Segunda-feira, 11 de Janeiro de 2010

Um infiel entre fiéis

 

Parece ser uma fatalidade ideológica a incapacidade do PCP em conciliar a sua história oficial com a história. O primado do tacticismo e da propaganda, numa tendência fatal pelo retoque utilitário e oportunista em função da imagem favorável que melhor se julga vender num determinado momento político e tendo em conta as marés e os marinheiros, transforma o PCP num partido singular na utilização das omissões sonoras ou de factos coxos ou torcidos (que são formas de mentir perante a história) desde que se julgue que sirvam a praxis que aproxima a revolução idealizada.
 
Nem sequer a gesta da evasão de Peniche de 3 de Janeiro de 1960 escapa a este sortilégio da marca iejov com que o PCP lida com o seu passado, incluindo os seus pontos de maior pertinácia e heroicidade nos golpes desferidos à repressão do fascismo. Consultando-se as páginas do último “Avante” dedicados ao feito, pode ler-se:    
 
“Foram dez os militantes comunistas que se evadiram da Fortaleza de Peniche no dia 3 de Janeiro de 1960. Entre estes encontravam-se os membros do Comité Central Álvaro Cunhal, Jaime Serra, Joaquim Gomes, Francisco Miguel, Guilherme da Costa Carvalho e Pedro Soares, bem como outros destacados militantes, como Carlos Costa, Francisco Martins Rodrigues, Rogério de Carvalho e José Carlos – alguns dos quais assumiriam, nos anos seguintes, responsabilidades de direcção. Ao todo, e aquando da fuga, tinham cumprido 77 anos de cativeiro.”
“Todos os militantes que se evadiram nesse dia retomaram o seu posto na luta clandestina e, na sua grande maioria, permaneceram fiéis ao Partido. Excepção feita a Francisco Martins Rodrigues que, poucos anos depois, passou a ter uma acção contrária às decisões colectivas do Partido, acabando por ser expulso. Esteve ligado à criação de vários grupos esquerdistas, que tiveram um importante papel na divisão das forças democráticas e nos ataques ao PCP.”
 
Naturalmente, o ponto e o engulho residem em Francisco Martins Rodrigues (FMR), um político activo e frontal até ao fim da sua vida e que deixou a república dos vivos há menos de um ano. Não sendo eu, e nunca o tendo sido, um admirador da sua figura e obra, particularmente quanto ao seu anticapitalismo radical, fragmentário e sectário, sempre respeitei em FMR a sinceridade militante expressa em dois dos seus aspectos singulares: a coragem imensa em confessar e devassar as suas fraquezas humanas e políticas quando foi torturado pela PIDE e que o levou á capitulação e à denúncia na sua última prisão e já militando na CMLP/FAP (dando, disso e publicamente, um longo e pormenorizado testemunho); o ter morrido como comunista, já no século XXI, a confessar, contrariamente aos seus dúplices concorrentes do PCP, que, até ao fim dos seus dias, mijaria neo-estalinismo apontado para a sanita ideológica do marxismo-leninismo. Acontece que, logo a seguir à fuga de Peniche, FMR foi considerado com méritos militantes comunistas e revolucionários suficientes para ascender ao mais elevado escalão da direcção do PCP, o da sua Comissão Executiva. E não é, não deve ser, a posterior cisão em 1964 verificada no PCP (onde o maoísmo afiliou não só FMP como outros destacados militantes comunistas de então) e muito motivada pelo diferendo sino-soviético que contaminou e cindiu o movimento comunista internacional, que podem apagar o contributo de FMR na direcção suprema e clandestina das lutas comunistas e antifascistas de 1962, 63 e 64, uma época de fluxo e refluxo combatente das que mais marcaram a luta antifascista em Portugal e que trouxe para a consciência e para a luta muitos milhares de jovens irremediavelmente incompatibilizados com a ditadura salazarista e que constituíram o grosso da geração madura que deu uma parte significativa dos quadros políticos que receberam e transformaram em revolução o golpe militar de 25 de Abril. Tal como Iejov retocava os retratos da corte de Estaline, indo apagando sucessivamente os dirigentes supremos do PCUS banidos e fuzilados (até que ele próprio “saiu do retrato”), FMR foi, durante muitos anos, excluído, após a sua expulsão, da lista oficial do PCP relativa à nomeação dos fugitivos de Peniche. Agora, em democracia, impossibilitada a manipulação mais grosseira e com maior ignomínia, ainda se persiste em colocar, como faz agora o “Avante”, FMR como uma espécie de “ovelha negra” no meio do rebanho cordato e exemplar dos que “permaneceram fiéis ao Partido”, uma espécie de “folha seca” ou carta fora do baralho. Quando, reportando ao facto da fuga e suas consequências imediatas, dos dez fugitivos de Peniche, só a quatro deles, incluindo FMR, se reconheceram aptidões para integrarem a Comissão Executiva do PCP. Mas o que de mais ridículo, ou simplesmente risível, tem esta diminuição com efeitos retroactivos de quem foi um dirigente do mais alto escalão hierárquico do PCP, é o facto curioso e contraditório de o “crime político e partidário” de FMR, a sua atracção e envolvimento com o “sino-comunismo”, se manter hoje como repulsa de consideração mínima para com um seu antigo dirigente e numa fase em que o PCP, mudando mais que aquilo que FMR mudou, milita na aberração da adoração do PCP perante o comunismo chinês da actualidade, perdoando todos os crimes que o PCCh, máquina condutora de uma das formas mais selvagens de capitalismo, uma degenerescência do maoísmo que “antes de tempo” atraiu FMR, comete, todos os dias, hora a hora, contra os trabalhadores, o povo e as suas etnias, violando todos os direitos sindicais, sociais e humanos.
 
