Sexta-feira, 25 de Fevereiro de 2011

Sobre os amigos de Kadafi (Otelo, Amado, etc)

Há ano e meio, coloquei este post. Então, chamar ditador pimba a Kadafi passava, evidentemente, por uma irrisória manifestação de mau feitio. E politicamente incorrecto, é claro. Mas infelizmente (pelas vítimas da repressão líbia) tinha razão. Agora, até os embaixadores escolhidos por Kadafi lhe chamam fascista.

2) Mas já antes, em 25 de Julho de 2008, cordialmente polemizava com bloggers socialistas defensores (pois claro...) da "diplomacia económica" de Sócrates/Amado:

O José Albergaria, neste post, insurge-se contra alguma indignação suscitada pela forma como a diplomacia portuguesa entrou em rota de intimidade de relacionamento com pessoas pouco respeitáveis (Dos Santos, Kadafi e Chavez) num desfile de tournée diplomática. Ele riposta, argumentando com os interesses de Estado e com a urgência dos bons negócios, cada vez mais necessários para salvar a nossa economia do poço depressivo. E aqui tem toda a razão. Há interesses de Estado e relações entre Estados que não devem pautar-se por convergências políticas e ideológicas. Que a diplomacia deve ser pragmática, soft e … diplomática, nisso estamos 100% de acordo. Idem que, por educação, quando se recebe ou se visita alguém, não se lhes puxam as orelhas. Como devíamos concordar em que a diplomacia é mais que economia e, para um democrata, é sempre a política, ou os princípios democráticos, que devem estar primeiro que a economia (e a um democrata socialista, essa exigência é basilar). Sobretudo, não darmos de barato que um democrata, mesmo ou sobretudo quando faz negócios, deixe de o ser para vestir a pele do gestor concentrado nos resultados e alheio ao preço dos salamaleques de conveniência como preço do regateio e dos jogos das vantagens recíprocas.

Não li que alguém conteste que se façam bons negócios com Angola, a Líbia, a Venezuela ou outros países com regimes que o céu, o purgatório ou o inferno carreguem. Pela nossa dependência energética, não há sultão, soba, ditador, semi-democrata, caudilho ou aparentado que, tendo petróleo, não devamos saber dar-nos com eles e daí obtermos, nas melhores condições possíveis, aquilo que nos faz funcionar e mover. E se, por troca, escoarmos uns pacotes de leite, uns fardos de cimento ou uns circuitos integrados, melhor vai a festa. Mas essa é a parte que compete à diplomacia económica, sub-sector não director de uma saudável diplomacia. Porque se as ditaduras não têm outras pautas que as do poder e dos interesses, uma democracia tem princípios e deles não deve abdicar, muito menos perante quem não cumpre os seus limites mínimos, nomeadamente quanto a direitos humanos, livre escolha dos seus representantes e alternância no exercício do poder. E aí, o regime português tem mais dissemelhanças que afinidades com os regimes de Angola, Líbia e Venezuela. Se, nas relações entre Estados, o português não deve imiscuir-se nos assuntos internos de outros nem permitir que outros o façam, em cada contacto e aperto de mão, deve ficar claro para o mundo e os povos que ao se conciliarem interesses não se está a conciliar visões opostas ou divergentes sobre os direitos políticos e humanos. Com diplomacia mas com diplomacia firme (vejam-se o "mestre" Zapatero e a "mestra" Merkel, insuspeitos de desvalorizarem os seus interesses de Estado, incluindo os económicos).

Quando o José Albergaria diz “Nunca se colocaram questões ideológicas. Nas declarações conjuntas nunca, da parte portuguesa se verificou a mínima das manifestações de apoio aos "regimes" que cada uma destes senhores representa: Chavez, Eduardo dos Santos e Kadhafi.” não está a contar o filme exibido e que todo o mundo viu. Em Angola, Sócrates fez um elogio rasgado à política de Dos Santos e ao MPLA, com Chavez, permitiu que o venezuelano se permitisse intimidade viscosa de amigos políticos e autorizou que Kadafi o apertasse contra o peito numa representação de intimidade politicamente obscena. E Sócrates não disse uma palavrinha (de Luís Amado nada a esperar nesse sentido, pois nunca tivemos um chefe de diplomacia tão dogmatizado no “nim”, cada vez mais lembrando o cinzentismo burocrático do velho e ido Gromiko) a reafirmar os princípios da democracia, das liberdades e dos direitos humanos. Tudo foi, princípios democráticos incluídos, o que o governo português embrulhou na tecnocracia dos negócios. E é isto, não outra coisa, o que está mal. A merecer um saudável protesto, não para fazer uma manifestação a exigir a demissão do governo mas para que não se repita (e em nosso nome).


3) Sobre a Líbia (que visitei três vezes na década de 80, percorrendo o país, no quadro das relações sindicais internacionais como representante da CGTP), deixei aqui (em post de 2004), sucintamente, as minhas impressões.

 

(publicado também aqui)

Publicado por João Tunes às 22:07
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