Segunda-feira, 22 de Março de 2010

De cada vez, sua decepção

 

Costumo dar um período de “graça” aos partidos em quem voto e depois pedir-lhes contas do que fizeram à minha escolha. Foi assim com o PS na anterior legislatura, será igual com o Bloco de Esquerda, em quem votei nas últimas eleições legislativas. E relativamente ao partido mais importante à esquerda do PS, o Bloco, a decepção está a abrir caminho. Porque repete a mesma atracção fatal de se acantonar na intervenção parlamentar, onde, tirando arremedos de Louçã, Pureza e Semedo, a qualidade política das intervenções dos restantes deputados bloquistas é pobre, chata e demasiado pontualista. Com o senão agravado de, na onda legítima, porque merecida, de contestação ao governo e a Sócrates, não conseguir impor uma “agenda política de esquerda”, permitindo à direita cavalgar a dinâmica da descredibilização socrática (o que é um objectivo político de micro dimensão). Quando as grandes questões que ferem a sociedade portuguesa, devendo elas passar para primeiro plano do debate político, são as de natureza social e que o PEC ameaça transformar em factores de perda de sustentabilidade e tornarem-se críticas para os relegados a viverem na pobreza ou no seu limiar, com novas camadas a descerem socialmente para os patamares mínimos de sobrevivência e esperança. E o maior contrasenso de se permitir que seja a direita a liderar a agenda da oposição é que, impondo temas desviantes, a direita consegue que o governo a que faz oposição adopte medidas de neo-liberalismo serôdio como é, particularmente, o novo processo de privatizações e a incapacidade de fazer os mais ricos e mais privilegiados pagarem a parte que lhes compete do ressurgimento após-crise. Ou seja, permitir o paradoxo de se assistir a uma direita, para mais completamente fragilizada em termos de identidade e liderança partidária, a apoderar-se da oposição perante um governo empurrado para cumprir a política da direita.
 
Obviamente que os temas sociais e económicos dominam o discurso político parlamentar do Bloco. E ele incide sobre as questões mais importantes de uma governação apostada em alargar as chagas sociais. Mas, por falta de imaginação e de criatividade interventiva, também pela nítida impreparação e monocordia repetitiva e banalizante da maioria dos seus deputados, parecendo disputar um concurso de “chatos e compridos” com os seus vizinhos do PCP, o Bloco não consegue ultrapassar a direita em impacto, propostas e soluções que leve a sociedade portuguesa e os problemas gravíssimos que a corroem para o parlamento e o debate público. Estas decepções, se derivam, em primeiro lugar, de péssimas escolhas dos candidatos a deputados do Bloco, estruturam-se e ganham corpo numa centralização excessiva da vida política do Bloco na arena parlamentar. Falta-lhe lastro social, entrosamento com a sociedade civil, capacidade de ouvir bem para falar melhor. Particularmente, quando se destroem os tecidos sociais nas empresas, se insiste na precarização do trabalho, se degradam salários, cresce o desemprego, o posto de trabalho e o salário são vistos como meros “custos”, se desenvolve uma cultura patronal e governamental que vai penetrando a opinião pública de desqualificação dos direitos sindicais, incluindo o recurso à greve, o Bloco, que se assume como uma “nova esquerda” ou “esquerda da esquerda”, é incapaz, tirando o seu “brinco” da Auto Europa e pouco mais, de romper a dualidade paralisante entre o sindicalismo petrificado e conservador que marca a CGTP (onde se aninham os seus poucos quadros sindicais) e o de cariz burocrático, conciliador e amador da UGT. Quando a actual legislatura era a grande oportunidade de maturação sustentada do BE, o que se assiste é ao seu acantonamento nos “passos perdidos”, como que esperando por novas eleições que lhe permitam crescer por inércia e por efeitos de debandadas do PS e do PCP, uma por efeito da decadência socrática e a outra por cansaço perante nostálgicos azedos a cerzirem a fatalidade da duplicidade entre democracia e revolução. Mas o BE, a continuar assim, sujeita-se a que grande parte do descontentamento com os partidos e com a esquerda, não só deixe de dar fluxo à sua torneira de votos como vá parar para outras bandas, a da abstenção ou da direita populista. Emendem, emendem-se, se forem capazes.  

 

Publicado por João Tunes às 00:37
Link do post | Comentar
4 comentários:
De Anónimo a 22 de Março de 2010
Eu vejo o BE com maus olhos, mas por razões diferentes: a sua falta de radicalização. O BE está tomado pela sua ala moderada e assim será, com o PS a chegar-se cada vez mais para a direita. Com o passar do tempo e uma possível cisão na esquerda do PS a integrar o BE, este será um partido infinitamente mais chato. A esquerda, à escala mundial, perdeu uma grande oportunidade de relançar o socialismo, com a última crise financeira; tudo isto aliado à perda de fôlego da década do BE.
De Isidoro de Machede a 22 de Março de 2010
'De cabo a rabo', diria o meu republicano avô. E depois as minhas costeletas acratas vêem cada vez mais à tona.
De Isidoro de Machede a 22 de Março de 2010
Ainda cá volto. Os seminaristas do BE (desculpa o mau jeito joão), arrulham, arrulham tanto que o Fócrates ainda os premeia com um lugar de ajudante (como diria o Silva de Boliqueime).
De João Tunes a 22 de Março de 2010
Respeito a opinião mas de tão caústica e redutora, não dá para conversar.

Comentar post

j.tunes@sapo.pt


. 4 seguidores

Pesquisar neste blog

Maio 2015

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
15
16
17
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
28
29
30
31

Posts recentes

Nas cavernas da arqueolog...

O eterno Rossellini.

Um esforço desamparado

Pelas entranhas pútridas ...

O hino

Sartre & Beauvoir, Beauvo...

Os últimos anos de Sartre...

Muito talento em obra pós...

Feminismo e livros

Viajando pela agonia do c...

Arquivos

Maio 2015

Março 2015

Fevereiro 2015

Janeiro 2015

Dezembro 2014

Novembro 2014

Outubro 2014

Setembro 2014

Agosto 2014

Julho 2014

Junho 2014

Maio 2014

Abril 2014

Março 2014

Janeiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Junho 2013

Março 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Junho 2012

Maio 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Junho 2010

Maio 2010

Abril 2010

Março 2010

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

Dezembro 2009

Novembro 2009

Outubro 2009

Setembro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

Junho 2009

Maio 2009

Abril 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Outubro 2008

Setembro 2008

Agosto 2008

Julho 2008

Junho 2008

Maio 2008

Abril 2008

Março 2008

Fevereiro 2008

Janeiro 2008

Dezembro 2007

Novembro 2007

Outubro 2007

Setembro 2007

Agosto 2007

Julho 2007

Junho 2007

Maio 2007

Abril 2007

Março 2007

Fevereiro 2007

Janeiro 2007

Dezembro 2006

Novembro 2006

Outubro 2006

Setembro 2006

Agosto 2006

Julho 2006

Junho 2006

Maio 2006

Abril 2006

Março 2006

Fevereiro 2006

Janeiro 2006

Dezembro 2005

Novembro 2005

Outubro 2005

Setembro 2005

Agosto 2005

Julho 2005

Junho 2005

Maio 2005

Abril 2005

Março 2005

Fevereiro 2005

Janeiro 2005

Dezembro 2004

Novembro 2004

Outubro 2004

Setembro 2004

Agosto 2004

Julho 2004

Junho 2004

Maio 2004

Abril 2004

Março 2004

Fevereiro 2004

Links:

blogs SAPO