Terça-feira, 13 de Abril de 2010

Um Coelho, versão cool do mix Portas-Sócrates

 

Não há volta a dar, nem para os reverentes: Passos Coelho é uma reaparição sinistra da AD feita pessoa. E, nisso, é o mais sacarneirista de todos os líderes que passaram pelo PSD após Camarate (e, imagine-se, é isso que o coloca em dissonância pela direita com o reaça Cavaco). Ele transformou em intenção e programa a ambição de extirpar a democracia das suas últimas e periclitantes raízes abrilistas. Ou seja, tenta recolocar Portugal num espaço político como se quisesse fazer o que nenhum político fora ainda capaz, o de continuar Marcello Caetano sem Quartel do Carmo. Evidentemente que não é original nem inovador, até porque os seus talentos são curtos, limitando-se a mimar Paulo Portas e só lhe acrescentando a dimensão do aparelho gordo do PSD que, mesmo quando recua para ceder parte do aparelho de Estado aos boys socialistas, mantém os seus santuários de retiro e gulodice nas empresas com ligações estatais, no suporte dos jornalistas laranjas e no consolidado, suculento, perene, farto e gordo, pernil autárquico (esse manjar corruptor de valores e honestidades que até outros – na CDU, por exemplo e bom exemplo para quem usa o emblema do “trabalho, honestidade, competência” - incensam como virtudes do “poder local”, talvez porque não dispensam, para benefício de pax partidária, esse escoadouro de sinecuras para a malta fixe da JCP à procura de emprego e para quadros purgados, retirados, dispensados ou a precisarem de arredondarem ordenados ou reformas).

 

Temos, pois, em Passos Coelho, um travesti de Paulo Portas. Mais fashion e com o aparelho e a dimensão de ambição do PSD, essa eterna continuação da ANP, ávido de voltar às gamelas supremas. Agora, em versão cool, despido da beatice tecno-cavaquista da Dona Manuela e dos desatinos imberbes e descontrolados de Santana e Menezes, vestindo o fato e a gravata do líder jovem e bem parecido, disputando o ranking de imagem com outro seu irmão político - o pequeno-burguês (tão inculto e insensível social quanto ambicioso) que vive dentro da figura do político e governante desse provinciano chamado Sócrates, parido pela mesma fornada das jotas, cúmulo maior entre os desastrados optimistas mas inábeis que algum dia Portugal colocou no poder. E se os extremos se tocam sem perderem identidade, temos um sinistro Passos Coelho no pólo da alternância, não por méritos do neo-liberalismo de que se julgava já dever pagar a factura da responsabilidade pelo desastre da crise em curso, mas derivada de duas atracções políticas: a clonagem na ascendente extrema-direita portista (sacando juros da saudade cavernícola do regresso aos tempos da AD-ANP) e a atracção pela continuação, em tom de laranja, do estilo e da prática do PS-Sócrates. Este mix, uma tragédia em termos de adiamento de transformar o espaço português num espaço de solidariedade e de igualdade aproximada, sobretudo um espaço criador de cidadania que não matasse Abril mas lhe desse a maturidade superadora que qualquer revolução pede, deve-se, em linha directa e recente, ao legado de Sócrates. Este, ao arrastar o PS para o centro-direita, aproveitando a letargia petrificada da esquerda mais à esquerda, colocou o pólo da alternância na direita pura e dura. Ela aí está. Sócrates que recebera o poder pelos deméritos gritantes do desastrado Santana, até a alternância empurrou para a direita. E já nos tendo “dado” Cavaco, teima em nos deixar entregues a Passos Coelho. Sócrates pode voltar a fazer projectos para casinhas provincianas, já que, em termos de memória de política no poder, lhes pode, até não lhes agravando o mau gosto dos desenhos e aparências, limpar as mãos às paredes desenhadas e projectadas segundo o seu génio de engenharia de construção civil. E nós que nos amanhemos. Mas se não é para outra coisa que cá andamos, como enjeitar o desafio do legado?  Vamos a eles.            

Publicado por João Tunes às 16:13
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