Sábado, 5 de Dezembro de 2009

Pelo marxismo-leninismo, facilitando Marx

 

Jerónimo de Sousa, como compete ao líder do marxismo-leninismo português, num interregno teórico entre lutas, discursou para os seus pares na apresentação pública da tradução portuguesa do Livro Segundo, Tomo V, de “O Capital” de Karl Marx. Obviamente que um discurso de Jerónimo não podia faltar em tão solene ocasião. Não só porque ele, Jerónimo, adora discursar, a sua especialidade nas lutas e entre lutas, mas porque, em raciocínio sequencial, se não há marxismo-leninismo sem marxismo, o marxismo (expressão cristalizadora que teria arrepiado Marx) não é concebível sem Marx e o essencial de Marx está em “O Capital”. Isto apesar desta dedução só condescendentemente ser certa se tivermos em conta, aspecto que certamente não lembra nem preocupa Jerónimo, que o conceito de marxismo-leninismo tem pouco a ver com Marx ou com Lenine, não passando, de um absurdo teórico agregado a um embuste totalitário. É que o marxismo-leninismo, desde a sua criação até à actualidade, foi - e continua a ser - uma dogmatização doutrinária elaborada por Estaline, um manual de tomada e conservação do poder, tendo como suporte a experiência do golpe bolchevique de 1917 na Rússia, o domínio revolucionário ali comandado por Lenine e o subsequente processo de transferência de poder absoluto para as mãos de Estaline, dando rigidez monolítica ao estalinismo como matriz doutrinária e código de práticas da ortodoxia pan-russa no movimento comunista internacional. Consequência do marxismo-leninismo que não é de somenos, pelo contrário, foi que, congelando-se na vulgata estalinista, de Marx e Lenine “entrou” nele o que “interessava” a Estaline; tornou-se impenetrável aos contributos de outros teóricos e dirigentes comunistas (Rosa Luxemburgo e Gramsci, por exemplo); gerou a aridez de pensamento criativo e transformador entre os comunistas, entalados, numa dualidade com reflexos nos dramas da prática militante, entre a ortodoxia dogmática e o risco da heresia revisionista; tornou-o imutável em si mesmo, incapacitando-o para estudar as transformações havidas nas sociedades desde os anos trinta do século passado, receber os contributos das descobertas científicas e realizações técnicas mais as profundas mutações nas fragmentações sociais, bem como os aportes de novas disciplinas de estudo (como a psicologia e a sociologia) e a maturidade de outras (como as ciências histórica e económica), o poder de camuflagem, adaptação e sofisticação do capitalismo, entender a evidência dos factores perversos do estatismo, perceber as novas dimensões da comunicação e da estética, com peso crescente na política. Como se fossem seres congelados por Estaline, o que, hoje, os marxistas-leninistas têm para usar e propor, enquanto paradigma de mutação da realidade, é um receituário retro cuja adaptação à realidade exigiria, em violência para com a própria realidade, que a realidade fosse a mesma ou próxima da verificada em Petrogrado em 1917.       
 

Descansar do marxismo-leninismo pelo “regresso” a Marx dá trabalho, muito. Como Jerónimo avisa: Se O Capital, obra maior de Marx, exige de todos os que se entregam à sua leitura um grande esforço de compreensão, este Livro Segundo é de leitura particularmente difícil, onde, para lá da necessária disponibilidade para enfrentar a aridez da linguagem científica, se exige preparação, tempo e estudo sistematizado.”. Mas se ler e entender Marx apresenta o risco de fazer suar os militantes, Jerónimo lembra “Engels que deu um contributo inestimável para que O Capital chegasse até nós, e de seguida Lenine, que o adequou de forma criativa à realidade concreta do desenvolvimento do capitalismo na Rússia”. Tal como Estaline o fez no seu tempo e deixou a respectiva transposição como herança aos comunistas ortodoxos, Lenine, mas o Lenine filtrado por Estaline, é apontado como o adaptador prático-revolucionário da conceptualização de Marx. Mas mesmo Lenine, na sua vasta produção teórica, governamental e ditatorial, ainda é muita areia para a camioneta do militante em luta permanente. E, neste aspecto, poucos existirão com a mesma capacidade de Jerónimo para entender a bondade útil da preguiça teórica típica dos comunistas empenhados e alimentada pela permanente supremacia do tarefismo e do voluntarismo esquerdista-sindicalista da linha actual do PCP. E como entende as alergias a ler, aprender e saber dos seus seguidores, Jerónimo não hesita em facilitar-lhes a vida, indicando-lhes: “O que é relevante é a partir de Marx analisar a realidade dos nossos dias, procurando simultaneamente um enriquecimento criativo desses conceitos e métodos no seu confronto concreto com o que é novo e a aferição dos resultados com eles obtidos pela acção prática transformadora, pela acção revolucionária neles inspirada.”. Naturalmente, esta transposição que vem de Marx, passa por Lenine e desemboca na “prática transformadora” e na “acção revolucionária”, não é passível de ser feita individualmente ou num grupo de discussão. É, inevitavelmente, uma obra colectiva, do colectivo partidário regido pelo regulamentar centralismo democrático, sendo o mesmo que dizer confiar que a direcção do partido, cumprindo a linha do partido, traduza toda essa espiral teórica, confusa, datada e inspiradora em consignas práticas. Para desempenhar tarefas, descansando que serão, certamente, como garante Jerónimo, tarefas marxistas-leninistas. Dando o merecido e útil descanso nas estantes aos "tijolos" com as obras de Marx e outros patronos autorizados, editados porque sim.

 

Publicado por João Tunes às 00:15
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