Terça-feira, 16 de Janeiro de 2007

REFALANDO SOBRE RACISMO

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Uma colagem de dois textos editados no Bota Acima, com mais de dois anos e meio de velhice, teve agora honra de transcrição num jornal de Moçambique (“O Autarca”, publicado na Beira, dirigido por Falume Chabane) que o sempre atento e prestável Eugénio Costa Almeida me fez chegar em versão PDF. Toda a honra tenho em que, desta forma, uma parte da opinião moçambicana conheça e discuta posições tomadas nos calores da minha intervenção. Concordando ou discordando, como sempre espero. Tanto mais que de Moçambique me ficou no sangue um amor eterno para com o país e as suas gentes. Incluindo a fascinante cidade da Beira que um meu amigo moçambicano me ajudou a descobrir entre as ruínas dos seus escombros pós-coloniais. Essas ruínas da Beira que me surgiram, há cinco anos atrás, como um fruto amargo da justiça apocalíptica da destruição de um forte sinal do urbanismo feito para a medida paisagista da supremacia colonial portuguesa no Índico. Onde, à beira daquele Oceano quente, terá tido lugar a mais vergonhosa estadia da nossa presença colonial. Porque ali teremos praticado o racismo mais grotesco parido pela imensa inumanidade portuguesa de negreiros contumazes só corrigidos com o pontapé independentista (Machel foi obra portuguesa a que se juntou o grito moçambicano a dizer "basta, agora nós!").

 

Sou um desorganizado irremediável quanto aos meus arquivos, papéis e memórias. Vivo interiormente no mundo do hedonismo neurótico do flash. No caso da escrita, sou do género “escreve e deita fora”. Esta transcrição, pesando-lhe embora o bafio do tempo transcorrido, permitiu-me recuperar a memória de um texto que continuo a assinar sem sentir a vergonha de ter cuspido disparate. Motivo suficiente para que, embora extenso, o reedite aqui mesmo:     

 

Nas sociedades modernas, o racismo é um problema cultural e é, por isso, um problema político, de facto ou potencialmente. Existindo um caldo cultural contaminado pelo racismo, mais tarde ou mais cedo, no momento A ou no momento B, ele será (melhor, poderá ser) aproveitado politicamente. Talvez pela questão da oportunidade no afloramento político de postulados racistas, haja a tendência para o subestimar na sua fase recalcada e, vamos lá, ele ser olhado como culturalmente repugnante mas culturalmente tolerável, na medida em que se julgue que ele está contido dentro de limites admissíveis.

Em Portugal não há, hoje, uma corrente política com qualquer relevo que advogue e explore o racismo e tente mobilizar por esta via.

Mas, culturalmente, os portugueses estão profundamente impregnados do mais profundo racismo. Seremos mesmo, na Europa, um dos povos mais intrinsecamente racistas. E existem razões objectivas para isso. Talvez por isso mesmo, aliado ao défice cultural de que padecemos.

A passagem do racismo cultural ao racismo político depende da sua oportunidade política e da emergência (que se pode dar de um dia para o outro) de uma força política que tenha talento para empunhar essa bandeira com eficácia. Se isso acontecer, quando acontecer, muitas bocas se irão abrir de espanto.

O racismo português é estrutural e insere-se numa lógica objectiva. Qualquer história colonial (e a nossa durou cinco séculos!) não seria possível se não assentasse num racismo como matriz no olhar os Outros. Sem racismo, não teríamos navegado, ocupado, instalado, explorado, perdurado, resistido. Pensar o contrário é especular à volta de uma impossibilidade. Respeitando os africanos como nossos iguais/diferentes, seria impossível manter o império mais antigo e o último império a desaparecer. Sem racismo, a fase esclavagista (que durou, incluindo a sua fase informal e ilegal, até ao princípio do Século XX) nunca poderia ter existido, idem com a ocupação dos espaços e dos mercados, com a distribuição do trabalho, com a exploração das matérias primas, com a textura económica da nação, enfim, nunca poderíamos aguentar guerras duras em três frentes e durante treze anos. Portanto, o racismo secular dos portugueses não existiu por razões culturais ou por opções políticas. Existiu, sim, por necessidades objectivas da construção e permanência de um império colonial.

Com o fim do domínio das colónias, o racismo objectivo passou para a esfera cultural. É um fenómeno recalcado, porque politicamente inconveniente. E esse recalcamento (como quase todos os recalcamentos) não resolve o problema, coloca-o, antes, no sono refrescante do descanso para a retoma com vigor. Por outro lado, a mudança do sentido migratório, em vez do fluxo de Portugal para África, passámos a ter um fluxo em sentido contrário. Ou seja, o nosso relacionamento com os africanos, antes processado em África (terreno deles), passou a dar-se no nosso terreno onde a nossa soberania não é questionável. E sabe-se, do futebol, o que significa jogar em casa. Veremos o que vai acontecer quando, politicamente, houver habilidade de explorar este filão da nossa cultura.

