Segunda-feira, 22 de Janeiro de 2007

CARTA AO COMITÉ CENTRAL

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"Camaradas do C.[omité] C.[entral]

No dia 5 de Novembro de 1968, pela tarde, alguns camaradas residentes em Praga foram convocados para uma reunião com o Secretário-Geral. Nela se discutiram algumas questões (algumas por imposição dos convocados) relativas à ocupação da Checoslováquia; suas repercussões na Direcção e no corpo do P.[artido] C.[omunista] Português; assim como suas consequências em organismos de unidade.
Acerca da conversa dessa noite - realizada numa sala da Cruz Vermelha à Rua Zitna - entre as 20 e 15 e as 23 e 30, registem-se algumas observações e conclusões:

1º Para os documentos em que o Partido Comunista Português define a sua posição acerca dos acontecimentos que começaram a processar-se na Checoslováquia em 20 de Agosto passado, foram procuradas bases e informações apenas do lado do agressor. Ora isto tem um nome: parcialidade, desonestidade;

2º As "provas" em que procuraram fundamentar-se os "crimes anti-socialistas" do Povo, do Governo, do Partido Checoslovaco, não oferecem o mínimo valor - como se tem provado pelas contra-provas já difundidas na Rádio, Televisão, Imprensa checoslovacas;

3º A atitude do Secretário Geral para com os camaradas por ele convidados, foi a do maior desrespeito - pois em altos gritos (que ecoavam pelo edifício, pois a porta da sala foi por ele aberta) de ditador alucinado, chegou ao ponto de pôr fora da sala um deles;

4º Essa atitude não revelou a mínima consideração e estima da verdade e dos estudos - pois que a argumentos e documentos irrefutáveis, respondia apenas com cara de troça, com sorrizinhos escarninhos, com argumentos os mais falaciosos e sofísticos, com perguntas e palavras de provocação as mais exemplarmente pidescas;

5º O teor da Declaração da Direcção do Partido, a sua falta de bases concretas e racionais (o Secretário Geral chegou a afirmar que não havia condições de impressão para a apresentação das provas!) mostram claramente que a Direcção e particularmente o redactor dos documentos, não se fizeram e fazem cercar de informadores e estudiosos com um mínimo de capacidade intelectual e moral - mostram claramente que tudo dependeu e depende do arbítrio de indivíduos sem limites de poder e sem controlo;

6º Que tais declarações, comprometendo todo o Partido, lançam nódoas não apenas em seu autor e na Direcção do Partido, mas no conjunto dos militantes - que por vezes têm "corado de vergonha";

7º Que o documento do Executivo datado de 23, não podia ter sido elaborado em Portugal (como informou o Secretário Geral) - a não ser que já estivesse preparado antes, o que não deixa de ser gravíssimo.

Conclui-se, portanto, que a actividade de agente de propaganda pro-socialismo autoritário a que o Sec.[retário] Geral do Partido se tem consagrado ultimamente, é criminosa politicamente e indigna de um homem sério; o seu papel de advogado internacional da conquista militar, da ocupação militar, política e económica; de justificação da sujeição de todo um povo, governo, partido, à tirania mais abjecta (aquela que se chama socialista, fraterna e amiga) -, é incompatível com o cargo que desempenha dentro do P.[artido] C.[omunista] Português.

Conclui-se que um Dirigente que trata seus camaradas como coisa sem valor, no próprio momento em que estes procuram desfazer um erro; que lhes responde com gritos de possesso, com esgares de farsa de feira, com incontrolada agitação (punha-se em pé, abria a porta, sentava-se, dobrava-se sobre a mesa ...), com palavras e guinchos de fingida dignidade ofendida - conclui-se que tal Dirigente é incapaz de comportar-se, dentro e fora do Partido, com a superioridade necessária.

Tomando em conta os factos decorridos na noite de 5 de Novembro; tomando em conta os processos de elaboração dos documentos da Direcção do Partido; tomando em conta a atitude do crê ou morres que temos presente
Proponho

1º Que se faça um inquérito ao seu procedimento durante a conversa na Cruz Vermelha;

2º Que se convoque para data o mais próxima possível um amplo Congresso de militantes do Partido - em que tomarão parte não apenas os convidados da Direcção, mas todos os que quiserem nele participar, comprometendo-se a Direcção a proporcionar-lhes as necessárias condições;

3º Que até às decisões desse Congresso, Álvaro Cunhal seja suspenso de todas as suas actividades - para que no divisionismo do mundo socialista, na desorientação do Povo e dos militantes portugueses, não tome parte um português com a sua responsabilidade."

Flausino Torres, Carta ao Comité Central do PCP (de acordo com o rascunho existente no seu espólio), s-d [Novembro de 1968]. (*)

 

(*) In “Flausino Torres, documentos e fragmentos biográficos de um intelectual antifascista”, Paulo Torres Bento, Edições Afrontamento

Publicado por João Tunes às 17:07
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2 comentários:
De Paulo Santiago a 23 de Janeiro de 2007
João
Não tem a ver com este post,ou talvez tenha...
Vi um comentário teu num post anterior,indica-me a
editora de "Estaline-na corte do Csar Vermelho"Quero
ver se o encontro numa livraria,aqui em Águeda.
Abraço
De João Tunes a 23 de Janeiro de 2007
Caro Paulo, Num anterior post (http://agualisa6.blogs.sapo.pt/155352.html) está lá a editora e a foto da capa do livro que ajuda a localizá-lo em qualquer livraria. Abraço.

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