Quarta-feira, 6 de Janeiro de 2010

A revanche doutorada

 

O livro recentemente editado da autoria de um sargento-mor paraquedista na reserva e actualmente empresário na Guiné-Bissau (*), com uma transcrição da sua tese de doutoramento pela Universidade de Évora em 2005, suscita, desde logo, a curiosidade em se tentar saber se, nos doutoramentos universitários, também se fazem saldos de títulos académicos. É que, no caso vertente, sobra manipulação e faltam investigação e rigor, mingua o suporte e abunda a glorificação autobiográfica, onde devia encontrar-se distância e isenção tropeça-se a eito numa espécie de corporativismo castrense (relativamente à classe de sargentos e ao corpo de paraquedistas), fixam-se ódios, amizades e preferências entre os militares e classes de militares que combateram na guerra colonial, abusam-se das generalizações sem suporte e estribam-se alinhamentos políticos, notoriamente ao serviço de um revisionismo histórico que sirva o realinhamento à direita do corpo militar, numa vingança fria e tardia relativamente ao MFA e ao 25 de Abril.
 
Claro que o doutor sargento mor Rebocho tem direito à sua catarse, mesmo que perversa, relativamente à sua participação activa no levantamento dos paraquedistas em 25 de Novembro de 1975 (em que comandou a ocupação das instalações da Força Aérea em Monsanto, ao serviço da extrema-esquerda militar) e de que pagou um preço disciplinar alto (esteve sob prisão e residência fixa, como consequência da sua participação no 25 de Novembro, entre 1975 e 1982). Como de fazê-lo pela via ideológica de um ajuste de contas tardio com os vencedores do 25 de Novembro, atacando-os agora “pela direita” já que foi então derrotado, com as armas na mão e com uma força de elite sob seu comando, quando os enfrentou “pela esquerda”. Mesmo não parecendo muito valoroso, sobretudo se tivermos em conta que se trata de um antigo “senhor da guerra”, que tenha mudado tanto de campo, “ontem” com Otelo e o Copcon, encostando-se agora à cumplicidade com a direita militar, a que, na ressaca de Novembro, ultrapassou os militares de Abril e se cristalizou há muito na hierarquia militar. Esses direitos do doutor sargento mor Rebocho não são, julgo e repito, questionáveis. O que é interrogável e preocupante, só isso, é que a universidade (no caso, a Universidade de Évora) se preste a premiar com títulos de doutores um candidato ressabiado, sem méritos de objectividade, investigação e estudo, que decide bater-lhe à porta. Para que conste e se registe para vergonha futura, o júri que aprovou o doutoramento foi constituído pelos académicos Adriano Moreira, Joaquim Serrão, Maria José Stock (orientadora da tese) e Maria Colaço Baltazar e ainda pelo Coronel Nuno Mira Vaz.
 
(*)“Elites militares e a guerra em África”, Manuel Godinho Rebocho, Roma Editora

 

Publicado por João Tunes às 00:54
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6 comentários:
De Isidoro de Machede a 6 de Janeiro de 2010
Amigo joão
Dizia o meu avô: E é com cães destes que eu ia à caça?
Da universidade de Évora apenas digo que é um polvo que engordou, engordou, e agora já não cabe na porta do bom senso. Tal como os putos americanos pensavam que os frangos eram produzidos em fábricas, a academia é mesmo uma fábrica de produzir douturolas sem nada na tola.
Aliás, a composição do júri diz tudo!
De Jmonteiro a 6 de Janeiro de 2010
«tentar saber se, nos doutoramentos universitários, também se fazem saldos de títulos académicos»
Nem mais.
Este caso, vem na sequência do que tenho chamado de produto das universidades do Regime.
As que produziram Barroso, Santana e o engº Sócrates.
O parecer do João Tunes, está na linha de uma análise feita por um coronel de artilharia e antigo professor na Academia Militar: Morais Silva.
Análise em tempo enviada quer ás chefias militares quer à UnivÉvora.
É naturalmente de pasmar, embora o capitão de Nov e da RR de 75 (na Buraca), então comandante do futuro sargento-mor doutor possa ser suspeito.
Por não ter gostado muito dele.
E não tencionar agora, ler a prosa.
Jmonteiro
De João Tunes a 6 de Janeiro de 2010
Sei que houve reacções negativas de muitos militares e alguns conflitos que correram e correm em tribunais mas não conheço nem ainda me interessou saber os seus conteúdos. O aborto doutoral é tamanho que não necessita de sublinhados. O conteúdo da tese, o livro, fala por si. É um insulto à universidade e que deslustra principalmente um júri que se qualificou ao nível básico de um grupo de malta porreira pronta a plantar doutores como quem semeia amendoins. Como disse, não critico o Rebocho, ele esticou-se, negou-se nas suas obrigações perante a ética militar, tentou e conseguiu os galões de sargento doutor, conseguiu finalmente a sua catarse. O problema, para mim, é a Universidade de Évora ter-se "rebochado".

Mas acho de todo o interesse ler-se o livro do sargento doutor Rebocho. Pela evidência do despautério académico mas porque, ladeando as paixões e manipulações, há testemunhos sobre a guerra colonial na Guiné que são interessantes. Aliás, porque combati na Guiné e estive em alguns locais onde esteve o sargento doutor Rebocho, considero que se ele, em vez de se enfeitar com fardas académicas camufladas, tivesse publicado, com sinceridade e humildade, as suas memórias das experiências na guerra da Guiné, sem politiquices nem alardes de ajustes de contas, podia ter prestado um bom serviço testemunhal.
De Jmonteiro a 7 de Janeiro de 2010
Perfeitamente de acordo com a conclusão do João Tunes.
Elementar e certeira.

Jmonteiro
De Anónimo a 7 de Janeiro de 2010
Comentário apagado.
De João Tunes a 7 de Janeiro de 2010
Sujeitando-me à natural divergência classificativa, mantenho a leitura que Rebocho se alinha, actualmente e claramente, no espectro político-militar de direita. Não só pela tentativa de recuperar a ideia de excelência militar agregada à célebre "brigada do reumático", a forma como enaltece Spínola e os oficiais spinolistas (estes sim, grandes guerreiros), a forma, por vezes infame, como denigre os do MFA, Costa Gomes e por aí fora, tudo o que lhe cheire a gente de esquerda, mesmo que na sua ala mais moderada. Além de se encostar, com indecência oportunista, a todos os oficiais que singraram quando a direita militar, no pós-25 N, atropelando a esquerda e extrema-esquerda militar e os dos "nove", se apoderou da hierarquia militar numa escalada que teve inicialmente a mão protectora de Eanes, em que Rafael Durão e Kaulza fazem o papel permanente de gurus e ídolos (aqui, encostando-se à extrema-direita e ao corporativismo estreito dos paraquedistas). Para um militar que "saltou" com o levantamento dos páras no 25 N, comandando uma das forças insurretas é obra, mesmo sabendo-se que antes tinha participado na destruição do emissor da RR e agora tenha regressado à Guiné como próspero empresário. Aliás, o anti-abrilismo de Rebocho é o sal e pimenta do seu livro, pondo-se ao serviço e em sentido para com todo o negacionismo dos ressabiados com a revolução e a descolonização. E nem sequer a "guerra colonial" se salvou, passou a "guerra em África" ...

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