A primeira estratégia da politização da questão do racismo está na recuperação da ideia da justeza da nossa presença em África. E os não distraídos na observação da literatura recentemente editada ao nível “histórico”, decerto já verificaram a enorme variedade e quantidade de livros dedicados a regenerar esta ideia. Sobretudo, nesta primeira fase, pretendendo conferir dignidade, altruísmo, heroísmo até, às gestas dos militares na guerra colonial e à própria guerra em si mesma. E, para isso, é inevitável a atracção para se chegar aqui ter-se, como matriz, os postulados e os preconceitos da doutrina colonial do anterior regime. Mais ainda, pela ideia persistentemente difundida (com resultados notáveis) da ”descolonização criminosa”. Com estes dois pontos assentes, o passado antes da guerra é automaticamente branqueado. E, ao fazê-lo, retomam-se todos os preconceitos raciais, de forma inevitável, da história colonial portuguesa.

 

O preconceito racial exprime-se das mais variadas formas. Umas são claras, agressivas, violentas. Mas muitas delas são difusas, chegando até ao limite da sua expressão negacionista.

Temos assim a repugnância definitiva, assente em dar ao Outro, catalogado pela cor da pele, características inultrapassáveis e socialmente repugnantes que se estimam como próprias e herdadas geneticamente. Foi neste quadro que se começou por se lhes atribuir a qualidade inata de antropófagos e que depois foi evoluindo para os defeitos da preguiça, do roubo, do alcoolismo e da estupidez. O mito da antropofagia africana (já mais que desmontado) foi necessário para justificar as primeiras ocupações e a prática esclavagista. Os defeitos da preguiça e do roubo vieram mais tarde e para justificar a necessidade de medidas extremas para integrá-los nas tarefas de trabalho colonial e para exercer sobre eles uma autoridade policial mais degradada. Num caso e noutro, tratava-se de exercer sobre eles a soberania do ocupante, integrando-o na nova ordem e na divisão das actividades e do trabalho. Os defeitos do alcoolismo e da estupidez, justificavam a sua marginalização social e a inutilidade de lhes proporcionar educação, cultura e civilização. Em qualquer dos casos, inaptos para alcançarem os patamares brancos de autoridade, riqueza e qualidade de vida. Eles teriam, por culpas próprias, de viver num patamar mais baixo.

Transposto para as sociedades europeias com migração significativa, estes preconceitos funcionam como clarins de vigilância e salvaguarda. É assim que se diz (incluindo em notícias da imprensa e em comunicados policiais) que “fulano, de raça negra (ou cigana), assaltou, roubou ou matou”, mas se for um patrício europeu não se indica “fulano, de raça branca, etc”. Se for branco, a transgressão é uma excepção, caso contrário é uma manifestação da “sua raça”, portanto própria.

Estas formas de racismo são as mais detectáveis e menos incorporáveis num discurso oficial de comunicação ideológica. São remetidas para a comunicação informal, aí se alimentam e aí subsistem. Logo, são profundamente ideológicas, embora se inscrevam na verbalização contida. Embora aflore, não poucas vezes, na informação e nas linguagens policial e autárquica.

Depois temos as formas “leves” de racismo que são próprias sobretudo das camadas cultas que não se exprimem através do racismo primário. Uma destas manifestações exprime-se pelos mitos, em que um dos mais fortes é o da “sexualidade africana” – os pretos terão pénis enormes (aproximando-se do animalesco) e elas são altamente sensuais (donde prolongam o estigma da submissão sexual, como objecto de desejo e de prazer). Os homens são ridicularizados pela sua anatomia animalesca, elas são apetecíveis e apetecidas.

Existe também o racismo paternal que penetra essencialmente na esquerda política e ideológica. Os africanos são “mais desculpados” e “mais protegidos” nas suas manifestações e nas suas transgressões. É “bem” gostar de toda a música africana, de toda a beleza africana, de toda a paisagem africana, de toda a sociabilidade africana, de toda a arte e literatura africana, de tudo que é africano. Aqui a esquerda oferece-nos o projecto de expiarmos, perante os negros, o acumular dos males que lhes foram causados pelos “brancos maus”. Mas, passando embora de antropófagos, preguiçosos, bêbados e ladrões para adereços de estimação, o racismo fica, só que passou para a fase da simetria de compensação.

(Lembro-me de, aqui há uns anos, ter ido ao Jardim da Gulbenkian assistir a um concerto de uma banda guineense. Tocavam mal todos, até pessimamente. Cantavam ainda pior. Mas a assistência não arredava pé, batia palmas e abanava rabos a tentar acompanhar o compasso. Coitados, tinham vindo da Guiné-Bissau. Esforçam-se, era a desculpa que se percebia na assistência resistente. Às tantas, uma voz feminina soou mais alto e disse “porra, vamos embora, que estes gajos tocam mal” e deu-se a debandada parcial. Ao estar-se a dispensar os guineenses da obrigação da qualidade, o que se estava a praticar não era mais que um racismo paternal, logo de superioridade.)

Com tantos séculos de África no corpo que transportamos connosco (mesmo os que lá nunca puseram os pés), não é fácil não se ser racista. Porque sempre foi um dos problemas mais complicados na civilidade dos povos, saber lidar com a diferença. A nossa identidade e sentido de sobrevivência convenceu-nos (com razões poderosas) que o perigo vinha dos diferentes, mesmo que a estima pelos semelhantes não seja muito elevada.

Publicado por João Tunes às 22:48
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