Quanto a Jerónimo de Sousa, decerto depois de consultar a biblioteca do PCP pois que antes de 1974 a sua militância esteve muito concentrada na agitação em bailes de salão e na experiência como polícia militar a verificar os atavios dos soldados stressados pela guerra colonial quando circulavam em Bissau, no seu discurso evocativo da fuga de Peniche, não deixou de referir:        
 
“Decisivo, nesse sentido, viria a ser o grande debate ideológico que, logo a seguir à fuga, se desenvolveu em todo o Partido e que culminou na reunião do Comité Central de Março de 1961 – que elegeu para Secretário-Geral do Partido o camarada Álvaro Cunhal – e na qual se procedeu a uma profunda análise ao trabalho de direcção do CC nos anos anteriores e se submeteu a uma severa crítica o desvio de direita que se verificara na actuação do Partido no período de 1956/1959.”
 
Mas se, nesta penada, Jerónimo “arruma”, sem os referir pelo nome, dirigentes com a importância de Fogaça, Pato, Dias Lourenço, Pires Jorge, Magro, Abrantes e muitos outros, ou seja, toda a direcção e militantes com altas responsabilidades (os que participaram no V Congresso em 1957 e levaram as suas decisões à prática) que, antes de Janeiro de 1960, não estavam presos, ele “esquece-se” do “desvio” que se seguiu ao “desvio de direita (56/59) e à fuga de Peniche, o famoso “desvio de esquerda (62/64)” e que, posteriormente, o VI Congresso realizado em Kiev em 1965 haveria de condenar ao mesmo nível daquele que Jerónimo se lembrou ou de que parcialmente o informaram. È que este “desvio de esquerda”, uma guinada radical e radicalista relativamente à “gestão Fogaça”, imbuído de uma crença voluntarista na radicalidade do potencial das acções revolucionárias de massas e na possibilidade do imediatismo da queda do fascismo se acelerado pelo ímpeto antifascista de 1962, afinal seguido de um refluxo, foi levado á prática e dirigido pela equipa dirigente recomposta após a fuga de Peniche, com a vez de Fogaça ser preso e a nova direcção, incluindo FMP, ser agora dirigida pelo Secretário Geral em funções desde Março de 1961, Álvaro Cunhal.     
 
