Segunda-feira, 16 de Novembro de 2009

Pides cubanos

 

Yoani Sánchez decidiu expor no seu blogue imagens captadas dos esbirros castristas que têm como missão segui-la e controlar-lhe os passos. Ficam para memória futura, os rostos destes pides que provavelmente dirão, quando a democracia chegar a Cuba, que “se limitavam a cumprir ordens”.  Lá como cá nos idos de 74.

 

 

 

Publicado por João Tunes às 22:55
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7 comentários:
De Martinus a 17 de Novembro de 2009
Não conheço a história, mas se eu sair à rua e destar a tirar fotos a estranhos e colocar no meu blog como sendo abusadores sexuais de crianças, isso não faz dessas pessoas pedófilos...
De João Tunes a 17 de Novembro de 2009
Vou partir do princípio que o comentador não pertence ao núcleo de admiradores cúmplices dos esbirros das ditaduras. Fosse esse o caso e não lhe responderia.

Decerto não se deu ao trabalho de seguir o link para o blogue de Yoani Sanchez. Se o tivesse feito, verificaria que aqueles esbirros são sistematicamente os mesmos que lhe vigiam a casa e os passos e recentemente a maltrataram e sequestraram para a impedirem de se aproximar de uma manifestação ocorrida em Havana. E há comportamentos que revelam um pide por muito que tentem disfarçar (como bem recordo desde que tive, aqui, uns quantos deste género à minha perna antes de 74). Pode haver um ou outro que consiga camuflar-se mas os da "vigilância" topam-se bem.

O exemplo que deu não cola. Se vc concretizasse a hipótese que colocou, estava sujeito a responder em tribunal. Decerto os "falsos pedófilos" não se ficariam perante a calúnia. Ao mesmo se sujeitaria Yoani se desatasse a publicitar "falsos pides". Mas o que provavelmente vai acontecer é que os "pides" fotografados vão rodar no seu serviço (mas como ficaram com as caras conhecidas perdem "valor operacional") e outros virão tomar o lugar destes e talvez actuem mais discretos para não se revelarem tanto. De qualquer forma, a atitude de Yoani inibe a impunidade repressiva e, só por isso, considero-a positiva e corajosa.

Perante um mulher jovem e lutadora contra uma ditadura, face a gente que vive da delacção e da vigilância de outros, eu estou totalmente do lado de Yoani.
De Martinus a 17 de Novembro de 2009
Agradeço o esclarecimento, João.

Eu não vivi no tempo da ditadura do Estado Novo - e já visitei Cuba por isso falo do que sei -, mas pelo que leio e li, e o João tendo vivido e tendo sofrido na pele as agruras dessa vida, não lhe parece despropositada a comparação entre Portugal do Estado Novo e da Cuba dos nossos dias, logo despropositada a comparação entre os pides e os funcionários do regime cubano.

E digo isto, porque, para além das diferenças ideológicas, que são óbvias, para mim a questão de fundo é: Portugal era um país onde se passava fome, depois houve uma guerra e mortos, havia um isolamento por opção própria, logo a vida dura era uma opção do próprio Estado, pelo que caberia ao Estado defender-se e defender a sua opção, calando os opositores.
No caso de Cuba, não há fome. Há educação para todos, inteirmanete gratuita. Não há guerra. E o isolamento que existe é motivado por um embargo criminoso. Há uma opção, sim, de Cuba se manter anti-imperialista, porque os seus líderes entendem que a potência imperialista que foi expulsa - e bem expulsa diga-se - do território não pode vencer essa guerra. Portanto, quem defende que Cuba deveria aceitar todas as condições impostas pelos EUA está contra a sua própria história. Que muitos adolescentes cubanos queiram ter telemóveis topo de gama, Ipods, etc, no fundo queiram aceder ao mundo consumista, eu compreendo. Mas tenho de compreender que o Estado e os seus líderes que lutaram e que arriscaram as suas vidas e perderam muitos companheiros nessa luta tenham uma visão diferente.

Há uns tempos, li o embaixador de Portugal em Cuba dizer que a prostituição existente em Cuba é motivado não por razões de sobrevivência, porque ninguém morre à fome em Cuba e todos os bens essenciais que faltam é devido embargo, mas pela esperança que muitas jovens acalentam em adquirir artigos de luxo que de outra forma lhes está vedado o acesso. Apesar de considerar uma esperança legítima, não podemos deixar de pensar que em Portugal há pessoas a prostituirem-se para poderem comer, e isso é um atentado bem mais gravoso à liberdade.

