Sexta-feira, 14 de Maio de 2010

A vida habitua-nos sem nos habituar a estas notícias, sobretudo quando a velhice nos disputa o viço não perdendo oportunidade de nos corroer as bengalas com que nos apoiamos mais no chão falso da memória que na esperança do projectar, fazer e transformar. A razia de companhias, afectos e admirações já me tocou funda na família (com os adeus dolorosos dos meus pais e de dois irmãos), no meu escritor de culto (José Cardoso Pires), no meu cantor de toda a vida (José Afonso), no amigo que continua na palma da minha mão (o Zé), no único militar profissional de quem fui amigo e tombou em combate de uma forma vil (o major Passos Ramos), no líder político que mais admirei e mais detestei, no meu contraditor político mais estimado e com quem trocava vivas picardias blogosféricas sem o saber ferido por doença implacável (o Jorge Ferreira). Sei que esta lista, nas suas várias qualidades, vai aumentar nos dias que me restarem. Até que uns poucos me digam adeus em saudade rápida porque mais não mereço e assim ficarei aliviado de chorar mais perdas de companhias e referências.
Foi-se o Saldanha Sanches. Não tenho competência para avaliar a dimensão da perda do professor e do fiscalista. E há muito que, politicamente, ele não me impressionava. Respeitava-lhe e admirava a sua frontalidade truculenta e era tudo, o que, nos tempos que correm e segundo as minhas medidas, não era pouco. Mas a perda de Saldanha Sanches acrescenta um novo capítulo no meu índice de baixas. Curtido nas perdas de familiares, amigos, pessoas de culto, faltava-me o género desta perda, o de um companheiro de cela em Caxias. Numa vaga repressiva sobre a contestação estudantil em 1965, um leque seleccionado pela PIDE entre os estudantes contestatários foi encaminhado para a Prisão de Caxias. Eu e a maior parte éramos novatos mas, na minha cela, Saldanha Sanches auto-emergiu como o mais experimentado (já tinha sido preso e baleado) e assumiu-se logo ali como responsável pela cela prisional, distribuindo tarefas e organizando uma lista de reivindicações. Foi breve essa passagem pelos calabouços da PIDE, tanto que nem consta do largo currículo prisional de Saldanha Sanches. Enquanto Saldanha Sanches me “chefiava” em Caxias pela minha insignificância de “preso político de base”, cá fora, no desassossego das famílias dos encarcerados pela PIDE amontoadas às portas da António Maria Cardoso, Esmeralda, a minha irmã mais velha e minha mãe substituta, uma camponesa urbanizada que sempre me reprovava “meter-me em política”, acartando um farnel, impetuava desabridamente, com o seu espírito transmontano, contra os pides de serviço, exigindo a devolução imediata do seu “maninho” e garantindo-lhes que dali não saía enquanto a devolução exigida não se concretizasse. Foram os pais de Saldanha Sanches, já batidos nas anteriores reclusões do filho, usando a sabedoria da experiência, que acalmaram e enquadraram a impaciência dorida da minha irmã. E até eu ver a luz do sol na saída da António Maria Cardoso, os pais de Saldanha Sanches não faltaram um momento no acompanhamento da minha irmã que sofria aquela prisão com a surpresa revoltada de quem nada entendia da necessidade e utilidade de haver quem combatesse a ditadura que ela entendia como uma fatalidade eterna, quase um sortilégio da natureza. Ou seja, enquanto eu em Caxias me subordinava ao “posto por experiência” de Saldanha Sanches, o mesmo género de hierarquia estabelecia-se, cá fora e na cadeia das dores afectivas, entre os nossos familiares. São coisas que a amnésia não corrói.
Até sempre, Saldanha Sanches.
(também publicado aqui)
De fernando costa a 15 de Maio de 2010
Embora não tivesse privado com o Prof.Saldanha Sanches,e não convergirmos políticamente,sinto por esse Homem uma admiração profunda. Saldanha Sanches nunca foi utilizado pelos diversos poderes políticos que nos têm desgovernado. A sua franqueza e o seu saber da réspublica, preocupava a incompetência instalada no aparelho de estado.
