Quarta-feira, 22 de Março de 2006

TRACTORES URBES DENTRO

Os tractores estão aí. Em marcha.

 

A questão agrária volta à ordem do dia. Lá teria de ser. Por muito que daí distraídas tenham estado as muitas gentes das urbes litorais. E mesmo querendo não se mata nem muda de uma assentada este país ruralizado em que Salazar tanto empenho fez em nos deixar como herança e sina de encomenda à submissão paroquial.

 

Outra vez, os tractores estão aí. Em marcha.

 

Agora não são os conduzidos pelos tisnados proletários do pão que o diabo amassou e lhes negou, devotos de Santa Catarina Eufémia e São Álvaro, defendendo com os punhos mal fechados pela carga de artrites a terra a quem a trabalha. Para esses já só resta uma ou outra missa de trigésimo ano dedicado a São Jerónimo, um santo de up-grading do new-look do populismo, e antes que as lembranças de lutas passadas não faleçam em votos, em autarquias e em comícios.

 

Outra vez, os tractores estão em marcha.

 

Por sinal, vêm da mesma região dos velhos e reformados famintos de pão e de terra, a quem mataram a utopia da redenção e o controle bem controlado dos senhoritos funcionários na profissão de plantarem revoluções porque tinham uma foice a decorar a bandeira rubra. Mas são diferentes. Incluindo os senhoritos. Esta é a segunda ou terceira geração paridas pelos velhos senhoritos agrários tudo mandantes, os da GNR e Pide à mão de telefonar, das fortunas ociosas estoiradas na jogatana e nas putas à conta da cortiça e do trigo protegido, os revanchistas de outras marchas de tractores e em que se borraram no susto há tanto tempo exorcizado. Os agrários mais do subsídio e da PAC que do lavrar, semear e competir. Os que quando chove ou seca, ou nem chove nem seca, metem papel para engordar conta de subsídio.

 

Têm um ar mais moderno e despachados estes outros tractores em marcha.

 

Pudera. Não são os feios e fortes de outros tempos oferecidos pelos camaradas búlgaros, polacos e soviéticos e que arrastavam “galeras” com rostos e punhos fechados controlados pelos senhoritos funcionários a justificarem a bandeira rubra e seus enfeites. Estes são tractores subsidiados marchando com gasóleo subsidiado e ociosos de culturas não feitas e por isso subsidiadas. Lustrando os novos-velhos senhoritos, mais senhoriais, os da CAP e da PAC, querendo novo ministro. Um ministro que não seja da agricultura mas dos subsídios. Para honrarem a memória dos avôs das jogatanas e das putas. Revolucionários também, pois claro. Um senhorito é um senhorito.

 

Tractores são tractores, agora em marcha e a lavrar caminhos de urbes.

 

Para terem um ministro que lhes vá no jeito da sementeira bancária. Por isso vêm às urbes. Onde está a banca, terra em que da semente sempre se colhe, faça chuva, vento, sol ou seca.

 

Não repararam? Os tractores estão aí. Em marcha.

 

Publicado por João Tunes às 16:07
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1 comentário:
De ana a 22 de Março de 2006
"punhos mal fechados pela carga de artrites a terra a quem a trabalha."
.......................
"antigos famintos de pão e de terra, a quem mataram a utopia da redenção "
............................
"honrarem a memória dos avôs da jogatana e das putas. "
...............................

Agora o meu trabalho para, aqui, por cinco minutos.
Quero comentar a transparência do amor e do desprezo que leio nas suas palavras.
Louvo o seu gesto de escrever sobre estes temas dos tempos que vivemos, nós, mas de que os nossos filhos terão, naturalmente, pouca lembrança. É bom que se saiba. Que a história nos ensine. Se não tirarmos ensinamentos, valeu de nada o que se derramou de sangue, suor e lágrimas.
Volto às tarefas, que para isso me pagam.

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