Quarta-feira, 17 de Março de 2010

Hoje como ontem?



Passam 40 anos desde a formação da CNSPP (Comissão Nacional de Socorro aos Presos Políticos). Em 1970, o marcelismo, incapaz de liberalizar o regime, não permitia arroubos de pluralismo nem libertava os presos políticos e, perante o peso institucional e orgânico da PIDE, só foi capaz de lhe mudar a designação mas sem lhe limitar a infâmia da actuação. E a CNSPP surgiu, assente sobretudo em familiares de presos e figuras públicas que não abdicavam da decência de consciência, fazendo um trabalho persistente e valente de ajuda aos presos políticos e às suas famílias, denunciando os atropelos à dignidade humana cometidos contra os que ousavam defender a liberdade e a democracia como alternativa à ditadura. À distância, as e os activistas da CNSPP possuem um património de luta e solidariedade que merece, com toda a honra devida, o reconhecimento que requereram junto da Assembleia da República.

 
Olhando o presente, sendo todos nós cidadãos do mundo, eu recebo notícias das “Senhoras de Branco”, as familiares dos presos políticos cubanos, e vejo-as como depositárias, noutro contexto e noutras circunstâncias, do legado da "nossa" CNSPP. Porque não imagino que um ser humano inteligente, mentalmente são e civicamente coerente possa ter sido sensível perante as torturas selvagens cometidas na António Maria Cardoso, as deportações para a “morte lenta” no Tarrafal e aos longos tempos de prisão em Caxias e em Peniche, mas seja hoje indiferente, até cúmplice, com as prisões, os julgamentos arbitrários, as torturas, a liquidação física dos que, ontem e hoje em Cuba, negam a ditadura e aspiram à liberdade, ao pluralismo e à democracia, na ilha em cuja revolução tantos dos presos políticos portugueses sonharam estar a compensação (melhor: a superação) das feridas que os carrascos salazaristas e marcelistas lhes cravavam no corpo e no espírito.
 

Gostem ou não as respeitáveis e valentes pessoas que integraram a CNSPP, relativamente às quais o tempo só aviva o respeito, a melhor homenagem que lhes faço, neste 40º aniversário da fundação desta organização integrada na boa memória da luta contra o fascismo português, é imaginá-las projectadas na acção das “Senhoras de Branco”, essas cubanas valentes, ciosas do direito à dignidade dos seus familiares encarcerados, maltratadas, reprimidas por pides castristas e outros esbirros de uma ditadura, como acontece cada vez que saem à luz do dia, clamando por amnistia e liberdade (ouvir um depoimento passado na TSF). Não duvidando que as imagens seguintes lhes rejuvenesça a mesma vontade indignada de gritar basta como fizeram há quarenta anos atrás.

 

 

 

 

 

 

Publicado por João Tunes às 23:42
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2 comentários:
De deolinda a 20 de Março de 2010
João: Só posso fazer um peq.comentário:(É mais forte do q.eu) "AOS AIS DE MÁRIO VIEGAS" e ARY DOS SANTOS.Tão cedo que partiram.Grande vazio na cultura portuguesa.Sou saudosista qb, ou com aquilo que considero importante... Este teu post, (Hoje como ontem?) vai para os meus favoritos.
Obrigada Amigo.
De João Tunes a 21 de Março de 2010
Abraço, cara amiga.

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