Domingo, 17 de Janeiro de 2010

Antes, ou depois, de ir rezar à Mesquita de Lisboa ou simplesmente admirar-lhe o minarete, recomenda-se uma sessão de teatro, ali ao lado, para um encontro com Hannah Arendt e Martin Heidegger

 

Como espectáculo (*), o resultado passa muito bem. As evidentes dificuldades de dicção da Ana Padrão e as barreiras antigas nos potenciais de talento de Rui Mendes (aqui, de qualquer forma, no seu melhor) e Luís Alberto são excelentemente compensadas pela magnífica encenação de João Lourenço - uma aventura muito bem conseguida entre a representação em “palco pequeno” e a exploração, com gosto e saber, das potencialidades dos meios multimédia na modernização da utilização da comunicação cénica - e pelo genial desempenho de Irene Cruz a confirmar que um “papel secundário” dado a uma senhora actriz (está-se à espera que saia a notícia necrológica para se dizer que Irene Cruz é, de longe e há muito tempo, a nossa melhor actriz?) pode transformar o mais relapso em apaixonado pelo teatro.
 
A peça será, para os conhecedores da obra madura de Hannah Arendt, mais do que relativamente a Heidegger, cujas traves mestras do pensamento e percurso se revelam na peça, um inestimável acrescento e enquadramento dos primórdios da sua experiência, enquanto estudante e como jovem professora e investigadora, demonstrando que a sua atracção e escalpelização do fenómeno totalitário lhe saíram das entranhas. E, neste sentido, sobretudo pela vontade de superação de uma duplicidade particular entre a razão e os afectos, tudo o que Hannah Arendt pensou e escreveu depois (dos factos tratados na peça) se torna mais claro e intelectualmente fascinante. Mas para quem nunca tenha lido Hannah Arendt antes, a peça do Teatro Aberto proporciona um estereótipo, o da unipolaridade do totalitarismo, ao serviço do antifascismo corriqueiro. É que, sabe quem a leu na sua produção pós-Heidegger, a genialidade de Hannah Arendt teve muito a ver com a sua capacidade de pensar o totalitarismo além da sua experiência concreta e traumática, a de uma judia alemã repelida pelo nazismo e presa afectivamente a um dos seus mestres académicos e um dos concepcionistas do Terceiro Reich. E, ainda hoje para escândalo de muita gente, ter denunciado o arquétipo do poder totalitário expresso de forma parecida na sua variante fascista e no seu irmão gémeo, tão diferente e tão igual, do comunismo estalinista, absorvendo ambas as variantes a mesma ambição ideológica para controlar e uniformizar e enquanto o primado político está na conquista brutal do poder político e depois a sua conservação.
 
Há uma opção nítida no argumento – centrar, sem descurar a luta e a emulação intelectual, no conflito e contradições entre Hannah Arendt e Martin Heidegger. O que se entende como escolha de matéria prima para um drama representável em palco. Mas, no mínimo, deviam avisar os espectadores: o essencial e substancial da obra de Hannah Arendt começou depois dos “factos” da peça, enquanto para Martin Heidegger, o seu melhor e pior acabaram ali, no seu arrependimento engolido. De qualquer forma, quem quer sempre se informa. E assim sendo, “Hannah e Martin” é não só um espectáculo conseguido e estimulante, como uma das melhores composições feitas nos últimos tempos entre teatro, cultura, história e ideologia. E, claro, com muito mais (porque de muito se faz o bom teatro). Com afectos e culpa, principalmente.        
 
(*) - Hannah e Martin”, Teatro Aberto (Lisboa), encenação de João Lourenço.

 

Publicado por João Tunes às 00:57
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