Quarta-feira, 18 de Novembro de 2009

Porreiro, Zé

 

A corrupção é como porcaria de cão que se nos agarra ás solas dos sapatos. Andamos, pisamos, já está. Ela anda aí como sempre esteve cá. E não se pense que é doença da democracia. O salazarismo-marcelismo segregou-a sempre nos cães velhos, sábios e protegidos, os avôs e os pais dos cachorros poluidores de agora. Tanto e tão eficazmente que se entranhou culturalmente num povo habituado mas desesperado com as carências e que, no entanto, se considera esperto e desenrascado. Se a corrupção gera desequilíbrios, por mor das escalas e contradições conexas, também normaliza e institui a idiossincrasia. Aliás, muita da parametrização da sobrevivência e da ascensão social neste país filiou-se na espiral da cunha, do pedido, do favor, do esticar do direito e da regalia, do abuso a ver se pega, da falcatrua, seja esta micro, pequena, média ou grande. O legionário barrigudo e boçal de antigamente urbanizava a prole pedindo empregos na cidade para os filhos ao padre ou ao regedor. Os já urbanizados por baixo pediam ao doutor ou ao engenheiro. Os urbanizados pelo meio pediam ao vizinho que conhecia a amante do chefe do gabinete do secretário de estado. Os urbanizados por cima e os latifundiários putanheiros, bêbados e ginastas da roleta, untavam mãos aos alfandegários, usavam o proteccionismo do fascismo isolacionista ou convidavam ministros para caçadas para lhes sacarem despachos favoráveis. Tudo se fazia mas nada acontecia nem se sabia porque os aparelhos policial e judicial tinham trela ligada à mão do ditador e o lápis azul da censura velava pelo pudor face à verdade podre do regime. A revolução foi um interlúdio que não nos descontinuou a cultura. Por falta de tempo ou de arte. Mário Soares, o patriarca da redemocratização, não só cortou as veleidades da solução bolchevique e mandou os militares políticos reformarem-se para que os outros voltassem aos quartéis como repôs a marcha da idiossincrasia portuguesa. Ele próprio teve sucesso e tornou-se popular por méritos de resistência e bonomia como igualmente devido ao seu laxismo típico. O lastro original do financiamento do PS levou-o a ser um permissivo no que tocava a golpadas de desenrancanços mesmo que gordos. A proverbial tolerância de Soares incluiu estender a manta protectora aos espertos para que a democracia portuguesa nunca fosse verdadeiramente alérgica ao desenrascanço tout court que, por dinâmica própria e porque a carne é fraca, leva à fraude e à corrupção. Os partidos do regime adaptaram-se. Os de direita, pelo cavaquismo, criaram as sinecuras pela alta, a bancária e empresarial. Manigância de gente fina por enriquecimento galopante. Os do PS andam na baixa e média, mas desejosos de subirem como os da direita, por um despacho permissivo, uns favores a sucateiros, envelopes e carrões, coisas assim, umas menores e outras maiores. Com ambos a distribuírem empregos pela máquina do Estado, gerindo inevitavelmente mal a contradição de não dar para os dois. Os do PCP fazem o nepotismo baixinho e lateral pelos cargos, empregos e assessorias nas suas coutadas, autarquias e sindicatos, onde chegam. Os do Bloco não dão provas por falta de meios, embora a experiência solitária de Salvaterra faça prever o pior caso cresçam em poder e mando. No meio de tudo isto, Sócrates é uma síntese. A da velha-nova idiossincrasia portuguesa, agora vestindo Armani e amante, tipo bimbo  exclamativo, das novidades tecnológicas. É um típico político fura-vidas, provinciano fino como um alho, palavroso, não mostrando amor pelos escrúpulos, sem cultura nem estatura mas enérgico e optimista, o desenrascado sempre enrascado em trapalhadas e em fífias, o género de pessoa que não se deseja sequer cumprimentar. Bem que podia, para mais chamando-se José, surripiar a inspiração de Rafael Bordalo encadernando-se como novo e emblemático Zé Povinho. O que talvez o ajudasse a ganhar eleições para o resto da vida.

 

Publicado por João Tunes às 16:58
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4 comentários:
De IsabelPS a 18 de Novembro de 2009
Até que enfim que alguém diz (quase) o que eu ando a pensar de há umas semanas a esta parte: estes trapaceiros são filhos do povo.
De Sousa a 18 de Novembro de 2009
Que perfeita descrição.

A próxima vez que ouvir alguém dizer:



"...mas no tempo do Salazar não havia corrupção..."



Chamar-lhes-ei incultos graças a si João.
De nuno granja a 19 de Novembro de 2009
brilhante!
De Jorge Conceição a 19 de Novembro de 2009
Excelente diagnóstico analítico!!!

Talves o GRECO (Grupo de Estados do Conselho da Europa Contra a Corrupção) venha a fazer a fazer sobre Portugal um relatório preliminar idêntico ao que fez sobre a Itália: "A corrupção em Itália é profunda e sistémica: é uma questão cultural e não apenas de leis" (http://bit.ly/1rD9JN). E conclui afirmando que "o sector privado é crucial (na prevenção contra a corrupção), pelo que terão de ser submetidas a auditorias tais que assegurem que as sanções daí correspondentes sejam efectivas, porpocionais e dissuasoras".

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