Como se a esquerda portuguesa tivesse uma tradição de unidade e luta, contasse com um largo cardápio de consensos e vitórias contra o centro e a direita e utilizasse - por rotina - a discussão aberta e fraternal para se definir o caminho comum que cultiva a construção da inexploração, cada vez que há atrevimentos de alguém ou alguns criticarem esta ou aquela acção de luta, cai o carmo e a trindade com acusação de cometimento de crime de fraticídio e de jogatanas com o inimigo. Quem se atreveu a criticar as decisões da CGTP em questões ligadas à manifestação do último sábado já apanhou pela medida grande em tudo quanto é sítio de culto da unicidade. Esta expressão unicitária, velha e conhecida contaminação pela doença do sectarismo de esquerda, exprime, afinal, uma posição conservadora e auto-justificativa por parte das vanguardas no poder do contrapoder. O “não fazer o jogo do inimigo” é a matraca silenciadora da divergência, entendida esta como sendo um acto de genuína traição. Quando, afinal, o que todos sabemos (os candidatos a silenciadores ou a silenciados) é que a via unicitária não fez outra coisa que impedir a abertura de espaços de debate e de pólos de decisão democrática em que as vias de luta e de transformação sejam encontradas e decididas com os interessados e pelos interessados, sem amos nem controleiros. A esquerda perdeu eficácia na luta e no caminho para o poder por debater pouco ou nada e substituir o contraponto e a divergência pelo unitarismo centralista. É inútil persistir numa via de obediência aos sectários. Decididamente, o futuro da esquerda não passa por aí.
OS MEUS BLOGS ANTERIORES:
Bota Acima (no blogger.br) (Setembro 2003 / Fevereiro 2004) - já web-apagado pelo servidor.
Bota Acima (Fevereiro 2004 a Novembro 2004)
Água Lisa 1 (Setembro 2004 a Fevereiro 2005)
Água Lisa 2 (Fevereiro 2005 a Junho 2005)
Água Lisa 3 (Junho 2005 a Dezembro 2005)
Água Lisa 4 (Outubro 2005 a Dezembro 2005)
Água Lisa 5 (Dezembro 2005 a Março 2006)