Quarta-feira, 11 de Novembro de 2009

O Daniel e o sulfídrico, salvo seja

 

Não conheço pessoalmente o Daniel Oliveira, embora conste da tábua cronológica que andámos juntos em tentativas partilhadas de reconstrução de utopias partidárias, mais parvas que factíveis, ao tentarmos reformar o irreformável, sem percebermos ambos que a matriz estalinista do marxismo-leninismo era inexpugnável. Nem tudo que ele, Daniel Oliveira, prolixamente diz aqui, ali e acolá, eu concordo. E já me repugnou uma sua sacanice blogueira antiga, em que cuspiu no caixão de Cândida Ventura, felizmente ainda hoje vida e com inteligência, e lucidez que nos pedem meças, a mim e ao Daniel Oliveira. Mas reconheço que é um comentador a quem o tempo acrescentou sabedoria e honestidade política. E escreve bem e directo, sem rodriguinhos e com absoluta frontalidade. É, no debate, cá dos meus, um homem que corre riscos, cumprindo assim um papel estimável na dissipação dos nevoeiros da duplicidade e do politicamente correcto que causam estragos medonhos nos bloqueios com que a esquerda se entrincheira nas suas posições tácticas tão pequeninas. Será, talvez e para remissão da sua heterodoxia bloquista, um dos últimos blogo-discípulos de Rosa Luxemburo, a espartaquista exótica que entendia como conciliáveis a verdade e a revolução. Os tranquilos da tranquilidade do dogmatismo dos parvos conformistas que descobriram em Estaline um abrigo para órfãos comunistas, sobretudo os do lumpen da brigada brejnev que urinam na blogosfera, não lhe perdoam a forma tão pouco leninista com que o Daniel Oliveira procura encontrar caminhos que casem socialismo anticapitalista com liberdade plural e sem que isso engorde contas da social-democracia neo-liberal. Sem lhe pedir retribuição, eu sinto-me, honrando as diferenças, cada vez mais próximo do seu método de pensar o mundo, o capitalismo e o socialismo. Se calhar, um dia, e passando a ironia, ainda acabamos a confraternizar algures como re-camaradas.
 
Aqui, está um excelente, lúcido e honesto texto de Daniel Oliveira. Vale a pena lê-lo, bem como a miséria anexa dos comentários do lumpen da brigada brejnev que fazem mais pelo anticomunismo que a legião de antigos pides que ainda não foram desta para pior. O que torna fácil perceber porque é que o Muro e as outras peças do dominó caíram de podre mas com o sulfídrico intenso do estertor a demorar a dissipar-se nos ventos da História.
 

Imagem: Só podia ser uma do Pedro Vieira, um sacana genial que desenha mil discursos numa qualquer espécie de “rabisco”.

 

Publicado por João Tunes às 15:51
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