Portanto, João, fico triste quando vejo comparações entre regimes tirânicos, beligerantes e autoritários com Cuba, que, apesar de alguns atentados à liberdade individual - que os há, reconheço - considero que, perante as circunstâncias que envolvem aquele país desde 1 de janeiro de 1959, devemos pensar qual seria a alternativa. Porque considero Cuba um dos poucos bastiões da verdadeira liberdade. Não falo da Coréia do Norte, nem da China, etc, etc, porque incluo esses países no lote de ditaduras tirânicas.

Mas Cuba é diferente. Acredite.
De João Tunes a 17 de Novembro de 2009
Caro senhor comentador (é uma lástima que não assuma a sua identidade além do nick name), permita-me três pontos que vão ser colocados com toda a sinceridade e frontalidade.

1) Por inércia da velha prevenção que adquiri, no tempo da outra senhora, contra os pides daqui, confesso que admiti que vc pertencesse à brigada brejnev que, agora, ataca na blogosfera, gritando "anticomunista!" a tudo quanto conteste os seus budas ideológicos. Mas o seu texto revela sinceridade de pensamento, base primeira e suficiente para continuar uma conversa de que lhe agradeço o pretexto e a participação.

2) Tenho armazenado, na minha memória político-pessoal, um tempo longo de adesão a uma visão partidária do mundo em que tendo tido a oportunidade de visitar e conhecer vários países do "socialismo real" (URSS, RDA, Checoslováquia, Bulgária), em missões oficiais como dirigente sindical (da CGTP), como enviado do "Avante" e ainda na condição de turista e à minha custa, fiz uma leitura filtrada e selectiva do que entrava olhos dentro e a que só a perestroika limpou as cataratas (no seu início pois o final já foi uma redundância). Era uma arte que não precisava de ser ensinada pois na luta de classes já tinha aprendido a organização do menu leninista pensante, com o essencial e o acessório, o importante e a distorção, a norma e a aberração, o significante e o acessório, a árvore e a floresta, a separação entre nós e os outros. Vi muito, sublinhei o que interessava, desvalorizei o que incomodava. Mas os registos das evidências das ignomínias não se me apagaram. Ainda hoje ando a revisitar essas memórias recalcadas, desclassificando o interdito, juntando as peças face às revelações que as evidências e os arquivos vão despejando e confirmando. E espanto-me, sempre, com a capacidade que tem o comunismo, que exercitei no meu cérebro, de se fabricar dentro de uma pessoa, por força da crença, a ilusão, a duplicidade e o embuste, mas sobretudo a notável performance de nos dotarmos da fantástica capacidade óptico-intelectual de se olhar sem se ver. Se tanto sei de mim e por mim, como não perceber, com toda a benevolência, a forma como organiza a sua visão categorizada da sociedade cubana, sobretudo no que toca à retórica justificativa? Argumentar consigo sobre a sociedade cubana, acerca dos prós sem contras, seria como dialogar comigo mesmo recuando uma décadas atrás. Poupo-o a isso, preferindo que o tempo lhe permita, se permitir, dialogar consigo próprio.

