Segunda-feira, 3 de Maio de 2010

Vale dos Caídos – 1, Garzón – 0 (resultado ao intervalo)

 

Garzón e o “Vale dos Caídos” são as duas faces do mais espantoso paradoxo na forma como a Espanha democrática e a opinião dos homens livres que por todo o mundo não desistem de um mundo mais livre, lidam com o peso da memória do sangue e sofrimento derramados sob a tirania de Franco.

Garzón continua a contas com a “justiça” por ter ousado tentar incriminar os crimes do franquismo, numa acção provocada e requerida pela Falange e outras forças de extrema-direita. Mas a revanche descarregada sobre o juiz que ousou dar voz às famílias dos fuzilados às ordens de Franco e perseguiu judicialmente Pinochet pelos seus crimes, conta, talvez surpreendentemente, com a cumplicidade, pelo silêncio da omissão, da esquerda intelectual e política ligada acriticamente ao leninismo, a qual não perdoa a Garzón que este tenha sido, no passado, também implacável na responsabilização judicial dos pistoleiros e bombistas da ETA (no naipe dos “bons terroristas” para a esquerda mais radical). Restam, no apoio a Garzón, os antifascistas para quem uma ditadura é sempre uma ditadura, uma prisão tem sempre o mesmo custo de um encarcerado, uma tortura tem sempre a resposta do grito de um homem torturado, um crime é sempre um crime e a cor de um crime, seja qual for o criminoso e o mandante ou a ideia servida, é sempre a da cor do sangue da vítima. Não são poucos os que gritam, em Espanha e fora de Espanha, “no pasáran” aos perseguidores fascistóides de Garzón. Mas se não forem suficientes para barrar a querela judicial dos herdeiros de Franco contra Garzón então é porque há uma parte da esquerda que prefere trancar os seus armários a bater-se contra a ignomínia. E poderão, no que não se deseja nem se acredita, cantar juntos, falangistas e leninistas, o “Cara al Sol”. Para o caso, passo-lhes a letra para irem treinando (*).

Entretanto, enquanto Garzón continua a contas com o justicialismo pró-franquista, o “Vale dos Caídos” (em Cuelgamuros, a 40 quilómetros de Madrid e muito perto do Escorial) teve obras de restauro na cúpula sobre o altar da Basílica de Santa Cruz do Vale dos Caídos, altar este ladeado pelos túmulos de Franco e de José António Primo de Rivera (fundador da Falange), uma decoração feita de pequenos pedaços de azulejos coloridos para exaltação da Falange e que fora danificada em 1999 por um engenho explosivo colocado pelos maoístas da “GRAPO”. Este monstro da monumentalidade fascista, mandado erigir por Franco, construído entre 1940 e 1958 por prisioneiros políticos sujeitos a trabalhos forçados, é um símbolo único e especial na exaltação do fascismo clerical, ou seja, da fusão entre o fascismo e a Igreja Católica. Casando a exaltação da religiosidade católica ao nível de um santuário com a exaltação de Franco e da Falange, a tentativa de eternização da obra mais emblemática no culto do franquismo foi assegurada pela sua integração no património físico e religioso da Igreja Católica, tentando-se assim obter um salvo conduto para a sua apreciação histórica e política. Oferecido aos monges beneditinos (que, nas traseiras, construíram um mosteiro), os quais ali se instalaram e ali celebram e gerem a basílica, obtida do Papa João XXIII a dignidade de “basílica”, o monstro de pedra cavado na rocha e dela vomitando loas ao catolicismo e ao fascismo, pelo seu resguardo religioso, usando a Igreja Católica como escudo, o “Vale dos Caídos” continua a não ter uma solução no quadro da limpeza de Espanha dos símbolos de exaltação franquista, a que obriga a “Lei da Memória Histórica” em vigor.

Assim se pode dizer, limpa a cúpula sobre o altar do Vale dos Caídos e entregue Garzón aos inquiridores franquistas, que, para já e neste intervalo, o franquismo clerical ganha ao juiz Garzón por 1-0.


(*)
Cara al sol con la camisa nueva,
que tú bordaste en rojo ayer,
me hallará la muerte si me lleva
y no te vuelvo a ver.
Formaré junto a mis compañeros
que hacen guardia sobre los luceros,
impasible el ademán,
y están presentes en nuestro afán.
Si te dicen que caí,
me fui al puesto que tengo allí.
Volverán banderas victoriosas
al paso alegre de la paz
y traerán prendidas cinco rosas
las flechas de mi haz.
Volverá a reír la primavera,
que por cielo, tierra y mar se espera.
¡Arriba, escuadras, a vencer,
que en España empieza a amanecer!
¡España una!
¡España grande!
¡España libre!

 

(também publicado aqui)

Publicado por João Tunes às 16:36
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1 comentário:
De ANTONIO LUIS SAMEIRO a 4 de Maio de 2010
SE QUER FAZER JUSTIÇA QUE INVESTIGUEM TODOS OS CRMES PRATICADOS POR AMBOS OS BANDOS DURANTE A GUERRA.
ISTO DE VER SÓ UM LADO NÃO É JUSTIÇA ,É AJUSTE DE CONTAS,QUE TARDE OU CEDO SE VIRARÁ CONTRA SEUS AUTORES.
COMO SABE HÁ LITERATURA ABUNDANTE SOBRE O ASSUNTO.
O TAL GARÇON,QUIZ PRENDER O DECRÉPIDO PINOCHET E NO DEMOCRÁTICO CHILE HONECKER PASSEAVA.
DOIS TAMANHOS E DUAS MEDIDAS NÃO DÁ!

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