraram de enxertar prédios no meio do rio. E as gaivotas, enxutos os fumos ácidos, regressaram ao Barreiro. Só que andam atordoadas na escolha dos poisos. Provavelmente incomodadas com o barulho de uma aldeia agigantada em cidade e com dificuldade em carpirem a saudade dos mastros das fragatas pré-industriais.
Publicado por João Tunes às 11:57
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CONTRIBUTO PARA UMA REFLEXÃO PELA ESQUERDA

Pode nem parecer mas uma sucessão de eleições estão aí à porta.

Numa perspectiva de esquerda, as coisas, provavelmente, nunca estiveram tão turvas nos prolegómenos do momento da escolha.

Exactamente na altura em que a inépcia da direita raramente terá oferecido tantas possibilidades de alternância e em que ressalta o sufoco do PSD em libertar-se do abraço fétido da extrema-direita à Portas.

O PCP segue, inexorável, o triste caminhar outonal da decadência lenta, não querendo mudar. Porque sabe que, se muda, apaga-se ainda mais depressa. É um peditório de política triste e previsível que só merece o respeito porque algumas das suas bandeiras que vão caindo não deviam apodrecer no chão.

O PS está preso duma cegueira que o leva a uma existência virtual. A liderança finge que existe mas tenta que os seus gritos não pareçam demasiado gritantes para que lhes esqueçam as asneiras não emendadas. Desde as argoladas (politicamente graves e irrecuperáveis) do caso Casa Pia que o PS ficou sem líder de facto. E o que lhe vai valendo, mas custando caro, é o arreganho do Dr. Soares, de novo transformado em pai e protector do PS. Ferro Rodrigues ficará para sempre como responsável de não ter a capacidade de se libertar do sentimento de posse sobre o Partido que dirige, arrastando-o na sua incapacidade de lidar com dramas pessoais, politizando-os. Provavelmente, a esta forma de apego ao Partido e de o confundir com as causas e os dramas dos seus responsáveis, não será estranha a cultura de irmandade introduzida pela sua fortíssima componente masson em que as solidariedades internas sobrelevam a solidariedade para com os que sofrem os efeitos da política neo-liberal.

O Bloco de Esquerda terá a oportunidade de ter o seu melhor resultado. Sem que isso represente grande mérito político dos bloquistas. Trata-se, apenas, de recolher as sobras dos desencantos, no PCP e no PS. A menos que haja capacidade de abrir, na esquerda, uma invenção política com um projecto de governar e gerir a mudança, o Bloco será aquilo que é mais característico dos seus bloqueios bloquistas e daí não passará. Ou seja, enquanto a matriz do domínio trotzkista não se diluir, o BE continuar a ser um albergue dos gays e não houver capacidade de assumir responsabilidades de governar em substituição da cultura do protesto.

Prevejo que o reposicionamento da esquerda passará pela eventual confluência de dinâmicas próprias no PS e no BE. E, talvez, pelo papel que a esquerda social (CGTP e UGT) queira jogar nesta reconstrução de caminhos políticos, dependendo da capacidade de resistência a esta fusão social-político por parte da corrente estalinista-obreirista da CGTP (que quererá que a CGTP mantenha a função de ser uma cortina que oculte a decadência do PCP) e do peso da componente PSD para manter a UGT na zona amarela.
Publicado por João Tunes às 11:55
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CARNAVAL EM CAMISINHA

Lula vai distribuir dez milhões de camisinhas à borla aos brasileiros para estes fazerem Carnaval seguro.

Parece que andaram às voltas com o slogan promocional e foi chumbado o proposto "Tenham fé, usem o preservativo". Por receio da Igreja, a "fé" foi substituída pela insípida "confiança". Cá por mim, se tivesse sido consultado, procuraria outro mais apelativo, envolvente e popular. Do género: "Mete camisinha, Lula paga".
Publicado por João Tunes às 11:54
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DESONESTIDADE DE UM ACADÉMICO COMENTADOR

Ficou-nos a marca de termos tido um Pai tirano e gelado durante muitas décadas. Que pensava e decidia por nós, tinha a bofetada sempre pronta e nos queria quietos na missa sem a falta de propósitos que era, para ele, ler um livro, dar um beijo ou atirar com um poema ao vento para o ver esvoaçar pelas serranias ou espreguiçar-se na areia a olhar o mar.

