Quinta-feira, 23 de Dezembro de 2010

Olhando um dos lados da guerra civil de Espanha

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A guerra civil de Espanha (1936-39) foi o conflito internacionalizado que mais incendiou as paixões ideológicas em todo o mundo. Para isso, contribuiu decisivamente o facto de, nesta guerra, a propaganda ter desempenhado uma importância idêntica à da metralha. O Komintern, acabada de inaugurar a fase frentista antifascista e sob a ameaça do nazismo alçado ao poder, superada a fase sectária do “social-fascismo”, vivia uma fase de pujança e tinha refinado o papel da agitação e propaganda como factor de mobilização de quadros e simpatizantes. O fascismo mostrava na Europa uma capacidade notável de expansão e o anticomunismo das burguesias (mesmo as instaladas em regimes capitalistas democráticos), assustadas com o Komintern, empurrava estas para o compromisso preferencial com os regimes de força reaccionários, incluindo os fascistas ou fascizados. Esta divisão dicotómica, polarizada por formidáveis máquinas profissionais de propaganda, provocou um dos grandes factores trágicos da guerra civil espanhola: - o bando combatente do lado da legitimidade democrática (numa ampla frente que incluía republicanos burgueses, nacionalistas bascos e catalães, socialistas, comunistas e anarquistas) viu-se, com as excepções honrosas do governo mexicano e nos primeiros meses da contenda pelo governo francês, apoiado exclusivamente pela União Soviética, a que acrescia o aspecto caricato de, no início da guerra, o PCE ser um partido de expressão muito reduzida e não participante no governo republicano. Enquanto os golpistas, mais tarde aglutinados à volta de Franco, contaram com o apoio substancial e decidido das potências fascistas (Alemanha, Itália e Portugal) e a condescendência das democracias (que, nitidamente, preferiam uma vitória de Franco a uma vitória da república espanhola tutelada militarmente pela URSS). Como consequência, enquanto se combatia nas cidades e nos campos, rios e serras de Espanha, morrendo-se e matando-se, o mundo inteiro foi agitado e motivado por uma formidável disputa propagandística e ideológica, com separação contrastante entre “bons” e “maus”. O antifascismo só repetiria esta orgia propagandística e de recrutamento no final da segunda guerra mundial – a partir de 1943 - com a ofensiva de Exército Vermelho em Estalinegrado e após este ponto de reviravolta na balança bélica e quando seria reeditada a vaga de propaganda antifascista dirigida pelo movimento comunista internacional activada entre 1936 e 1939 à volta de Espanha (como se a "amizade germano-soviética" não tivesse existido e imperado entre 1939 e 1941 e, nos anos 30, Estaline não tivesse assassinado e prendido muitos mais comunistas que Hitler e todos os seus comparsas fascistas). O que não evitou que Espanha tivesse de esperar por 1975 para, pela morte de Franco na cama, retornar à democracia.