Pelo seu altíssimo património na sua longa luta antifascista e pela vitória do comunismo em Portugal, podia supor-se que o PCP fosse um bom amigo e respeitador da história. Mas resta-lhe um problema grave e nuclear para que assim não aconteça, o da alergia à verdade histórica, desviando tudo o que contrarie a oficialização da versão consagrada pela direcção em exercício. O que transforma, permanentemente, a lide do PCP com os factos e a história numa permanente cadência de soluços de um historicismo manipulado e manipulatório.  

 

Publicado por João Tunes às 00:38
Link do post | Comentar
1 comentário:
De António Marquês a 11 de Janeiro de 2010
João Tunes, antes do mais obrigado por mais esta recolocação dos factos no seu devido lugar e, consequentemente, por mais esta lição de História.
Infelizmente, o que é abordado neste exaustivo e articulado texto tem sido a prática do PCP (como de todos os PCs de vocação stalinista) ao longo de quase toda a sua existência, mas mais notória, naturalmente, nestes últimos 35 anos. A mentira, a deturpação dos factos, a adaptação da história real aos seus (do PCP) desígnios, tem sido a constante da vida deste partido.
Para quem tem a possibilidade (trabalhando numa autarquia gerida pelo PCP, por exemplo) de cotejar a teoria deste partido com a sua prática no dia-a-dia, esta realidade é, então, confrangedora. Diàriamente
são esmagados os mais elementares direitos dos trabalhadores e esquecidas e atropeladas as suas mais justas aspirações.
É de estranhar é que mesmo já com obras deveras denunciadoras, como, por exemplo, "A Confissão", de Artur London, estas práticas dos PC's stalinistas foram ignoradas ou, até, justificadas por grande parte da intelectualidade europeia, especialmente a francesa, durante largas décadas, levando, assim, concerteza, a uma mais larga e "apoiada" adesão de largas camadas de população ao ideário comunista totalitário.
Também por isso, e porque o "Avante" é semanal, fazem falta textos como o deste post.

Comentar post

j.tunes@sapo.pt


. 4 seguidores

Pesquisar neste blog

Maio 2015

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
15
16
17
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
28
29
30
31

Posts recentes

Nas cavernas da arqueolog...

O eterno Rossellini.

Um esforço desamparado

Pelas entranhas pútridas ...

O hino

Sartre & Beauvoir, Beauvo...

Os últimos anos de Sartre...

Muito talento em obra pós...

Feminismo e livros

Viajando pela agonia do c...

Arquivos

Maio 2015

Março 2015

Fevereiro 2015

Janeiro 2015

Dezembro 2014

Novembro 2014

Outubro 2014

Setembro 2014

Agosto 2014

Julho 2014

Junho 2014

Maio 2014

Abril 2014

Março 2014

Janeiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Junho 2013

Março 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Junho 2012

Maio 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Junho 2010

Maio 2010

Abril 2010

Março 2010

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

Dezembro 2009

Novembro 2009

Outubro 2009

Setembro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

Junho 2009

Maio 2009

Abril 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Outubro 2008

Setembro 2008

Agosto 2008

Julho 2008

Junho 2008

Maio 2008

Abril 2008

Março 2008

Fevereiro 2008

Janeiro 2008

Dezembro 2007

Novembro 2007

Outubro 2007

Setembro 2007

Agosto 2007

Julho 2007

Junho 2007

Maio 2007

Abril 2007

Março 2007

Fevereiro 2007

Janeiro 2007

Dezembro 2006

Novembro 2006

Outubro 2006

Setembro 2006

Agosto 2006

Julho 2006

Junho 2006

Maio 2006

Abril 2006

Março 2006

Fevereiro 2006

Janeiro 2006

Dezembro 2005

Novembro 2005

Outubro 2005

Setembro 2005

Agosto 2005

Julho 2005

Junho 2005

Maio 2005

Abril 2005

Março 2005

Fevereiro 2005

Janeiro 2005

Dezembro 2004

Novembro 2004

Outubro 2004

Setembro 2004

Agosto 2004

Julho 2004

Junho 2004

Maio 2004

Abril 2004

Março 2004

Fevereiro 2004

Links:

blogs SAPO