Recuperada a liberdade, vamos mastigando a dualidade da nossa relação com a autoridade. Queremos mais esquadras e mais polícias, mas estamos prontos a apontar-lhes o dedo se fizerem o gesto de puxar pelo chanfalho. Queremos Tribunais e Justiça a funcionar para todos, mas preferimos a retórica dos advogados às sentenças dos juízes.

Suspiramos de saudade por um Pai, mas não o queremos porque nos lembramos que tivemos um Pai que era mau. Preferimos diluir este trauma e este paradoxo, pensando que todos os Pais são necessários desde que não existam.

Não sei se o juiz Rui Teixeira tem sido, sempre, competente e suficientemente distante. Não tenho competência para avaliar isso e mesmo que a tivesse haveriam sempre mil argumentos contrários e igualmente válidos, como se sabe que acontece na interpretação das leis. Deixo pois a avaliação examinadora para as inúmeras estâncias de recurso e que são tantas que dificilmente um mau juiz poderá passar pelo crivo de todas elas. Por outro lado, Rui Teixeira tem apenas o mister de formular a acusação e não será ele a declarar os culpados e os absolvidos.

Mas vê-se que o juiz Rui Teixeira é homem determinado, discreto, corajoso e resistente. E isso vale mais, muito mais, que o exibicionismo mediático e emocional de uma defesa vaidosa e arrogante. Com dinheiro que não falta e fama que muito aproveita.

Com o tempo, vai-me ficando a ideia consistente que Rui Teixeira quer que os arguidos vão a julgamento enquanto a defesa (as defesas, se incluirmos as pressões dos amigos dos arguidos e os comentadores que lhes levam a água ao moinho) tudo parece fazer para que o julgamento não se faça ou apenas se realize quando toda a justiça estiver desacreditada e incapaz de aplicar a lei.

A campanha contra o juiz Rui Teixeira tem sido um dos espectáculos mais deprimentes sobre a justiça que temos e a justiça que queremos. Tudo tem valido. Apesar de se esquivar aos holofotes, não se livra do holofote da curiosidade sedenta e desejosa de traçar dele um retrato de malvado paranóico. À falta de melhor, tenta-se ridicularizar o homem porque calça ténis e veste t-shirt, é motard, é careca precoce, é novo de mais para o lugar e, se não dá nas vistas nem se passeia pelos salões da má língua, é porque só pode ser um safado que vive do prazer íntimo de fazer mal.

Há dias, no Público, um comentarista premiado (Urbano Tavares Rodrigues elogiou-o porque é "um comentador com assunto para 365 dias por ano") lembrou-se de fazer uma peça a merecer o prémio da maior desonestidade intelectual e que fere os olhos, dado tratar-se de um ilustre académico. Sob o título "Ninguém é perfeito", Eduardo Prado Coelho dedicou todo o seu comentário ao treinador José Mourinho. Zurze-lhe com lâminas afiadas. Não contesto isso, porque acho que sportinguista que não se sente não é filho de boa gente. E, depois do Sporting-Porto, Mourinho foi um bárbaro a falar e só merece qualificativos que se usam para gente bárbara. No final do seu comentário, EPC, esgotados que foram os epítetos anti-Mourinho, entendeu que lhe devia dar a estocada final e que foi esta pérola merdosa de escrita: "Poderá mesmo associar-se ao juiz Rui Teixeira, que tem um perfil semelhante"!

Num comentário sobre um treinador, futebol, Sporting e F C Porto, eis que surge, como não se quer a coisa, a associação da malvadez máxima associada a um juiz recolhido em interrogatórios e despachos e que nem se sabe se gosta de futebol.

