Terça-feira, 13 de Abril de 2010

Estagiando para o derby

 

Derby é derby. Não, não disfarço a excitação e o nervosismo e reconheço que os dedos já me tremem sobre o teclado pedindo pausa urgente para me virar para o ritual da devoção. Apesar do espanto em encontrar tantos adeptos póstumos e arcebispais do Cónego Melo, mas cada um é como cada qual, eu quero festa antes e depois. E confesso que o que mais me excita, neste momento prévio de concentração e oração, é saber que vou comover-me daqui a pouco com o encontro de casais de namorados ou duetos de amigos artilhados com cachecóis de cores e símbolos dissonantes, em manifestação da harmonia possível na cidadania das paixões. Porque, pese embora o peso dos resultados, o futebol, se é bonito com os orgasmos dos golos, ele é, deve ser, sobretudo, uma festa. Vamos a ela, até ela. Porque o resultado é sempre o que sobra após 90 minutos do maior, mais bonito e mais popular espectáculo do mundo.

 

Adenda (pós-derby): Alguma praga rondou este meu post. Não, não é por desgosto ou alegria de ver a equipa mais rival a 26 pontos (!) de distância, o que não passa de um anacronismo que se aproxima da caricatura, portanto com mais direito a sorriso de piedade que a celebração. O que se passou foi que, depois da minha oração ao fair-play no derby plantado neste post, na imensa bancada vermelha onde me sento em lugar cativo, havia um único sportinguista tresmalhado e todo ataviado com os símbolos da lagartagem. Não sei como nem o que lhe deu para ali ir parar, com a bravura de plantar uma diferença naquela planície fanática de papoilas saltitantes a anteciparem a prevista festa de campeões. Mas se só havia um dissonante na imensa e repleta bancada vermelha e sempre a ferver, logo o seu lugar destinado foi exactamente ao meu lado, ali tendo estado nós ombro a ombro durante o derby. E quando me dirigi ao meu lugar e confirmei a companhia exótica, lembrei-me logo que o post acima tinha de ter cobrança rija (ou teste de coerência). Tudo correu bem, o meu vizinho contido e nunca molestado por quem quer que fosse. Como costume, no final, a festa vermelha transbordou do estádio para as ruas e corredores do metro. E foi bonita, como é costume quando o povo vermelho caminha para ser campeão. Mas aquele lagarto, de uma espécie diagnosticada como atreita a largar visco e peçonha, de que sei qual o seu clube mas de que não imagino como se chama, aquele meu vizinho no derby, passando incólume por dentro do inferno da Luz e só maltratado pelo resultado, é a prova que o fair-play é possível e factível. Com urgência em reproduzir-se.   

Publicado por João Tunes às 16:47
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