Sexta-feira, 26 de Fevereiro de 2010

A bota não joga com a perdigota porque o luto ficou a meia haste?

 

Está na hora, ansiosamente esperada, de discordar com a minha querida companheira e amiga Joana Lopes. É que o que se confessa aqui, reincide aqui. O imperialismo é uma peste, o bloqueio a Cuba é uma estupidez (sobretudo em termos de estratégia de recuperar Cuba para a democracia), mas os males para o povo e os crimes contra a humanidade em Cuba não são consequência do imperialismo (ou seja, não é uma necessidade resultante de um fatalismo anti-imperialista) nem resultam do bloqueio. São, antes, marca genética do tipo de regime, do comunismo, irrealizável, a menos que se seja um eurocomunista serôdio, fora do quadro de uma revolução ou golpismo, culminando sempre num despotismo que se pretende legitimado porque iluminado em nome de uma elite de vanguarda ou de profetas visionários. A enumeração das demonstrações por listagem dos regimes siameses que os povos varreram como lixo seria enfadonha mas a China, global e grande investidora na dívida pública americana, está aí, em carne viva, para o demonstrar. Claro que o bloqueio norte-americano explica uma parte da forma específica como o comunismo cubano oprime o seu povo, nomeadamente enquanto álibi da miséria como factor de uniformização igualitária (que não atinge as elites do regime), mas, com ou sem bloqueio, com ou sem imperialismo, uma tirania só sabe tiranizar.
 

Invocar pergaminhos anti-imperialistas e nojos por bloqueios como higiene prévia para assinar uma petição que condene o crime cometido pelo regime cubano contra a vida de Orlando Zapata Tamayo, apelando à concretização dos direitos naturais dos cubanos a acederem à democracia e à liberdade, é, a meu ver, uma espécie de opção pela ambiguidade, uma reverência para com os posters dos barbudos caídos das paredes, um abraço falhado sobre os ombros de dor da mãe de Orlando Zapata, um contigo sem ti. Só faltou uma adenda justificativa pela homenagem, comum aos prosélitos filo castristas, sobre as maravilhas de saúde e educação que maltrataram os ossos de Orlando Zapata Tamayo e estudaram o plano do estado de sítio para conterem revoltas libertárias no seu funeral. Um preto, pobre e subversivo, como foi Orlando Zapata Tamayo, merecia dos utópicos persistentes que querem socialismo e liberdade, mais que esta petição ambígua e envergonhada, um grito não condicional, sem partilhar a ambiguidade de Pilatos que retrata um estadista com o desenho de Lula.

 

Publicado por João Tunes às 16:03
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