Por estas e pela lembrança das vítimas (sim, houve vítimas!), é que me obrigam a ser um admirador distante do juiz Rui Teixeira. Não por espírito de contradição. Apenas porque prefiro a Justiça ao género destes amigos de alguns destes arguidos.
Publicado por João Tunes às 11:52
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A PAZ QUE VEIO POR CAUSA DE UM QUARTEL NO MEIO DA FÁBRICA

O longo caminho junto à muralha que dava para o Tejo era sítio preferido pela miudagem nas suas formas próprias de entreter o tempo e inventar aventuras. O baixo casario em fieira corrida concedia um amplo espaço em terra e erva brava para todas as guerras de índios e futeboladas em que cada um se sentia o José Augusto ou o Faia. Para mais, um moinho antigo mas conservado estava ali prontinho para inspirar fantasias quixotescas.

Vinha-se em bando deste a Igreja da Senhora do Rosário e só se parava depois de passar a Igreja Matriz no Arco Casal e então era tempo de pausa a olhar o cais sempre cheio de enormes barcos a despejar minérios para as fábricas da CUF e a levar sacos e mais sacos de adubos para fertilizar roças coloniais. Uma estirada pela marginal do Barreiro dava e sobrava para se chegar ao fim com vontade de ir para casa matar sedes e afagar o estômago. O dia já estava ganho.

Seguir mais adiante, mesmo quando vontade sobrava, raramente calhava. Depois de se estar cheio de água do Tejo por dentro dos olhos e as botas escalavradas recheadas de pés doridos a pedirem descanso, ali na fronteira entre a vila e a Fábrica, pouca vontade havia de entrar na zona negra de pó e fumo.

Mas uma vez ou outra, em que os ímpetos estavam mais afoitos e com pouca vontade de desmanchar a tribo, lá íamos pela estrada incrustada dentro da Fábrica até ao Bairro Operário disputar território a outras maltas. No nosso maniqueísmo tribal, a marginal era nossa, a malta do Barreirense, enquanto a garotada do Bairro Operário só podia estar enfeudada ao rival Desportivo da CUF. Nós éramos vermelhos e bons, os outros eram verdes e não valiam um caracol. Não tinha nada que saber.

A estrada que retalhava a Fábrica era atravessada, a meio, por uma linha férrea de via reduzida por onde se levavam e traziam produtos entre o armazém e o cais. O movimento de comboios de mercadorias era constante pelo que a incursão tinha o aliciante suplementar de nos encher os olhos com o mistério que vinha à mistura com o vapor das locomotivas.

Passada a linha férrea, erguia-se, num dos lados e integrando as instalações da CUF, um enorme quartel da GNR com sentinelas diligentes e espingardas a tiracolo. Demorou tempo até que entendesse o que fazia aquele enorme Quartel metido dentro de uma Fábrica. Se ali se trabalhava, os guardas vigiariam os fumos e os adubos? Se a população vivia dos dois lados da Fábrica, e, em princípio, seria aí que os meliantes fariam das suas, porque raio os gnrs se encafuavam no meio dos sacos de adubo?

Era a idade da inocência. Faltava-me saber que, ali na Fábrica, a malta enfarruscada que punha a Fábrica a deitar fumo, uma vez por outra, também fazia greve. E isso era coisa tão grave que se tratava primeiro à coronhada, depois em arrastos, por levas, para os cabecilhas serem entregues à PIDE.

Quando me explicaram a razão porque havia um Quartel plantado no meio da Fábrica e passei a notícia aos da minha tribo, todo o bando ganhou respeito pelos adversários do Bairro Operário. Decidimos que não era justo afrontá-los mais. Bastavam e sobravam os olhares aterrorizadores dos gajos da espingarda ao ombro. Claro que não podíamos ficar com a fama de cobardolas e a justificação que demos para nós próprios foi que afinal a rapaziada do Bairro Operário também era do Barreirense. Ora a malta do mesmo Clube não anda à batatada uns aos outros.
Publicado por João Tunes às 11:43
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UMA OPINIÃO SOBRE A BLOGOSFERA LUSITANA

