
A forma seguidista como o Supremo Tribunal de Espanha está a pactuar com os fascistas da Falange, tentando inculpar o juiz Baltasar Garzón por este ter “ousado” considerar os crimes do franquismo e atender às pretensões dos familiares das vítimas em darem sepultura condigna aos fuzilados às ordens de Franco, continua a desencadear ondas de indignação. As Associações para a Recuperação da Memória Histórica entregaram um manifesto de apoio a Garzón que, pela internet, já recolheu 100.000 assinaturas. E, no próximo sábado, em Madrid, os que não faltam na solidariedade a um juiz que se recusou a pactuar com a amnésia perante os crimes do franquismo, vão concentrar-se numa manifestação contra a “impunidade do franquismo”, em que serão oradores o cineasta Pedro Almodóvar, a escritora Almudena Grandes e o poeta, comunista e antigo prisioneiro do franquismo Marcos Ana.
Por aqui, onde a sede da PIDE vira condomínio de luxo e o Forte de Peniche se degrada até se descaracterizar sob a forma mercantilista de uma Pousada, sabemos como a sede de amnésia e apagamento das marcas do fascismo português pula e avança. É a lógica do negócio a querer triunfar sobre a memória. Pese embora a revolta, expressa ou íntima, dos que tendo vivido e sofrido o fascismo sofrem novos golpes, agora pela negação de, para as gerações mais novas, lhes ser garantida a revisitação, mesmo que simbólica, das marcas maiores da ignomínia da ditadura. Não por saudosismo ou nostalgia, mas sobretudo para construírem o futuro sem quebrarem os laços com o passado e valorizarem a democracia que o redimiu, o que comportou vítimas e sofrimentos. Talvez o “exemplo espanhol”, em que cresce o movimento dos que se recusam a esquecer o franquismo e os seus crimes, abane a nossa quietude e indiferença perante os que cimentam negócios, todos bons negócios, montando projectos imobiliários e hoteleiros sobre os últimos escombros dos sítios onde os esbirros da ditadura prendiam, torturavam, assassinavam.
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