Terça-feira, 23 de Fevereiro de 2010

Rocco e seus irmãos (tantos fomos e ainda somos alguns)

 

Rui Bebiano, sem o imaginar, tocou campainhas numa minha velha ternura cinéfila, a que guardo mais exarcebada para com um dos melodramas mais humanos que o cinema deu ao mundo, o “Rocco i suoi fratelli” (1960), assinado pelo Mestre Luchino Visconti (a versão que foi projectada então no Portugal fascista, teve cortes da censura que liquidaram muitas centenas de metros de película). E que, sem o ver, pouco se pode entender da dialéctica entre norte e sul de Itália (extensível, nas calmas, a uma outra mais vasta e mais diluída entre norte e sul da Europa). No fotograma assinalado por Rui Bebiano e aqui copiado, o irmão mais novo de Rocco acaricia a capa de um jornal desportivo onde está estampado o rosto do mano Rocco, então a afirmar-se no mundo do boxe de quinta categoria, o dos deserdados à procura da sobrevivência, remetendo para a idolatria projectiva típica da infância. Quanto ao rosto acariciado, ele é latino mas não italiano (Visconti sempre inventou grandes actores, independentemente das origens e dos talentos originais), pertencendo ao francês Alain Delon. Pelo recuo gostoso, obrigado Rui Bebiano. Tanto mais que nos recorda como se via cinema em Portugal nos idos anteriores a 1974: entre os fotogramas vistos, tirava-se o sentido dos fotogramas interditos segundo o critério de coronéis reformados munidos de tesouras para que os cérebros dos cidadãos não se descentrassem da formatação mãe daquele fascismo clerical e que em alguns sábados ainda agora sai às ruas: deus, pátria, autoridade, família e procriação.
Publicado por João Tunes às 22:54
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4 comentários:
De mdsol a 24 de Fevereiro de 2010
Balhamedeus! Pois eu vi esse filme tão apaixonada, mas tão apaixonada pelo Delon que se me varreu qualquer sentido mais, ... digamos ....profundo ...

:))))))
De João Tunes a 24 de Fevereiro de 2010
Sim, um Alain Delon magnífico (como é que um gajo que foi mafioso na vida real representa tão bem um “anjo” no cinema?). E que Visconti ainda trabalharia melhor em “O Leopardo” emparceirando-o então com o divinal Cláudia Cardinale. Mas, neste mesmo filme, o “Rocco”, deslumbram ainda uma francesa espectacular (Annie Girardot), no seu melhor papel no cinema, o poderoso Renato Salvatori (o “irmão mau”), autêntico monstro de representação e, sobretudo, a actriz grega majestosa e inigualável Katina Paxinou, a representar o papel de matriarca do clã Parondi e que faz esquecer que aquele papel podia (devia?) ter sido dado a Ana Magnani, confirmando que todas as excelências podem ser ultrapassadas. Os seus olhos ficaram vidrados em Delon e tudo o resto ficou como paisagem? Percebo-a, ele era de facto um homem muito masculino e bonito, fazendo um papel susceptível de enamorar qualquer senhora sentada numa plateia de cinema. Pela minha parte, confesso que tive que moderar os encantamentos e não me fixar na fascinante Girardot, não perdendo assim os outros predicados de uma película excepcional. Mas essa capacidade de distância e abrangência, exige treino e militância (na altura, tinha “obrigações” enquanto cineclubista). Se me permite, recomendo-lhe que um dia destes reveja o filme (por exemplo, em DVD), agora circula a versão integral sem os cortes da censura do meu tempo, e tente ver além de Delon, sem o perder de vista é claro, garanto-lhe que muito mais vai descobrir.
De mdsol a 24 de Fevereiro de 2010
Muito obrigada pela resposta. E sabe? Eu era uma miúda quando vi o filme a primeira vez! O que é interessante é que nunca fui de ter ídolos, de colar cartazes na parede do quarto, de andar a suspirar por "artistas" e essas coisas. Foi assim uma excepção que, confesso-lhe, não cultivei de todo...

:)))

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