Miguel Poiares Maduro, jurista no Tribunal de Justiça da União Europeia e cronista do DN, avaliou a blogosfera portuguesa. E disse:

"Nesta coluna de «blogs» nunca falámos dos verdadeiros blogs, os originais! E, no entanto, este é um dos fenómenos mais interessantes dos últimos anos em Portugal: a emergência de uma nova comunidade crítica e de uma opinião livre de uma marca política partidária. Sejamos honestos, muita da melhor opinião que se escreve em Portugal hoje em dia encontra-se nos blogs. Importados dos Estados Unidos, começaram por trazer uma nova opinião de direita ao espaço público português, mas hoje parecem ser os blogs de esquerda que estão mais activos (a isso não será estranho o facto de, felizmente, muitos dos bloguistas de direita terem passado a colaborar, igualmente, na imprensa escrita, o mesmo não tendo sucedido, da mesma forma, à esquerda). Se quisesse ser provocador, diria que a direita chegou primeiro mas se aburguesou e que a esquerda chegou mais tarde mas é mais resistente. O que mais admiro no espaço público dos blogs, no entanto, é que a defesa de um discurso ideológico marcado e transparente coincide com a manifestação de uma notável liberdade face aos campos tradicionalmente definidos pelo discurso partidário e da opinião escrita dominante em Portugal. Simultaneamente, o assumir claro de um debate ideológico não impede a emergência de um notável respeito recíproco entre bloguistas com posições bem diferentes (que, inclusive, desenvolvem amizades e se citam mutuamente). Se há um verdadeiro espaço público em Portugal (no sentido Habermasiano de procura de um espaço de discurso universal, livre e transparente) ele encontra-se, paradoxalmente, no espaço virtual da nossa Internet."

Não sei se é mesmo assim como o ilustre jurista pinta. Há para aí traquinices de direita e saudosistas da Velha Ordem até dizer chega. Alguns deles, reconheça-se, com qualidade de escrita e de argumentação. Cavernícolas também, à direita e à esquerda. Coisas da liberdade e da expontaneidade da escrita... Mas sabe bem este olhar optimista que afaga os egos mais carentes. E, no meio de tanta porrada na Justiça e da Justiça, um panegírico vindo de um jurista até soa a melodia.
Publicado por João Tunes às 11:40
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AGORA: O PARTIDO DO BEATO

Um país ainda não refeito do pânico de ver os juízes sucederem aos homens do futebol na tomada do poder, apanha agora com um congresso constituinte do Partido dos Gestores que quer ditar as regras políticas e ideológicas do futuro do país.

Agora, os Gestores, fartos de esperarem e gastarem as despesas de representação em vão, dizem-nos como é que é. Traçaram diagnósticos em power point, cruzaram pernas para mostrarem as meias de seda, sentaram-se compostos e exibindo - como "crachats" - lindas e vistosas gravatas, deixaram que os relógios espreitassem nos pulsos e os finos aros dos óculos reluzissem para as câmaras, exibiram os sorrisos dos bons negócios, esqueceram agruras dos problemas da malta a mandar para a rua e puxaram pelas memórias tiradas dos últimos gurus. Quase todos vestiam as suas fardas de fatos cinzentos e azul escuro.

Ali, no Convento do Beato, não entraram os Sindicatos mais as suas greves, o povo cheio do pó do trabalho também não entrou, os desempregados não espreitaram à porta, os pretos e os ucranianos não os incomodaram, não puseram lá o cú nem os poetas nem os sonhadores, ali ninguém namorou nem se pôs de pé em cima de uma cadeira, todos falaram baixo e com boas maneiras.

Ali, no Convento do Beato, eram todos bons. Ninguém prestou contas sobre os impostos que paga e os que retêm. Ali, falando sobre como deve ser o Estado, ninguém confessou as vezes que lhe bateu à porta, o sabujou e lhe pediu favores.

