Sexta-feira, 22 de Janeiro de 2010

Fascismo e Bola

 

Para um adepto irremediável do futebol e com dois (!) clubes no peito como eu sou, olhar a capa de um livro de um académico sobre as coisas da bola (*), natural seria que me levantasse, em simultâneo, uma tosse seguida de espirro. Mas foi só quase. A consagrada tese dos “3 Fs” que um antifascismo primário colou à relação entre a ditadura e o futebol, acompanhando-o de um fenómeno tão distinto como o fado mas tão similar como foi e é Fátima, é bem conhecida, tarde ou cedo este estereótipo salta, servindo o verniz da alergia a muita gente em bicos de pés no status cultural, e por isso merece ser estudado e verificado. Assim, foi de uma forma dócil que meti o livro de Ricardo Serrado (**), uma reprodução da sua tese de mestrado, na minha alcofa das compras. E, diga-se, sem lamentos vulgares e próprios de tempo de poupanças.
 
Parece-me que Ricardo Serrado (RS), na sua tese esforçada de desligar o futebol do fascismo, é mais veemente que convincente. Embora equilibre o efeito distorcido do estereótipo difundido e aceite pelo politicamente correcto na preguiça corrente com que se interpreta o fascismo português, o dos “3 Fs”, RS parte de um lugar comum académico e só triunfante porque insuficientemente contraditado: o de que o salazarismo-marcelismo não foi um fascismo (o que leva muito boa gente a adoptar o termo “Estado Novo” com que Salazar baptizou o seu regime ditatorial, e normalmente sem o pudor mínimo de lhe meter aspas). Sendo uma das comprovações deste “aligeiramento” na categorização (sugerido com resultando do amor ao rigor) a ausência (ou reduzido a esporádicas erupções), na longa ditadura portuguesa, do “fenómeno de massas” e levantando, para abono da tese, o carácter de homem solitário que habitava o Botas, o seminarista adverso às multidões. Obviamente que Salazar odiava as multidões quando não as controlava e odiava os ajuntamentos e o povo, por desconfiança atávica, quando este não se reduzia a suar a cavar batatas. E, assim sendo, um eremita bêbado de poder, Salazar não podia entender e muito menos gostar de futebol, espectáculo e paixão de multidões. Mas, ao mesmo tempo, nunca permitindo intimidades ou proximidades que o seu nojo pelo povo não permitia, Salazar sempre encenou ou mandou encenar celebrações de multidões, até para legitimar a ditadura, sobretudo nos momentos críticos para o regime. E comparecia nelas, muitas vezes. O Jamor aí está como demonstração, esse estádio que é a última grande perpetuação (continua a ser o palco exclusivo das finais da Taça de Portugal) da ligação profunda (propagandística, estética) entre o fascismo português e o futebol. Julgo também como certeira a defesa de RS de que foi mais o futebol (e os clubes) que se impôs à ditadura que o inverso. Embora, como não nega, a ditadura tenha aproveitado sempre e ao máximo todo o desvio de motivações e exaltação nacionalista que o futebol português proporcionou aos ditadores. E esse mesmo aproveitamento foi o mais significante em termos de ligação entre política e futebol de que o regime beneficiou mais que o próprio futebol (o qual, sintomaticamente, se consolidou muito mais em tempos de democracia, “fogachos” do Benfica e da selecção no Mundial de 66 à parte).
 
O capítulo mais interessante do livro de RS é o dedicado à final de 69 da Taça de Portugal em que os estudantes de Coimbra, em luta cerrada e valente contra o fascismo, transformou a “festa do Jamor” numa jornada política de luta (a que aderiu, maioritariamente, a massa de adeptos do Benfica ali presente). Trata-se de um capítulo bem documentado e o melhor tratado. Mas não serve, como parece ser destinado, como prova válida de que, como fenómeno, o futebol não só não foi amado pelo fascismo como enfrentou ou corroeu o regime. Foi um acto isolado, mesmo que dos mais vivos em termos de reversão dos rituais do fascismo português. Nunca aconteceu nada igual nem parecido, antes ou depois. Aliás, a invasão coimbrã do Jamor, essa grande jornada de vergonha para a ditadura, está, na memória colectiva, se esta pretender ser justa, “empatada” pela monumental ovação que Marcello Caetano recebeu em Alvalade pouco antes do 25 de Abril e já dada a tentativa do 16 de Março vinda do quartel das Caldas.
 
Um historiador ter-se dedicado ao estudo e história do futebol, é uma novidade e excelente notícia. Para além das repulsas, o futebol é o futebol. Se a história o desprezasse, seria a história que perderia, passando ao lado do maior e mais importante espectáculo de massas de todos os tempos.
 
(*)“O Jogo de Salazar – a política e o futebol no Estado Novo”, Ricardo Serrado, Edição Casa das Letras.
 

(**) – Ricardo Serrado é licenciado e mestre em História (Universidade Nova de Lisboa), ainda investigador do Instituto de História Contemporânea da FCSH e do Centro de História da FLUL, bem como director do Centro Histórico do Futebol e Desporto.

