Domingo, 7 de Fevereiro de 2010

Os netos republicanos

 

Num artigo do “Público” (espanhol) sintetiza-se:
 
“ Os seus avós saíram de Espanha depressa e pela porta de trás. Como se fossem delinquentes quando, afinal, eram simplesmente democratas e republicanos que tinham perdido a guerra contra o fascismo. Quiseram condená-los inclusive à condição de apátridas errantes, mas Franco não ganhou esta guerra: 70 anos depois, os netos da República olham para Espanha. E Espanha volta a ser o seu país, de forma oficial.”
 
E os números falam por si: em 2009, 81.715 descendentes de espanhóis republicanos, distribuídos pela diáspora dos derrotados da guerra civil de Espanha (1936-39), com especial incidência na América Latina (particularmente em Cuba), ao abrigo da Lei da Memória Histórica que lhes dá essa faculdade (abrangendo os familiares dos exilados espanhóis até 1955, ano que se considera de viragem dos exílios políticos para a emigração económica), requereram e obtiveram a cidadania espanhola. Como a faculdade de abrigo desta lei se estende até 2011, calcula-se que o número de requerentes de pedidos de nacionalidade espanhola que vão ver os seus pedidos satisfeitos, possa rondar os 200.000 “novos espanhóis”.  
 
Em Cuba, estes “netos de espanhóis republicanos” adquirem a nacionalidade espanhola sobretudo como meio de escaparem à ditadura e à miséria imposta pela irmandade Castro ao seu povo. O que não deixa de constituir uma ironia histórica a possibilidade selectiva de se libertarem do pavor comunista através do recurso a uma lei que faz justiça aos descendentes de foragidos do pavor fascista. Noutros casos, trata-se apenas de uma oportunidade de emigrar, com plenos direitos, para Espanha, embora este país não seja, actualmente, pelas suas condições económicas e sociais, um el dorado como alvo de emigração. Finalmente, uma parte importante destes “novos espanhóis”, os da diáspora que permaneceu na Europa, recorreu às faculdades da Lei de Memória Histórica como acto simbólico de fazer justiça póstuma à memória e honra dos seus avós, reparando, na medida do possível, os efeitos da vontade-lei de Franco, o mais vingativo de todos os generais que ganharam uma guerra, de situar eternamente como apátridas os seus compatriotas que se exilaram para não serem fuzilados em nome do pagamento do “crime” de serem pela legalidade constitucional contra o golpismo militar, pela democracia contra o fascismo, pela república contra a monarquia, pelo laicismo contra o domínio do obscurantismo clerical católico.
 

É sempre fácil escolherem-se entre escolhas feitas por outros, pagando estes todos os custos das opções. E, assim sendo, não resisto à facilidade de dizer que, entre tantos “novos espanhóis”, muitos aproveitando uma Lei “oportuna”, os que mais comovem e honram a cidadania são aqueles que, nada tendo a beneficiar com o novo passaporte de cidadania espanhola, o requereram e ostentam com orgulho como tributo a avós tresmalhados pelo mundo a quem um ditador quis retirar o sinal de auto-estima cidadã de terem direito a serem filhos da sua pátria. Civicamente, é irresistivelmente bonito haver “netos republicanos” assim.

 

Publicado por João Tunes às 21:07
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