Terça-feira, 24 de Novembro de 2009

Tudo bons rapazes

 

Há uma nítida tendência de revisão histórica sobre o colonialismo, a descolonização e a guerra colonial a espraiar-se em literatura de ensaio publicada e na blogosfera, ambas animadas ou por militares profissionais na reserva ou por antigos combatentes milicianos. É uma espécie de reflexo de curto prazo para com a memória de um envolvimento militar que sofreu um recalcamento sem direito a catarse. Sem hipóteses regressivas, no social, no político e no cultural, sem projecto mobilizador que a empenhe em lutas pela mudança do presente e construção do futuro, há muita gente a querer viver o seu resto de vida sem remorso nem autocrítica, muito menos justiça histórica e política para com os povos africanos (os pretos “terroristas”, "turras" como síntese de ódio pronto a disparar, que se combateram com as armas mas também com a tortura, a prisão, o assassinato, a violação, a assimilação e a corrupção, quando muito dando-lhes o "benefício" das "delícias" - para os "tugas" - de uma cafrealização nos momentos compensatórios do "repouso do guerreiro"), para com acontecimentos marcantes verificados na transição da sua juventude para a primeira idade adulta. Assim, a revisitação da experiência na guerra colonial tende a tornar-se um branqueamento forçado e necessário para reconciliações individuais e grupais que tendem a reintegrar no imaginário colectivo o mito da passagem, dramática mas limpa, de centenas de milhares de portugueses pelos cenários africanos incendiados pela guerra. Lendo-os, aos auto-reciclados da guerra colonial, a impressão que se colhe, quanto à guerra colonial, é a de um patriotismo difuso e serôdio, empenhado numa guerra “limpa”, generosa e que até podia ter sido ganha se a democracia demorasse mais uma década a regressar à política portuguesa, e que, no mínimo, foi geradora de uma vivência de fraternidade de bons amigos e camaradas de armas. É, claro, uma memória filtrada dos “sobreviventes da guerra”. Sem actos assassinos e indignos, sem a génese da ocupação de "terra alheia", sem os muitos milhares de mortos e estropiados nos dois lados da guerra, sem os efeitos devastadores para o reencontro de Portugal com a democracia que teve de fazê-lo após gerações terem passado por treze anos de guerra em África e onde se tinham consumido enormes recursos (na fase final do fascismo-colonialismo, cerca de metade do Orçamento era consumido em gastos militares com a guerra colonial) e cedendo-se a independência aos países africanos num cenário político de transição de guerra pela independência para guerra civil, onde se forjaram, simetricamente, elites políticas militarizadas e formadas no marxismo de guerra.
 
A polícia política do salazarismo-marcelismo, a PIDE depois rebaptizada de DGS, foi o braço direito do exército colonial em África, no período 1961-1974. Militares e polícias políticos foram “unha com carne” na guerra colonial. Cada qual desempenhando o seu papel, mas casando-os sempre na maior intimidade e impunidade. Por muito que custe aos memorialistas da revisão em marcha, foi assim.
 
 
Imagem: Desenho de Malangatana (“Sala de castigo da Pide”)

 

Publicado por João Tunes às 13:08
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1 comentário:
De paulo santiago a 25 de Novembro de 2009
Quando cheguei, em 70, ao meu pelotão,estava lá
colocado um Fur. com especialidade de Informações...
achando estranho, foi-me explicado que o tipo matara
um prisioneiro à pancada, lá para o Norte da Guiné.
Transferiram-no, e corria um processo que daria lugar
a pesada pena,acompanhada de mais uns largos meses a acrescentar de comissão. Apesar de colocado
no meu pelotão, nunca lá fez nada, continuava como
Info na CCAÇ a que estávamos adidos.Estranhamente,
passados uns dois meses, veio embora, sem pena e
sem acrescento de tempo na comissão...influências da
PIDE, foi o que constou e...acreditei.

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