Terça-feira, 4 de Maio de 2010

Uma revolução com diabetes

 

O açúcar, mais que o tabaco, o rum e a salsa, foi um problema e uma esperança dentro da revolução cubana. Mas teimou e teima em ser uma decepção.

 

De início, a quase monocultura da cana do açúcar foi apontada como o grande problema da dependência internacional da economia cubana a superar. Mas o integracionismo na economia socialista (a “real”), na sua forma própria e planificada de fazer a gestão da divisão internacional do trabalho e das vocações produtivas, excedentária em máquinas, ferramentas, armamento e ideologia mas carente de bens de consumo corrente, levou Cuba a incrementar, em vez de abrandar, o cultivo da cana de açúcar. Numa espantosa cambalhota que Nani nunca conseguirá imitar, Fidel apontou o stakanovismo no cultivo e corte da cana do açúcar como o must do activismo comunista na Ilha Farol. Parecia que o problema da exagerada dependência cubana do açúcar, traduzido em desafio leninista, se ia transformar em motor revolucionário. Pelo incremento da produção sacarina cubana, liberta dos constrangimentos da oferta-procura do comércio capitalista mundial, os soviéticos e os povos europeus controlados por estes, passariam a dispor de um bem de consumo básico de que careciam, enquanto a elite revolucionária cubana passava a ter crédito para usar, não em aquisições dos bens correntes que tirassem o povo cubano da penúria, mas em compras de armas e de petróleo. As jornadas voluntárias das ajudas ao corte da cana do açúcar passaram a fazer parte do menu da retribuição do comum cidadão como paga e veneração daquilo que o magnânimo Estado socialista “lhes dava” em saúde, educação, emprego e caderno de racionamento nas compras da comida de sobrevivência. Os próprios dirigentes do comunismo cubano (Fidel à cabeça, mas também Che e Raul, seguidos por todos os outros) faziam gala de culminarem as suas jornadas revolucionárias, vanguardistas e governativas semanais com incursões emulativas pelos campos cubanos a “cortarem cana”. Engrenado naquilo que o Komintern melhor soube e ensinou a fazer, a agitação e a propaganda, o exemplo stakanovista do “corte da cana” em Cuba tornou-se símbolo da emulação comunista e correu mundo, conquistando os corações dos leninistas das sete partidas (onde o comunismo não era poder), apaixonados subitamente por aquela forma religiosa e sacrificial de purgar, castigando o corpo pelo duro trabalho manual, a catarse acumulada das frustrações, mais intelectuais que de classe, acumuladas pelas decepções das suas revoluções locais falhadas. Viajar para Cuba e “cortar cana” transformou-se, então, numa peregrinação comum a muitos micro, pequenos e médios leninistas à procura da pureza e do exemplo cubano que purificasse o leninismo petrificado e senil irradiado por Brejnev e Suslov (nessa época, não muito distante, o PCP organizava excursões a Cuba do tipo: metade “corte da cana”, outra metade a conhecer Havana e curtir as praias das Caraíbas), como que permitindo reencontrar o equilíbrio que desfizesse a contradição da dureza e generosidade da luta dos comunistas na clandestinidade ou na oposição com a camaradagem chocante da ostentação imperial do poder soviético que acreditava mais na capacidade destrutiva de um míssel balístico que na capacidade de luta e de transformação dos herdeiros dos históricos activistas do Komintern.

 

Todo o voluntarismo do comunismo cubano, num desvio antigo e permanente do castrismo e do guevarismo relativamente aos mandamentos teóricos e práticos do comunismo ortodoxo (o do marxismo-leninismo), desandou no enaltecimento místico e inconsequente da ideia revolucionária e na simultânea frustração a lidar com as realidades, matando a economia, as liberdades e não conseguindo dar democracia, comida e emancipação ao seu povo. O mito da cana do açúcar não foi excepção a esta regra. Ainda com o açúcar cubano integrado no comércio “internacionalista” do comunismo orbitado na URSS, o cultivo da cana açucareira foi-se estiolando e degradando (não há povo que consiga ser stakanovista décadas a fio), finou-se o turismo leninista dos revolucionários que de todo o mundo iam temperar em Cuba os calos das suas mãos de revolucionários tão ansiosos quanto adiados. Com a queda do COMECON e do império controlado pelo Kremlin, falhando-lhe esse proteccionismo, a competitividade do açúcar cubano foi colocada à prova. E o desleixo e a burocratização das tarefas produtivas, inerentes à omnipotente estatização da economia e do trabalho, deram a nota implacável do desastre de uma monocultura herdada mas mantida.

 

A importância excessiva do açúcar cubano é agora um problema incontornável e difícil de lidar para uma elite vanguardista escudada numa ditadura de mando bipolar mas consanguíneo, a dos irmãos Castro. Que o diga o temperado revolucionário cubano Luis Manuel Ávila González, o agora destituído Ministro do Açúcar

 

(também publicado aqui 

Publicado por João Tunes às 16:08
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