Ali, no Convento do Beato, fez-se política e pediu-se poder. Formaram um Partido num único dia. Um Partido pragmático e decidido. Descobriram que é possível ter-se um Partido que não desperdice recursos nessa despesa inútil que é ir a votos e andar pelas feiras a dar beijinhos em velhas com bigode.
Publicado por João Tunes às 11:39
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RECORDISTA SIM MAS DE ESQUERDA É QUE ELE NÃO É

"Há em Cuba 300 presos políticos, dos quais 87 prisioneiros adoptados pela Amnistia Internacional, o que coloca a Ilha no primeiro lugar mundial do número de prisioneiros de opinião em relação com a população." (Elizardo Sanchéz, citado no Público de hoje)

"Se a esquerda é Fidel Castro, não o sou. Mas é óbvio que não penso que ele seja de esquerda. É um ditador totalitário e isso é sempre de direita." (Rosa Montero, entrevistada na Visão de hoje)
Publicado por João Tunes às 11:38
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POLITICOS FUMADOS

Vinhais é perto da minha terra transmontana. Terra de gente rude e especialista em enchidos de fumeiro. Do melhor que por cá se faz.

Em Vinhais, realiza-se, todos os anos, uma famosa e concorrida Feira do Fumeiro.

Está-se mesmo a ver. Feira, feirantes, pessoal em barda, logo sítio ideal para angariar simpatias e votos. Poucos políticos lhe resistem.

Segundo a Visão, por lá passaram, este ano, Armando Vara (este tem desculpa porque é patrício) e Capoulas Santos (do PS), João Nabais (ainda bloquista?) e .. Manuel Monteiro, pois claro.

O líder da Nova Democracia não podia lá faltar. Deve ter ido à procura de inspiração. Pode ser que fumada, a democracia melhore. Ou talvez tenha ido discutir a Constituição Europeia num tasquinho de salpicão.

Inovam, inovam, mas sem banhos de feiras é que eles não passam.
Publicado por João Tunes às 11:36
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FERRODESGOSTO

Sempre tive um fascínio particular pelas estações de comboios. Porque gosto de comboios e da sua forma de correr nas distâncias e contra elas. Porque, viajando num comboio, tenho a sensação que estou no centro do mundo e tenho a natureza a desfilar-me (ou desfiar-se?) pelas janelas. Porque um comboio é bom para dormitar, para ler ou para namorar. Porque o movimento das estações é um formigueiro que me deslumbra. Talvez porque me faça sentir mais cósmico. Sei lá. Mas que gosto de comboios e das suas gares, lá isso gosto.


Também simpatizo com os ferroviários. Acho que eles têm vagares felizes na forma ritualista como cumprem as suas funções. Talvez porque tenha sido enformado numa ponta de uma ferrovia (era no Barreiro que se iniciavam as viagens para o Sul) e porque tenho apelido de entroncamento ferroviário lá para as bandas do Algarve. Sei lá. Mas que gosto dos ferroviários, lá isso gosto.


Uma pessoa gosta mas tudo tem os seus limites. Ando bravo com um Chefe de Estação. Não é que o tipo deu em chauvinista radical, eugenista mesmo, e propôs-se mandar exilar, para sítios do caraças, os doutos fundadores do Partido do Beato? Não, isto não. Um povo é feito de heróis, santos e sacanas. Mas todos são povo. Se eles foram cá paridos, temos de os aturar a todos. Não temos o direito de exportar o nosso lixo. Que mal terão feito ao Ferroviário, os iraquianos, os afegãos e os haitianos? Achará ele que não têm lá corjas que lhes cheguem para aturarem? Enquanto me lembrar desta, nunca mais apanho o comboio para Sintra. Quando muito, apanhar apanho, mas vou sair no Algueirão. Não quero é ver pela frente o Chefe da Gare de Sintra. Isso não.

Publicado por João Tunes às 11:25
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UMA LEITURA E DOIS ANDAMENTOS

PRIMEIRO - MARIA EUGÉNIA VARELA GOMES

Uma mulher excepcional. Uma vida excepcional. Talvez sintetizável na imagem de um vulcão feito vida. Vida de luta, sofrimento, luta. Uma indomada e indomável. De uma clareza e frontalidade absolutas. Concorde-se ou não com todos os seus olhares sobre a sociedade e a política.

