
Se o Papa ouvisse as minhas recomendações dir-lhe-ia para, na próxima visita a Portugal, manter o programa das missas e desfiles populares e interclassistas em Lisboa e no Porto, mas que evitasse ir a Fátima. Este conselho pode parecer um disparate porque muitos entenderão, sobretudo os bispos, os cardeais e o Vaticano, que é a ida a Fátima que justifica uma viagem papal (houve um, Paulo VI, que se serviu do aeroporto de Monte Real para não passar por Lisboa, para evitar confundir-se com um regime metido em guerras coloniais). Mas, sejamos realistas, o contexto deve determinar as circunstâncias criadas. Circulando em banhos de multidão em Lisboa e Porto (um papa é um Papa), Bento XVI cumpre o essencial dos interesses depositados no convite que lhe fizeram para vir a Portugal – fazer a contraposição católica ao centenário da implantação da República, lembrando quanto a Igreja "perdeu" com essa mudança de regime; dar uma mãozinha ao arranque da campanha do mui católico Cavaco para a sua reeleição presidencial. Tratando-se de ajudas dentro de confrarias de interesses discutíveis mas legítimos, nada haverá a opor. Mas Bento XVI faz mal em ir a Fátima num momento em que estão particularmente expostas as misérias sexuais do clero católico (e dessa missa infernal, ainda não se saberá um milésimo). Indo direito e celebrante a um dos principais núcleos do culto mariano, Ratzinger indica, claro que a contragosto, um dos grandes mitos alimentados em que assenta a desgraça sexual na Igreja, porventura determinante para a contumácia das sotainas em pecarem, agredirem e cometerem crimes de abuso sobre os elos mais fracos dos rebanhos – a dessexualização como caminho de virtude, a negação do corpo e do prazer, a remissão da mulher (mesmo quando mãe) para a redoma da intocabilidade da virgindade, por via da ideia paranóica da amputação imaginada da vagina como condição de higiene espiritual (e muitas das parafilias dos padres católicos alimentar-se-ão do incutido mal estar sexual masculino relativamente à vagina). Ao dessexualizarem a mulher no imaginário da sua moral propagada, os curas católicos julgaram ter descoberto o escudo sábio para que a sua comunidade de machos celibatários e solitários os abrigassem das tentações e do prazer, partilhando uma prática de recalque com sucesso. Só que os corpos existem e falam (e que maravilhosa pode ser a fala dos corpos). E se não falam bem, falam mal. A exposição continuada e em perpétua repetição das misérias e crimes sexuais cometidos por pastores da Igreja Católica, incapaz de admitir para os seus membros uma vida afectiva e sexual comum e partilharem o sacerdócio com a parte feminina (mais de metade dos crentes), revela que o que tem ocorrido, numa dimensão aterradora, é a inclinação para o pecado, com ou sem abuso, a transgressão encoberta e possibilitada pela situação de poder (muitas vezes, indo além do espiritual) e camuflada pelo verniz insuspeito de ser depósito, simultaneamente humano e sobrenatural, de santidade e de virtude. E, sabe-se, a auto-castração sexual, por via da luta contra o próprio corpo, gera tensões, agressividades e descontrolo face ao social e ao normativo que, se não são causa linear e directa de desvios comportamentais e taras sexuais, alimentam, quando existem, o desejo de consumar as parafilias, o primeiro passo para o abismo do crime por abuso hediondo sobre os mais fracos e indefesos - as crianças e, entre estas, escolhendo-se as mais desprotegidas (as orfãs, as deficientes, as enclausuradas em instituições religiosas). Ao ir a Fátima, eu sei que vai por nada ligar aos meus conselhos, o Papa vai esticar o dedo, apontando um dos núcleos ideológicos da miséria sexual da Igreja Católica. Pensando bem, em descarga de consciência, vou mandar-lhe um mail.
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