Raramente me senti tão amputado como hoje por, uma hora atrás, ouvir a notícia da perda de Manuel António Pina. Não pela perda de um Prémio Camões, pois o patrono está isento da capacidade de se queixar. Não pela perda do poeta, pois ficou muita obra feita e acessível e todo o poeta tem direito a morrer, único acto em que ninguém consegue escapar à vulgaridade. Não pela perda do jornalista e cronista, pois este governo ordinário, incompetente e louco e esta situação em que nos querem apodrecer e nos obrigam a lutar com lodo pela cintura já há muito não lhe mereciam a escrita, a atenção e a ironia. Talvez, mas não confirmo, pela perda do contador de histórias infantis, faceta dele que ainda não conheci, em que me dizem ter sido magnífico, também. Mas o meu sentido de amputação tem a ver, isso sim, com a perda de uma enorme e quase total cumplicidade no olhar sobre o mundo, as pessoas e a realidade, que representa, para mim, a perda de Manuel António Pina. E esta cumplicidade, tecida nos últimos anos, a partir do momento em que comecei a ler as suas crónicas no JN e depois passei para a qualidade de leitor da sua poesia (quando um amigo me segredou que MAP ainda era melhor poeta do que cronista, do que imediatamente duvidei mas que rapidamente confirmei ser verdade pura, corrigindo-me a parcialidade), tinha uma enorme força advinda de nunca o ter visto em pessoa nem com ele ter falado ou trocado correspondência, o que acrescentava um fundo de pudor nunca quebrável na forma como o lia a sentir-nos piscar os olhos um para o outro. Sabia que ele frequentava regularmente o meu blogue, quando este tinha actividade regular, pois, nas suas crónicas, citou-me algumas vezes. Eu, tal como uma amiga o referiu hoje, provavelmente como muitos mais, habituei-me a não me deitar sem antes espreitar a página on-line do JN para ver se já tinha saído a crónica do MAP desse dia. E muitas vezes, para simplificar o meu trabalho, transcrevia-lhe as crónicas no meu blogue pois ele tinha escrito exactamente o que pensava do assunto do momento, mas de uma forma mais clara, concisa e com uma espantosa e refinada ironia céptica, arte em que só chego à ambição da inveja. Sinto-me, hoje, pois, como se tivesse perdido um braço nas batalhas da vida e das palavras. E só desculpo o Manuel António Pina por ter partido sem autorização deste seu compadre, cúmplice e desconhecido, porque, bem entendido, o braço que hoje perdi é de um poeta que não sou.
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