A intervenção da URSS e do Komintern em Espanha, abstraindo-se os aspectos épicos e românticos da mobilização antifascista, foi importante (pese embora ter sido limitada face às necessidades, insuficiente para contrabalançar os contributos bélicos de alemães e italianos e ter sido paga até à última peseta em ouro espanhol) e um acumular de absurdos. Importante porque a URSS foi o único fornecedor de material de guerra e especialistas militares ao lado republicano (para além do apoio modesto e longínquo do México) e, através do Komintern, o mobilizador dos brigadistas recrutados pelos comunistas de todos os países e o motor da agitação das opiniões públicas a favor da república espanhola mas como forma disfarçada de alargar a influência comunista (inclusivamente, funcionou também para suportar o enorme aparelho soviético de espionagem, sobretudo em Inglaterra e nos Estados Unidos). Sem este apoio, a República teria caído logo em 1936. Mas todo o apoio de Estaline a Espanha foi também (inevitavelmente?) uma demonstração dos absurdos perversos do regime paranóico comunista então sediado em Moscovo: - enquanto a democracia e o comunismo se batiam em Espanha contra o fascismo, Estaline decapitava o partido comunista soviético dos seus dirigentes leninistas e assassinava em massa dezenas de milhar de comunistas da base até ao topo; - Estaline transportou para a arena espanhola a sua paranóia securitária, dirigindo-a para a perseguição de anarquistas e trotsquistas espanhóis pela NKVD; - terminada a guerra civil em Espanha, com a derrota de Abril de 1939, Estaline fê-la seguir, ainda no mesmo ano da derrota, da assinatura do pacto germano-soviético (!) e da colaboração com a Alemanha na invasão repartida da Polónia, juntando-se aos nazis nos actos inaugurais da segunda guerra mundial; - enquanto se aliava aos nazis e com eles repartia a Polónia, Estaline ordenou a liquidação da maioria dos soviéticos que haviam estado em Espanha (diplomatas, propagandistas, generais, agentes de segurança) contra o nazi-fascismo, bem como dos comunistas de outras nacionalidades que se haviam refugiado na URSS (casos houve de comunistas alemães que transitaram do Gulag para campos de concentração nazi, por colaboração entre a NKVD e a Gestapo); - sempre utilitário, Estaline recrutou em Espanha o agente (o catalão Ramón Mercador) que iria, a seu mando, assassinar Trotski no México. E apesar do profundo envolvimento da URSS, do Komintern e de Estaline em pessoa nos mais variados aspectos da guerra e da governação republicana, quer nos seus aspectos mais heróicos como nos mais sujos e criminosos, o que lhes granjeou uma extraordinária influência, além do crescimento significativo da expressão do PCE, a "linha política" foi sempre de contenção na estratégia de conquista de poder por parte do comunismo espanhol, preferindo-se a condução profissional e disciplinada dos assuntos de guerra e a aliança frentista que suportava o poder republicano, combatendo o radicalismo impaciente, exigindo transformações sociais profundas e aceleração político-revolucionária, sobretudo impulsionado pelos anarquistas. Uma "linha" que Estaline corrigiria com afinco, quanto à "moderação espanhola", quando se repetissem as circunstâncias nos países europeus satelitizados pelo Exército Vermelho no final de segunda guerra mundial.

Os dramas, as intensidades e os absurdos gerados na e pela guerra civil de Espanha, deixaram um legado de continuidade do debate apaixonado sobre as partes e as causas. Daí que este conflito tenha gerado uma imensa bibliografia e provocado intermináveis debates e tomadas de posição. Que está muito longe de chegar ao seu termo. Pela riqueza dos factos e pela multiplicidade das paixões mas, também e sobretudo, pela quantidade impressionante de mitos difundidos para alimento das propagandas das partes e depois como consequência destas. Entretanto, com o assentar da poeira e o ganho da distância, bem como os factos estabilizadores trazidos pela renormalização democrática em Espanha, os historiadores continuam a ter enormes desafios pela frente: contarem a guerra baseando-se nos factos, desmontarem os mitos e a propaganda. Sabendo que aqueles e esta estão enterrados no chão de convicções conflituantes que atravessam várias gerações (e que sobrevive nos tempos actuais com a paixão de uma polémica dos tempos actuais). E aqui, naturalmente, ganha relevo o acesso a novas fontes ou fontes anteriormente interditas á consulta e à investigação. O historiador Stanley G. Payne (um reputado especialista em temas sobre Espanha), tendo tido acesso a arquivos soviéticos, tentou uma clarificação sobre a intervenção da URSS e dos comunistas (espanhóis e do Komintern) na guerra civil de Espanha e que, a nosso ver, resultou plenamente por desembocar numa sistematização interessante e que tardava sobre este aspecto fundamental acerca da guerra mais ideológica do século XX. Razão suficiente para recomendar vivamente a leitura da sua edição portuguesa (*).

(*) – “A Guerra Civil de Espanha, a União Soviética e o Comunismo”, Stanley G. Payne, Editora Ulisseia.

(publicado também aqui)

Publicado por João Tunes às 04:30
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