Terça-feira, 19 de Dezembro de 2006

Леонид Ильич Брежнев

(19.12.1906 / 10.12.1982)

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Se tivermos em conta o processo pós-soviético na Rússia, não surpreende o que se pode ler hoje:

 

“"Objecto de desprezo na sua época, Brejnev é hoje reabilitado na consciência nacional e provoca entre os russos sentimentos de nostalgia", afirma o politólogo Boris Kagarlitski, citado pela AFP. "Sob Brejnev, a polícia secreta não entrava pela casa das pessoas, como sob Estaline, e os criminosos não o fizeram como depois de [Boris] Ieltsin", acrescentou.”

 

A Rússia já não é um Império, não é uma Super Potência. Não influencia o mundo além do poder das suas matérias-primas e do seu armamento. E se ainda assusta ou sobressalta, é mais pela forma maquiavélica e brutal como resolve os desentendimentos políticos, as críticas e as denúncias dos abusos e desmandos. Também pelas formas tentaculares como a “máfia russa” actua mundo fora e está envolvida na grande criminalidade um pouco por toda a parte. E são estes os ingredientes que levam o mundo ainda a respeitar, mais por medo que por consideração, a liderança imperial-policial de Putin. Um respeito recheado de desprezo que se arrasta desde os tempos do bêbado Ieltsin, passada que foi a fase “star” de Gorbatchov (o único líder soviético que conquistou respeito e simpatia mundiais).

 

Internamente, foi rompido brutalmente o tecido de fibras sócio-sintéticas que equilibravam o marasmo da sobrevivência soviética nos tempos de estagnação da era de Brejnev. Ao mesmo tempo que se abriram fundas feridas psicológicas no difundido “chauvinismo de grande potência”, no convencimento de um estatuto imperial que se afirmava num mundo sob o fio da navalha do equilíbrio no domínio bipolar. O descalabro das estruturas económicas e políticas do império gerou uma pauperização brutal e generalizada na população a que só escapou uma camada agiota e capitalista selvagem, a maior parte constituída por antigos quadros do PCUS e da sua polícia política, pois que a consistente nomenklatura comunista foi a base em que assentou a constituição apressada de uma classe capitalista na base da repartição-privatização das estruturas económicas e financeiras do império falido e colocado nos saldos da rapina. Mantendo, no antigo e no novo papel, uma única coerência de atitude: o desprezo absoluto pelo povo, pela democracia, pela liberdade.

 

Neste quadro, como surpreender que domine a nostalgia pelos tempos de Brejnev? E que a aversão maior esteja guardada para com Gorbatchov, o homem que despiu as misérias do sistema? Nas dificuldades tremendas para sobreviver hoje, atascadas no domínio das máfias, como pedir ao povo russo que entenda que a miséria de hoje é a principal herança dos tempos do caquético Leonid?

 

No entanto, no fio de descontinuidades no descalabro sucessivo em que a ex-URSS se arrastou desde o fim do consulado Brejnev, uma tónica se mantém e ameaça perdurar – a essência do estado policial, construído e desenvolvido pelos bolcheviques, a quinta essência evolutiva do marxismo-leninismo (do domínio da classe operária para o domínio do partido e depois deste para o domínio da polícia). Foi assim no processo que levou de Lenine até Brejnev, com um pico paranóico no mando de Estaline. E de tal forma a essência policial do regime se tornou orgânica que a sucessão de Brejnev se consumou na entrega da liderança ao Chefe do KGB (Andropov). A União Soviética tinha chegado a uma forma tão esquizofrénica de governar que os herdeiros de Brejnev não encontraram melhor solução que entregar o comando supremo ao Chefe da Polícia (especialista em enviar descontentes e dissidentes para hospitais psiquiátricos). Como hoje, em que, desde a Presidência até praticamente todos os poderosos do Kremlin, quem mais manda são antigos oficiais do KGB (mantida mas convertida em FSB). E neste aspecto, os russos não têm que ser nostálgicos de Brejnev, pois que a … polícia continua.

Publicado por João Tunes às 13:31
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