A sua coragem ficará na memória dos homens que sempre disseram NÃO ao fáscismo. Até logo Dr. SALDANHA. Os meus sinceros pesames a toda a família
Fernando Costa
De Anónimo a 15 de Maio de 2010
Sou um cidadão comum e vulgar mas um coleccionador de referências que informam e enformam a minha vida. Essas pessoas não morrem mas saem do convívio do cidadão. E fazem falta. Deixam saudades.Nunca o vi pessoalmente, mas ouvia-o atentamente na comunicação social. Neste país triste e tão mal tratado, era como uma injecção de fortalecimento para a nossa esperança de virmos a ser um país...Era incisivo, acutilante, mas sereno, lúcido e sério. Estou a citar lugares comuns mas fica ao menos este meu exercício de humildade e admiração perante uma figura que, como algumas outras, poucas, fica para a posteridade, e comigo enquanto aqui andar, como reserva moral, como "vitamina" mental e intelectual, porque são estas figuras/fortalezas que suportam este "edifício" e nos dão esperança...
Paz à sua alma.
Paz para o espírito da Drª Maria José.
Preito de homenagem dum cidadão. (Gabriel Fernandes)
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Inesperada e triste notícia. Cruzando-me frequentemente com o Sr.Prof.Dr.Saldanha Sanches no cruzamento da Av. Roma p/ a Sua casa, ainda há poucos dias senti o "olá" de circunstância mas sempre atento e caloroso a um desconhecido. Agora sós e desprotegidos, fica na Dra.Maria José Morgado a lembrança do simpático Casal, figuras públicas passeando pelo bairro ou procurando o transporte público, com a humildade dos simples. Sempre lembrei mas não quis perguntar/incomodar, deixando para ... amanhã : "porque não juntar personalidades que no mesmo bairro e bem próximo (como Padre Feytor Pinto) colocam a corrupção no centro de todos os problemas, sabendo nós que têm razão". Não perguntei e hoje lamento pois há pontes fundamentais.
De manuela santos a 15 de Maio de 2010
Portugal ficou mais empobrecido com a perda de Saldanha Sanches!!!
comoveu-me o seu depoimento, porque o achei muito humano ,sem mais ou menos uma palavra o essencial. [
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comoveu-me o seu depoimento, porque o achei muito humano ,sem mais ou menos uma palavra o essencial. <BR class=incorrect name="incorrect" <a>tambem</A> tive um irmão preso em Caxias por essa altura, entretanto já falecido, e as minhas visitas eram um pouco como as visitas de sua irmã...tanta coisa em comum.....Um bem haja a Saldanha Sanches, grande fiscalista e homem integro no seu pensamento politico!
Oviamente que o meu nome não é Ligeirinha mas sim
Inês Guimarães.Saiu o comentário cheio de erratas mas disso não tenho a culpa, peço só muita desculpa!
De JOAO GONÇALVES a 15 de Maio de 2010
PORQUE SERÁ QUE SÓ PARTEM OS HOMENS BONS E TÃO ÚTEIS A SOCIEDADE
PORQUE SERÁ
DEUS AS VEZES TÃO INJUSTO MAS COMO HOMEM QUE É TAMBÉM TEM DIREITO A ERRAR
DOUTOR OBRIGADO POR SER MEU AMIGO
OBRIGADO
De ABEL GUIMAS a 15 de Maio de 2010
O >José Luis Saldanha Sanches representa tudo aquilo que fazem com que os homens e as mulheres sejam melhores neste mundo. Homem com coragem não teve receio de dizer AQUILO, que outros CALARAM.....Uma das muitas crónicas que que escreveu no Expresso, foi a de que Portugal neste momento não ter inimigos e ter um grande e exército a gastar recursos para os quais o dito exercito não contribui....O Jose Luis Saldanha Sanches é uma referência nos vários combates que se têm feito dentro da sociedade portuguesa.
Até SEMPRE...............................
De J Figueiredo a 15 de Maio de 2010
Não conheci pessoalmente o Dr. Saldanha Sanches, mas há muito que admiro a coragem do homem e a sua visão do estado económico e social e da cidadania dum povo.
Daqui lhe presto a minha homenagem e apresento condolências aos familiares.
De Jose Antonio Ramos a 15 de Maio de 2010
Homens com este nunca morrem.
A História encarregar-se-á de os lembrar
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