Segunda-feira, 22 de Janeiro de 2007

FLAUSINO TORRES, A NÃO ESQUECER

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A figura de Flausino Torres (1906/1974) é uma das mais interessantes entre os “intelectuais orgânicos” do marxismo-leninismo português. Pela obra, pela trajectória e pelos aspectos singulares da sua personalidade e do contexto que influenciou e o condicionou. Pese embora o silêncio que a “opinião da esquerda oficial” lhe continua a fazer pesar sobre a incomodidade da sua recordação (“roma não paga a traidores”), é difícil apagar o rasto de uma figura com a força de Flausino Torres. Para que, em tempo de centenário do seu nascimento, a obra, a figura e o seu exemplo, não sofressem por completo o apagamento desejado dos timoneiros do PCP, esses guardiães anti-história de mitos e lendas que tentam dar daquele partido a imagem monocórdica e linear de um monólito esculpido por Cunhal, tentando limpar da memória tudo o que sejam tropeços, diferenças e conflitos, zelosos a guardar segredos e relapsos a revelar factos, contribuiu decisivamente a descoberta por familiares do arquivo pessoal deste intelectual e o trabalho cuidado e apurado de um seu neto (Paulo Torres Bento) que, sendo ele também historiador, permitiu que fosse dada luz a uma obra biográfica (*) com um rigor e transparência que ilumina a personagem com a clareza da sua importância histórica.

 

Entre a década de 30 a 60 do século passado, Flausino Torres esteve não só presente nas grandes lutas contra o fascismo, militando no PCP e nas organizações frentistas, como produziu uma obra vastíssima de divulgação do pensamento e da história, correspondendo aos desígnios programados dos intelectuais comunistas de “levarem o saber ao povo” e lançarem o suporte de uma cultura marxista. Se da leitura, hoje, dos livros e outros escritos de Flausino Torres, ressalta a pecha dogmática e maniqueísta da escola ideológica usada no seu tempo, o seu papel na aproximação à cultura erudita por muitos autodidactas, em que era proibitivo o acesso à Universidade, tem a maior relevância, sobretudo se tivermos em conta as inúmeras obras publicadas nas “Edições Cosmos”.

 

Uma característica distintiva de Flausino Torres entre a maioria dos “intelectuais orgânicos”, seus camaradas e contemporâneos, foi o facto de não só não ter ensinado na Universidade nem no ensino secundário oficial, remetendo-se ao papel de intelectual provinciano (passou a maior parte do seu tempo em Tondela, de onde era natural), fazendo política na Beira e ensinando em colégios particulares de província (enquanto lho permitiram). Esta vivência provinciana, a que juntava a experiência de pequeno agricultor, impediu Flausino Torres de desaprender a realidade do povo, os seus dramas de sobrevivência e atavismo, recusando-se sempre a voar nas ondas voluntaristas de imaginar o povo num cenário de sedentos de revolução à espera da vanguarda guia. Sobretudo isto, mais uma total inteireza de honestidade, indisponível portanto para as vacalhices dos pequenos e grandes jogos partidários, em que avulta a troca da verdade pelo dogma da disciplina, transformaram Flausino Torres num excêntrico entre muitos dos seus iguais.

 

Obrigado ao exílio para não ser preso (de novo, pois já antes passara uma temporada no Aljube), impedido de ensinar, percorreu os caminhos da Argélia, da Roménia e da Checoslováquia. Professor na Universidade Carlos de Praga, viveu entusiasmado a “primavera de Praga”. No absurdo dos tanques do Pacto de Varsóvia a ocuparem Praga, dirigiu a reacção dos comunistas portugueses exilados na Checoslováquia, condenando a invasão brutal e apoiando a resistência das autoridades legítimas. Quando o PCP, pela decisão de Cunhal, se colocou ao lado do invasor, sendo um dos primeiros PC’s no mundo a fazê-lo, Flausino Torres e os seus camaradas enfrentaram a direcção e exigiram explicações. Elas vieram da parte do próprio Cunhal e sob a forma de imposição, insultos para com os recalcitrantes e expulsões da sala para os mais veementes. O “centralismo democrático” do PCP mostrou-se no seu cerne, o da gestão da obediência cega, em que a Moscovo não se desobedecia e muito menos se discordava. Flausino Torres não hesitou em enfrentar Cunhal, escrevendo ao Comité Central a propor um Congresso extraordinário e a imediata suspensão do Secretário Geral (carta a transcrever no próximo post). Claro que Cunhal não caiu e Flausino Torres foi expulso do PCP. A partir deste momento, dá-se a fase mais dolorosa da sua vida pessoal e cívica – doente, retirada a cátedra da Universidade de Praga, ilegal e clandestino, vivendo num país com um governo imposto pelo invasor que havia condenado, sem passaporte para regressar a Portugal, onde a PIDE o continuava a catalogar como comunista. Quando conseguiu regressar a Tondela pouco mais lhe restou fazer que gerir o ostracismo e a doença, pouco tendo sobrevivido à revolução de 25 de Abril.  

 

(*) – “Flausino Torres, documentos e fragmentos biográficos de um intelectual antifascista”, Paulo Torres Bento, Edições Afrontamento

Publicado por João Tunes às 17:05
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