Sábado, 21 de Maio de 2011

Uma "Aurora" crepuscular e a gratificação da descoberta do cinema romeno actual

Um filme de três horas (na sala de cinema em que o vi - Medeia King de Lisboa - não se usa o intervalo), sobretudo centrado num rosto masculino, escrito, realizado e interpretado pela mesma pessoa (o romeno Cristi Puiu), acerca da anatomia de uma desesperança, como é o caso de “Aurora”, não é recomendável a pessoas cinematograficamente frágeis. Mas para quem gosta de cinema, este “Aurora” em final de exibição será um daqueles filmes para não mais esquecer. É um filme existencial sob a marca do tédio, da solidão e da incomunicabilidade numa cidade sepultada nos seus cacos sociais e humanos (a Bucareste dos nossos dias e que competirá com Sofia a disputa do título de capital europeia mais feia e inóspita), uma marca obsessiva centrada numa personagem profundamente ferida na sua personalidade e que se pega aos espectadores e os obriga a uma partilha de intimidade que incomoda. Mas “Aurora” é também um grande filme sobre o pós-comunismo europeu, sobre a forma emaranhada como nos países saídos das antigas ditaduras vermelhas as pessoas são obrigadas a viverem o caos de um crepúsculo social, incomodativo em termos (in)estéticos e da persistência da penúria, cujas marcas profundas e radicais penetraram nas paredes, nas ruas, nas almas, sendo uma amálgama deprimente aquele encavalitar de consumismo em cima das marcas do igualitarismo da penúria como direito social único aos excluídos da nomenklatura. Cristi Puiu fez um longo filme sobretudo centrado no seu rosto, particularmente rondando o seu olhar mas que suscita (no espectador humano, claro) a vontade de lhe dar o braço, dar-lhe força, travar-lhe o desespero, propor-lhe (para o salvar e salvar as suas vítimas potenciais) que ame a sua cidade, apesar de suja, feia, reconstruída contra as pessoas. É uma cumplicidade custosa, porque difícil e dorida, só possível porque Cristi Puiu maneja a câmara que lhe aponta ao rosto com a perícia dos mestres. Mas Cristi Puiu, com “Aurora”, compensa os resistentes, aqueles que suportam o seu filme até ao fim, pelo menos de duas formas: - oferecendo um final magistral e inesquecível (a espantosa sequência da "confissão" na esquadra da polícia) que aposto em como ficará na história do cinema; - mostrando as heranças perenes dos regimes que foram impostos a alguns povos sob pretexto de os tornar felizes e que, depois, se vingaram dos seus falhanços clamorosos através do recurso ao sadismo ideológico com que esmagaram aqueles que antes se quiseram fazer felizes à força.
Publicado por João Tunes às 22:36
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