Terça-feira, 19 de Dezembro de 2006

O FUTURO BOLIVARIANO

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O “problema Chavez” não existe enquanto resultado (confirmado em vários escrutínios) da vontade maioritariamente expressa dos eleitores venezuelanos. Nem é um problema maior relativamente aos problemas do passado pré-Chavez (corrupção e profundas desigualdades sociais) que conduziram a Venezuela aos braços do triunfo do populismo chavista.

 

Do ponto de vista democrático, o “problema Chavez” vai começar agora, já neste mandato. Porque são evidentes os fortes sinais que demonstram que Chavez, considerando-se suficientemente consolidado pelo último reforço eleitoral, se dispõe a resolver, a seu favor, o dilema democracia/revolução. Ou seja, usar a legitimidade democrática que possui para a virar contra o processo democrático, dispensando a continuada avaliação eleitoral em favor do culto absoluto pela dinâmica revolucionária assente numa classe política alçada ao poder. Deste ponto de vista, a limitação de mandatos, a alternância e a pluralidade de partidos passarão a transformar-se de virtudes em escolhos.

 

O primeiro problema na senda chavista de esgotamento da democracia na Venezuela, é a sua base político-partidária face à necessidade de plasmar monoliticamente a sua sustentação no vértice do poder e o seu papel de Caudilho inquestionado (o que é requisito fundamental de qualquer dinâmica revolucionária conseguida). Como se sabe, a ideologia chavista é de uma pobreza confrangedora: exprime-se num cristianismo místico-redentor de catequista básico e maniqueísta, a que adiciona um anti-imperialismo simplista (em que Bush faz muito bem o papel de Diabo), radical e injurioso e um culto jesuítico para com os exemplos de Cuba e Fidel (a simularem os papéis de Céu e Jesus na terra). Esta questão ideológica, aparentemente paradoxal, provavelmente será resolvida num seminário que consiga fundir as criatividades dos bispos com as dos marxistas-leninistas crioulos. Quanto à sua base de apoio partidária, ela assenta em forças neo-populistas caudilhadas, dinamizadas pela casta militar de onde Chavez é oriundo, e no frágil Partido Comunista da Venezuela. Sobre esta questão, essencial para ser resolvida, Hugo Chavez já anunciou o projecto urgente de transformar esta amálgama eclética de apoio numa força política única e homogénea, demonstrando que sabe que sem partido único, criado na hegemonia, não há revolução que persista. Depois, seguir-se-ão as necessárias revisões constitucionais que afastem os impecilhos da limitação dos mandatos e as garantias de lutas por alternâncias. Transformada a democracia em revolução, o que resistir passará automaticamente para o campo da contra-revolução. E para essa, a ementa é a sabida: a censura e a polícia tratam dela. Até porque não há, nunca houve, Revolução sem Terror.

 

Ao nível regional, Chavez sabe que tem, pelo rendimento do petróleo, uma base garantida para iluminar como farol de aglutinação e de alianças, a alimentar o seu sonho de ser o sucessor endinheirado de Fidel. E consiga ele ser o Caudilho da América Latina, demonstrando que Lula “não vai lá” (à revolução), há muito louco perigoso a governar pelas sete partidas disponíveis para o abraçarem.

 

O “problema Chavez” vai começar agora: quando a revolução bolivariana quiser substituir a democracia venezuelana (e saindo-lhe do ventre).         

Publicado por João Tunes às 17:10
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2 comentários:
De JMC a 20 de Dezembro de 2006
"O “problema Chavez” vai começar agora: quando a revolução bolivariana quiser substituir a democracia venezuelana (e saindo-lhe do ventre)".

Não lhe chamaria "o problema Chavez", mas o problema dos venezuelanos. No geral, nada mais certo.

Os venezuelanos irão comprovar que para distribuir corrigindo as acentuadas assimetrias é também necessário produzir.

O monopólio estatal, sem liberdade para inovar e concorrer, correndo riscos, já provou que não conduz ao desenvolvimento; e as receitas extraordinárias do petróleo não dão para tudo nem duram sempre.

No fundo, é o eterno drama do comunismo, chame-se socialismo ou bolivarianismo: a ilusão de que o progresso é a redistribuição da pobreza e não o aumento da riqueza.

Um bom apontamento.
De João Tunes a 20 de Dezembro de 2006
Eu não disse "problema de Chavez", escrevi: "problema Chavez". A mesma diferença semântica entre "problema venezuelano" e "problema dos venezuelanos" ( a que apontou como substituta). E o que queria dizer, claro, é que o "problema Chavez" é o "problema dos venezuelanos" (e não só). Toda a crítica é legítima desde que tenha o rigor como base. Mande sempre.

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