 

Publicado por João Tunes às 23:46
Link do post | Comentar
2 comentários:
De nuno granja a 25 de Janeiro de 2010
João Tunes,

Versões sobre a relação do "estado novo" com o futebol à parte...

Não sou de esquerda nem concordo sempre consigo, mas a leitura dos seus posts, algumas vezes com perspectivas diferentes das minhas, é sempre enriquecedora.

Tal como o meu pai, o meu irmão e umas poucas pesssoas das minha relações, considero-o pessoa integra, honesta e que pensa pela própria cabeça...

O que me custa a perceber, tal como no caso do meu irmão e do meu pai, é como se consegue entusiasmar "irremediavelmente" com o futebol, ter como "clube de peito" um qualquer negócio tipo circo romano deficitário, em que todos ganham bem, mas as SADs com gestores da craveira de Pintos da Costa, Valentim Loureiro & Filho, Luis Filipe Vieira, Soares Franco (o tal que ensinou ao Judas as artes de autarca tuga) e num escalão menor Ferreira Torres, estão técnicamente falidas, apesar de financiadas pelos contribuintes via sacos azuis modelo Felgueiras, ou outros expedientes mais sofisticados

Como consegue conviver nos estádios com ajudantes de campo de reconhecida competência a apertar possiveis candidatos à presidência do fcp no tunel da ribeira, como o famoso "macaco" e os "seus" superdragões, ou com players com grande sentido de oportunidade para negócios de risco, como os no name bois...

Como consegue alinhar com as falácias à volta deste novo ópio do povo, que por exemplo nos fazem crer que o FCP obteve uma grande vitória para a cidade ao ganhar a uma equipa escocesa numa qualquer final em Espanha, onde estiveram presentes, Jorge Sampaio, Durão Barroso (na altura PM), Fernando Gomes e Luis Filipe Menezes, quando nessa mesma semana um empresa escocesa comprou as Águas de Luso e uma das maiores cervejeiras do pais. Como o tony Blair e a rainha não foram a Sevilha ver a final, presumo que estivessem a ver como vão comprar a seguir a Água da Serra da Estrela e a outra cervejeira.

E podia ir por ai fora...Euro 2004, Joaquim Oliveira, etc etc etc,

Por muita consideração que tenha por si pelo meu pai ou pelo meu irmão sinceramente não percebo, eu cá ia viver muito infeliz a participar nesse tipo de circo.

PS. Não tenho clube, nunca me senti minimamente interessado por um jogo ao ponto de o ter visto mais de 15minutos. O clube de peito do meu pai é o SLB e do meu irmão é o FCP.
De João Tunes a 26 de Janeiro de 2010
Não me peça para explicar o inexplicável. Por mim, resta-me o velho aforismo de que ninguém é perfeito.

Comentar post

j.tunes@sapo.pt


. 4 seguidores

Pesquisar neste blog

Maio 2015

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
15
16
17
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
28
29
30
31

Posts recentes

Nas cavernas da arqueolog...

O eterno Rossellini.

Um esforço desamparado

Pelas entranhas pútridas ...

O hino

Sartre & Beauvoir, Beauvo...

Os últimos anos de Sartre...

Muito talento em obra pós...

Feminismo e livros

Viajando pela agonia do c...

Arquivos

Maio 2015

Março 2015

Fevereiro 2015

Janeiro 2015

Dezembro 2014

Novembro 2014

Outubro 2014

Setembro 2014

Agosto 2014

Julho 2014

Junho 2014

Maio 2014

Abril 2014

Março 2014

Janeiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Junho 2013

Março 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Junho 2012

Maio 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Junho 2010

Maio 2010

Abril 2010

Março 2010

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

Dezembro 2009

Novembro 2009

Outubro 2009

Setembro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

Junho 2009

Maio 2009

Abril 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Outubro 2008

Setembro 2008

Agosto 2008

Julho 2008

Junho 2008

Maio 2008

Abril 2008

Março 2008

Fevereiro 2008

Janeiro 2008

Dezembro 2007

Novembro 2007

Outubro 2007

Setembro 2007

Agosto 2007

Julho 2007

Junho 2007

Maio 2007

Abril 2007

Março 2007

Fevereiro 2007

Janeiro 2007

Dezembro 2006

Novembro 2006

Outubro 2006

Setembro 2006

Agosto 2006

Julho 2006

Junho 2006

Maio 2006

Abril 2006

Março 2006

Fevereiro 2006

Janeiro 2006

Dezembro 2005

Novembro 2005

Outubro 2005

Setembro 2005

Agosto 2005

Julho 2005

Junho 2005

Maio 2005

Abril 2005

Março 2005

Fevereiro 2005

Janeiro 2005

Dezembro 2004

Novembro 2004

Outubro 2004

Setembro 2004

Agosto 2004

Julho 2004

Junho 2004

Maio 2004

Abril 2004

Março 2004

Fevereiro 2004

Links:

blogs SAPO