Conhecer o percurso da vida de Maria Eugénia Varela Gomes será uma forma simples e directa de saber o que foi o fascismo português, lido do lado dos que se lhe opuseram. Para mais, ela foi uma lutadora permanente sem nunca ter sido, por não ter querido ser, uma mulher de Partido.

O livro CONTRA VENTOS E MARÉS, Edição Campo das Letras, é um depoimento de enorme interesse. Escrito a "duas mãos", entremeando notas autobiográficas com uma entrevista conduzida por Maria Manuela Cruzeiro. Recomendo-o vivamente a todos aqueles que acreditam que, entre as portuguesas, há grandes mulheres.

SEGUNDO - CHAPI VARELA GOMES

Uma pessoa arranja amigos, quando arranja, sem saber como nem porquê. Engrena-se e pronto, nasce a empatia e a cumplicidade.

Fiz um amigo em casa de outro amigo. Era um homem de silêncios que vivia sobretudo do olhar vivo e atento. Apagava-se no grupo. A gaguez não ajudava, pelo contrário. A sua timidez era ostensiva. No grupo numeroso de convívio, deu-nos para a simpatia um pelo outro. Sem alardes, nem efusões, nem sufocos de presenças. Na maior parte das vezes, o grupo seguia a sua dinâmica convivial e nós íamos para um canto trocar as nossas sentenças. Embora ele fosse quase da outra geração a seguir à minha, parecia que tínhamos andado juntos desde a escola primária, tal a cumplicidade dos códigos da comunicação e do sentir.

Engenheiro de Máquinas, era um técnico perfeccionista e altamente politizado. Permanentemente insatisfeito consigo e com os projectos em que se envolvia e que permanentemente fazia e refazia. Inquieto, sempre inquieto. Tentei ajudá-lo a encontrar um rumo profissional mais consistente mas ele parecia preferir andar de desconsolo em desconsolo.

Encontrava-o sobretudo nas idas ao mercado para os abastecimentos de frutas e hortaliças. Normalmente, ele por ali andava com o seu filho pequeno, dando as suas voltas. Quando nos víamos, o tempo e os objectivos paravam, a conversa desfiava-se solta sobre tudo e sobre nada. Era um radical e um pão pão queijo queijo. Parecia-me ouvir, atrás das suas falas, o discurso conhecido, radical e frontal, do Pai. Criámos e desenvolvemos um afecto sem agenda e que se resumia a conversas soltas nas voltas dos encontros de vizinhança em que ambos os nossos olhares se iluminavam pelo gosto da presença do outro. Umas alturas, encontrávamo-nos com alguma frequência, noutras só nos víamos muito espaçadamente.

De repente, a notícia e o murro. O Chapi Varela Gomes tinha-se suicidado, pendurando-se numa árvore da Serra de Sintra. Ficou-me uma dor funda de um bom amigo perdido nos mistérios da vida.

Agora leio o livro da sua Mãe e aprendo porque perdi este amigo. Maria Eugénia Varela Gomes não foge a enfrentar a sua perda e diz:

"Tinha que ser. E ele também sabia que eu sabia. Sabíamos ambos porque ele era parecido muito comigo. Só tinha uma coisa, é que eu - talvez porque muita gente me bateu - habituei-me a reagir e a dizer: -Não sou tão má como vocês me fazem-; e ganhei um certo treino e acabei por, melhor ou pior, gostar um bocadinho de mim. Mas o meu filho não gostava nada dele. E para viver é preciso gostar um bocadinho de si próprio..."

Perceber o Chapi só aumentou a minha saudade da sua amizade. Inútil, eu sei. Não, não sei. Sei lá o que sei. Sei que a vida às vezes é uma grande merda.
Publicado por João Tunes às 11:19
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j.tunes@sapo.pt


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