Sexta-feira, 27 de Novembro de 2009

Tentar tosquiar a história e sair tosquiado

 

António Vilarigues, no “Público”, insiste na sua investida sobre a história. Hoje, pretendeu lembrar um pretenso “ponto esquecido”, referindo o apoio do grande capital alemão à ascensão e domínio do nazismo na Alemanha. Ou seja, aquilo que qualquer iniciado, mesmo que pouco dotado em conhecimentos e se não for mentecapto, sabe. Naturalmente, o “ponto de Vilarigues” não era esta evidência, ele é antes revelado quando escreve: “Desde o início da crise de 1929 todas as classes possuidoras da Alemanha guinaram fortemente á direita. A crise assustava-os. Sobretudo porque conduzia à radicalização das massas, à sua viragem à esquerda. Era o medo que cegava e imbecilizava os políticos alemães.”. Ou seja, a apresentação de um cenário simplista em que os políticos de Weimar de braços dados aos empresários e banqueiros caminharam para levar Hitler ao poder, enquanto ao fundo, politica e pacificamente (supõe-se), as “massas” se radicalizavam e viravam à esquerda, sugerindo uma atribuição unipolar (os políticos de Weimar e os capitalistas) às responsabilidades pelas ascensão do nazismo hitleriano. Tentando revelar, Vilarigues não revela o que acontecia na banda do que eufemísticamente esconde sob o lençol das “massas”. E aí, entre as “massas”, o que fazia o Partido Comunista Alemão (DKP)? Poderoso eleitoralmente mas incapaz de chegar sozinho ao poder, em paralelo imitativo com as práticas nazis, o DKP levava a cabo acções de insurreição, incluindo a armada, poderosamente apoiado pelo Komintern, instituía a linha “classe contra classe”, recusava qualquer entendimento com os sociais-democratas a quem chamava de “social-fascistas” (uma prática de que o próprio Komintern se autocriticaria mais tarde quando guinou para a linha da “frente popular), partilhava o ódio dos nazis para com o parlamentarismo, a democracia e as liberdades, apostados ambos na violência como parteira da história. E foi essa tenaz sectária, com os dois braços simétricos mas articulados (o do nazismo e o do comunismo), que matou a democracia na Alemanha e permitiu a ascensão do extremismo mais poderoso e mais apoiado no quadro maniqueísta e insurreccional em que a Alemanha havia mergulhado. Como incursionista da história, Vilarigues demonstra maiores debilidades que quando se meteu em ambições desmedidas de sonhar vir a ser presidente da câmara de Penalva do Castelo. Nas últimas autárquicas, com o emblema da CDU, só conseguiu convencer 184 eleitores castelenses (3,09% dos votos) a apoiarem-no no seu projecto de ambição política, não conseguindo sequer um lugar de vereador. Duvido que, enquanto metido em trabalhos de “desvendador dos silêncios históricos”, consiga melhor resultado entre quem lê as crónicas mal amanhadas deste autointitulado "especialista em sistemas de comunicação e informação".

 

Publicado por João Tunes às 16:48
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