Domingo, 28 de Janeiro de 2007

A INCRÍVEL E ÚTIL MEMÓRIA DE EDMUNSO PEDRO

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Não tinha necessariamente que coincidir: um homem singular escrever um livro de memórias singular. Mas é o caso deste (*) primeiro volume, cobrindo o período que vai da infância até à saída de Edmundo Pedro do Campo de Concentração do Tarrafal, no imediato pós-guerra mundial e com 27 anos de idade. Assim, o período abrangido por estas “memórias” inclui não só a sua infância revolucionária (começou-a mais a saga das prisões, com 14 anos) como a adolescência e a primeira fase da vida adulta, em que o substancial se desenrolou como prisioneiro do Tarrafal para onde entrou com 17 e saiu com 27 anos! Logo aqui, ressalta a primeira grande odisseia especial, a sua vivência dramática de criança-adolescente combatente contra a ditadura, pelo comunismo e com uma personalidade formada na clandestinidade e na prisão. Abrangendo o seu período de “crente” no marxismo-leninismo da primeira metade do século XX (o mesmo que enformou Pavel, Bento Gonçalves e Cunhal, entre tantos mais). Porque a decepção só viria a seguir.

 

Um aspecto interessantíssimo do livro é a recriação que Edmundo Pedro faz, agora e aos 88 anos de idade, das formas sucessivas como se inspirou e interiorizou o fanatismo por um modelo revolucionário radical, como se suportava nele para suportar provações extremas e imunizar-se relativamente a todas as evidências dos absurdos, perversões e desmandos da prática e das referências do seu serviço ideológico. Conseguindo alcançar este desiderato com uma espantosa e clara reelaboração da apreensão das certezas, balizas e limites. Aliás, descontando algumas ligeiras adaptações, ainda hoje se mantém a mesma receita de formatação para se chegar ao altar da imunidade fanática comunista, essa transformação, parafraseando Júlio Cortazar, do militante político no “homem crustáceo”, o da gabada coerência absoluta (bem expressa, por exemplo, no culto mítico por Cunhal de praticamente toda a sociedade portuguesa), aquele em que todo o mundo pode desfazer-se em cacos, todas as evidências mostrarem o crime debaixo da mentira, que não arredará um pé para o caminho da dúvida ou da interrogação, porque se vestiu com a imunidade fanática de uma carapaça que o liberta da dúvida, do cotejo e da reflexão, trocando tudo isso pela tranquilidade de possuir uma certeza revelada. Para mais, tratando-se de um renegado, Edmundo Pedro faz esse re-percurso com uma limpidez e honestidade intelectual sem máculas, procedendo a um oportuníssimo ensaio psicológico sobre o “homem marxista-leninista” (formato que a Internacional Comunista, sob a batuta de Stalin, espalhou por todo o mundo e de que ainda agora se vão encontrando umas suas abencerragens aqui e acolá, incluindo em Portugal).

 

O retrato repressivo do Estado Novo, quando este copiava, no que podia adaptar, Hitler e Mussolini, sobretudo bem expresso na perfídia maior do Campo do Tarrafal, é não só impressivo como detalhado até ao âmago dos limites do cinismo e do sadismo de que o salazarismo foi capaz de conciliar com a sua fórmula própria de “fascismo nacionalista-clerical”.

 

Expondo-se na sua humanidade sofrida, Edmundo Pedro não reserva, neste livro, todos os holofotes para si. Ele dá luz suficiente para retratos únicos, com interessantes contributos biográficos, sobre um conjunto de figuras marcantes da história revolucionária portuguesa e que o marcaram. São os casos de Pavel e de Bento Gonçalves, lideres proeminentes do PCP e que ainda hoje são mantidos numa penumbra construída para que não incomodem o lugar único histórico atribuído pelo PCP a Álvaro Cunhal, numa decisão propagandística deliberada de, ali e por ali, se prestar um culto único e absoluto com missa a um único deus no altar. Mas a figura mais revelada por Edmundo Pedro, tanto ou mais que ele próprio, é o seu próprio pai, Gabriel Pedro, quiçá o mais aventureiro, corajoso, emotivo, rebelde, indisciplinado e truculento entre todos os revolucionários comunistas clandestinos de todos os tempos, com toda uma vida dedicada à revolução comunista e à devoção pela União Soviética (que nunca conheceu mas amou sobre tudo na terra). Gabriel Pedro, fiel militante comunista que assim morreu antes do 25 de Abril, era não só um disponível entusiasta para todas as ousadias (com 70 anos de idade, foi o mais importante operacional da acção da ARA em que foi colocada, pelo lado do rio, uma bomba no navio “Cunene” que, carregado com armamento para a guerra colonial, sofreu uma devastadora explosão), como um rebelde perante as afrontas (foi o prisioneiro mais castigado no Tarrafal) e um homem frontal a expor as suas ideias e pensamentos, inclusivé perante o seu partido (o que lhe valeu vários afastamentos, suspensões e expulsões) mas com profundos desequilíbrios emocionais e incapaz de viver fora do enquadramento do seu partido. E é assim que se entende que, preenchendo Gabriel Pedro todos os requisitos e mais alguns para ter lugar de destaque no martiriológio e na galeria dos revolucionários notáveis e lendários do movimento operário e do PCP, ainda seja um incómodo para o partido a que dedicou toda a vida. Como Edmundo Pedro revela e denuncia, o PCP não omite Gabriel Pedro quando não pode, tendo-lhe dado o nome a um Largo em Almada e pouco mais. E, inclusive, as memórias que Gabriel Pedro escreveu antes do 25 de Abril e pouco antes de morrer, ele que morreu militante comunista destacado, estão apreendidas e na posse de um guardião da ortodoxia estalinista (Domingos Abrantes), sem direito a serem reveladas nem publicadas (total ou parcialmente). Decerto pela razão única de os escritos de memória de Gabriel Pedro não se encaixarem nos cânones do militante obediente, acrítico e bajulador, o protótipo do “bom camarada” e “fiel discípulo de Cunhal”. Sem direito sequer a que sejam lidas pelo próprio filho. Invocando-se o argumento de que as memórias escritas por Gabriel Pedro são “património do partido”. No caso: património dos seus silêncios e pelo perigo subversivo de demonstrar que, mesmo entre revolucionários, cada homem e cada mulher são seres únicos e diferentes entre si.

 

Espera-se que Edmundo Pedro tenha vida e saúde para continuar a publicação das suas memórias. Depois deste volume sobre a sua experiência de fidelidade comunista, não deixará de ser de muito interesse conhecer a sua versão sobre a sua vida e porquês de renegado (que não o impediu de voltar ao combate contra o fascismo e à prisão). E trata-se de um renegado especial. Com uma lucidez incrível e excelente memória, destemido e com uma enorme capacidade de escrita, Edmundo Pedro cometeu o pecado maior do renegado – após o 25 de Abril e enquanto dirigente do PS, andou em movimento de armas para o combate violento pela democracia e contra a imposição de uma ditadura comunista (o que o levou, em democracia, ao regresso à prisão). Ou seja, segundo os cânones das suas origens políticas, ao serviço da contra-revolução, do capital e da reacção. Aguardemos.

 

 

(*)“Memórias, um combate pela liberdade”, Edmundo Pedro, Editora Âncora, com prefácio de Mário Soares e posfácio de Fernando Rosas.

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Adenda: Este post foi transcrito, após autorização, pelo Passado/Presente. Mais uma vez, fico grato pela consideração.

Publicado por João Tunes às 19:46
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