Quarta-feira, 26 de Maio de 2010

Das brumas

 

Em véspera do dia de apresentação pública do livro de Carlos Brito sobre ele e Cunhal (ver aqui), além de dizer que tentarei lá estar para cumprimentar o autor pelo seu corajoso e limpo testemunho, gostaria de assinalar que também me acompanhará a emoção da surpresa perante este livro necessário assinado por quem, durante muitos anos, foi alto dirigente de um partido em que militei e por quem, pela distância entre um militante de base e um dos do “politburo”, no quadro do centralismo democrático, mais a diversidade das frentes de tarefas muito diferentes que não proporcionavam encontros, não guardo marcas especiais de saudade por admiração ou simpatia. Para o que terá contribuído o facto de nunca ter considerado Carlos Brito um bom comunicador oral, antes pelo contrário.

 

Só estive com Carlos Brito uma vez e num episódio que, curiosamente, me levou a também estar com Cunhal. Estava em marcha a campanha para as primeiras eleições depois do 25 de Abril de 1974 e a novidade do direito à escolha não só nos apaixonava como levava ao delírio idílico que projectava linearmente as temperaturas do PREC para a certeza antecipada de que os votos nas urnas seriam expressão em linha recta das massificações dos plenários e das manifestações. E o rescaldo prafrentex do 11 de Março ajudava mais à exaltação que à análise fria das realidades. A minha empresa que tinha sido nacionalizada e fundida com mais três, constituía não só um dos maiores conglomerados industriais como se inseria num sector estratégico e era um dos corações da economia portuguesa. Escolhido pelos trabalhadores (por voto secreto), integrei a comissão que o governo provisório de então criou para construir a nova empresa pública (que, depois de parcialmente privatizada, ainda hoje é uma das maiores empresas portuguesas). Foi uma “tarefa revolucionária” que desempenhei entre outras mais. Quando veio a primeira campanha eleitoral, a vontade revolucionária dominante era traduzir o nosso envolvimento voluntarista no PREC em votos comunistas, os melhores, os mais úteis, os mais convenientes, os mais revolucionários. Na refinaria enfiada na zona oriental de Lisboa, de que hoje só resta a relíquia de uma torre refinadora a servir de enfeite ao bairro da Expo, fervia a disputa política naquela concentração de muitas centenas de operários e outros assalariados. O meio não era politicamente fácil, apesar das marcas sociais. A empresa tinha marcas salazaristas fortes, durante o fascismo fora guardada por legionários (com guaritas destes em vigilância permanente), o recrutamento era feito muito selectivamente e orientado para transformar em operários camponeses de baixa escolaridade e recomendados pelas “autoridades locais”.  O nível de qualificação profissional era baixo, o nível cultural ainda menor, a consciência política pouco ia além do salamaleque ao chefe e ao engenheiro. Naturalmente que a revolução abalou a concentração operária de forma muito desigual, havendo ali sementes para muitas e diferentes colheitas. Era a pressão revolucionário, sobretudo depois do 11 de Março, que permitia integrar a empresa na “onda” do PREC.  Quando vem a campanha eleitoral de 1975, todos os partidos ali apostaram forte na influência do voto. Por decisão da comissão de trabalhadores local, na grande cantina da refinaria, permitiram-se “sessões de esclarecimento” a todos os partidos. E a maioria não se fez de modas: o PS mandou Mário Soares, o PSD destacou Sá Carneiro. Quando calhou a vez ao PCP, numa sessão em que me coube integrar a “mesa”, calhou-nos Carlos Brito como orador enviado pelo “politburo”. Perante mais de um milhar de trabalhadores, atentos mas distantes, por desfasamento com aquele público e por características do seu fraco poder oratório adequado à ocasião, Carlos Brito não conseguiu subir a temperatura e provavelmente deu ali um contributo para o que depois seria a decepção perante os resultados eleitorais. Racional, introvertido, distante, fraco orador, sem encontrar as imagens ilustrativas da mensagem adequada ao auditório, Carlos Brito decepcionou. Nessa mesma noite, após a sessão, carpimos colectivamente aquela desfeita na concorrência com os “partidos burgueses” que tinham mandado, com sucesso, as suas figuras de proa maior para “cavarem no nosso terreno” (e em muito poucas outras concentrações operárias, Soares e Carneiro tinham tido sucesso idêntico). O secretariado da célula entrou em “rebelião”, impôs a presença imediata da funcionária controleira da zona, exigindo uma também imediata audiência com Cunhal (era a época do ). Depois de amainar o pânico, a funcionária fez os seus contactos, foi-nos transmitindo as dificuldades de acesso ao deus dos deuses, no que teria de percorrer um extenso caminho hierárquico, até que perante a nossa determinação de “não arredarmos pé” até que o secretário geral nos recebesse, arranjou-se uma audiência com Cunhal para o dia seguinte. Perante ele, lavrámos o nosso desconsolo e exigimos a desforra reparadora: nova sessão do PCP com Cunhal em pessoa a dirigi-la. Ele, sedutor e seduzido, concordou e forneceu as suas datas disponíveis. Quando fomos marcar a nova sessão, a que nos ia redimir do fracasso oratório de Carlos Brito, cruzou-se a informação de que a direcção da refinaria, por instruções da administração, invocando medidas de segurança industrial, tinha decidido que não mais sessões de esclarecimento partidário ocorressem dentro das instalações industriais. E, dessa vez, talvez das muito poucas em que tal ocorreu, Cunhal não "derrotou" Carlos Brito. 

Publicado por João Tunes às 17:48
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