3) Existem, de facto, “diferenças ideológicas, que são óbvias” entre fascismo e comunismo, entre a realidade no Portugal do Estado Novo e a Cuba dos irmãos Castro. E também diferenças sociais. Mais as diferenças políticas. Vc encarregou-se de listar algumas das mais importantes e não vou contestá-las, embora as julgue carregadas, quanto à parte cubana, demasiado embrulhadas em celofane (viveu as mesmas condições que o cubano vulgar encontra quando, subitamente doente, se dirige a um centro de saúde? a estrutura do ensino superior é igualitária ou selectiva pela fidelidade ideológica ou por laços de sangue revolucionário de família? o acesso a bens escassos é idêntico entre operários, camponeses e nomenklatura partidária?). Mas todas as “diferenças ideológicas”, em termos de comparação dos dois tipos de tiranias, afundam Cuba. Um regime fascista, contra o povo, necessita, por natureza, um aparelho repressivo que iniba os desejos de liberdade e de democracia. Se o fizer, é coerente. Um regime comunista, pelo povo, se constrói um aparelho repressivo idêntico, ou superior, aos fascismos, se não convive com a liberdade e a democracia, é uma aberração, uma negação. A menos que se considere que os horizontes da pessoa humana sob o comunismo sejam ir à escola, limpar as cataratas, alimentar-se, mas sem respirar a liberdade, exprimir-se ou escolher quem governa. Mas se assim se considera, então o comunismo é um fascismo com cuidados sociais mínimos. Quem quer isso? Quantos portugueses do Portugal capitalista, por exemplo os jovens desempregados, se dispõem a emigrar para Cuba? Se vc está de malas feitas nesse projecto, desejo-lhe uma boa viagem e melhor estadia. Com um conselho: lá, não blogue. Por causa dos “funcionários do regime cubano”, sósias dos nossos pides e dos que vigiam e reprimem Yoani.
De Martinus a 18 de Novembro de 2009
O meu nome é Pedro, mas creio que isso lhe diga tanto quanto o nome que escolhi para assinar os post anteriores.

Agradeço a sua resposta com toda a frontalidade, que, vindo de si, outra forma não seria de esperar.

Não tenho qualquer ligação a qualquer partido, nem a uma ideolgia definida, tento pensar pela minha cabeça, ouvindo e lendo muito para que cada vez melhor possa formar a minha opinião e que esse pensamento se reflicta nas minhas acções.

Por isso este pequeno diálogo consigo, pessoa que eu muito admiro, é bastante proveitoso. Porque nem tudo é negro nem tudo é branco.

E continuo com a convicção que não sendo tudo bom, está em Cuba muita coisa que pode servir de base a uma sociedade justa, igualitária e livre. Muito mais que aquilo que temos em Portugal, onde assistimos cada vez mais a um retrocesso em todas as frentes de direitos anteriormente adquiridos, desde a saúde à educação, passando pela habitação e até à própria fraternidade que deveria nortear as nossas relações com o próximo.

Bem, e depois quantas vezes nos queixamos do consumismo e à primeira oportunidade diabolizamos todas as tentativas de construção de uma sociedade que deixa o consumismo de forma?

Às vezes dou comigo a pensar que se calhar somos nós, somos nós enquanto seres humanos que não convivemos bem com a liberdade. Que não conseguimos resistir à tentação do consumismo, da avareza e da alarvidade, minando toda e qualquer construção igualitária.

Não haverá meio termo?
De João Tunes a 18 de Novembro de 2009
Tem de haver, caro Pedro. Com mais democracia e mais liberdade. Uma democracia pode sempre ser o ponto de partida para melhorar uma sociedade, assim se queira. Uma ditadura é sempre uma sociedade bloqueada, a pedir superação, incluindo a do próprio regime. E mesmo que consiga, numa etapa mais ou menos longa, satisfazer necessidades básicas (decididas, assistencialmente, de cima para baixo), conseguindo equilíbrios sociais, acaba sempre por empurrar as dinâmicas sociais para becos sem saída, seja ao nível do económico, do bem estar, da cultura, da política. Simplesmente porque a criatividade morre onde a liberdade e a escolha faltam. Então, apodrecer é uma questão de tempo.
De nuno granja a 19 de Novembro de 2009
Pedro,


Pena qua não veja o obvio em termos do que as ditaduras são, neste caso nos seus extertores finais.

No 25 de Abril eu tinha 12 anos, o meu avõ materno era presidente de junta de freguesia no Porto e como tal "da situação" e tinha 4 filhos todos contra "a situação", sendo dois deles militantes do PCP. Lembro-me perfeitamente dos "zunzs zunzs" de que os meus pais tentavam manternos ao largo, embora com alguma dificuldade, como por exemplo quando a minha tia candidata pelo CDE em 1973 foi prontamente despedida da Oliva. Já no pós 25 de Abril "bebi" todas as histórias que os meus 2 tios do PCP contaram na primeira pessoa sobre os ultimos anos da ditadura.

Ora se há coisa que me lembro ao ler a Yoani é dos relatos dos meus tios sobre o que era ser novo e pensar diferente num pais bafiento, abafado e pisdesco.


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