Quarta-feira, 11 de Novembro de 2009

Enke, o atleta que veio do frio e que para o frio voltou cedo demais

 

Enke era um grande guarda-redes. Vindo em 1999 para o Benfica, muito jovem mas já credenciado, coube-lhe amenizar a falta que a equipa sentira com a retirada de um dos melhores atletas do mundo naquela posição (Preud’homme). Encontrou o Benfica em maré baixa, com uma defesa fraca em que os caminhos para a baliza eram percorridos facilmente pelos avançados adversários. Enke, que se fazia notar pelo profissionalismo e pelo afinco que colocava na sua preparação, colmatava com enorme talento as fragilidades colectivas, fazendo o que lhe competia, reduzir os estragos. E muitos ele evitou. Tantos que a massa adepta desconsolada com a equipa tinha para com Enke uma estima muito particular. Mas enquanto Enke crescia como atleta e como homem, o Benfica estagnava na sua longa viagem pela mediocridade. Enke não entendeu que a única posição em que se brilha e evolui numa equipa frágil é exactamente a de guarda-redes. E eram as debilidades de então do Benfica que não só o punham à prova como realçavam as suas qualidades. Faltou-lhe inteligência e sensatez para compreender isso. Bem como saber ler nos astros da mística desportiva que num clube como o Benfica, com a grandeza ímpar do Benfica, as “travessias do deserto” estão condenadas a chegarem ao fim. E, em 2002, rumou ao Barcelona com uma notável falta de elegância no respeito devido para com o clube que o estava a tornar famoso. De uma forma rude, arrogante, mal educada e ingrata, Enke declarou então que trocava o Benfica pelo Barcelona porque precisava de jogar numa grande equipa para chegar à selecção da Alemanha. Mas falhou clamorosamente no Barcelona, iniciando um trajecto por pequenos e médios clubes, muitos furos abaixo do Benfica, mesmo o Benfica da maré baixa. E confirmando a tese de que os guarda-redes se notam mais e mais evoluem nas equipas menos talentosas e menos sonantes, Enke chegou à Selecção do seu país. Tinha declarado há pouco tempo que gostava de voltar a jogar no Benfica, o Benfica de agora, o de génios à solta e que anda nas bocas do mundo. Talvez para se redimir da forma nada cavalheira com que trocara o Benfica pelo Barcelona. Agora que, com 32 anos, atingindo portanto o princípio do patamar da fase de maturidade dos guarda-redes, o “Hannover 96”, última camisola que envergou, já era um clube demasiado estreito para as suas ambições e talento. Mas Enke não vai voltar à baliza do Benfica. Este atleta originário da RDA, um dia depois de fazer vinte anos que o Muro de Berlim caiu, decidiu deixar de jogar e de viver. A tragédia de uma pessoa, daquelas tragédias pessoais que não têm defesa (e haverá maior tragédia que a perda de um filho?), não deixa espaço para qualquer rancor. Como adepto e sócio do Benfica, declaro-o "regressado" ao maior clube do mundo. Como guarda-redes honorário. Até sempre, Enke.

 

Publicado por João Tunes às 12:26
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7 comentários:
De Francisco Cavaco a 11 de Novembro de 2009
Bonito elogio a Robert Enke.
De Miguel Torres a 12 de Novembro de 2009
Isto sim é ser do Benfica.
Um abraço
Miguel Torres
De João André a 13 de Novembro de 2009
Enke, caro João, Enke. Sem "H". De resto, aplauso pelo post.
De João Tunes a 13 de Novembro de 2009
Tem toda a razão, já corrigi. E muito obrigado pela chamada de atenção. O texto saíu a quente e a asneira repetiu-se por inércia.
De João Tunes a 13 de Novembro de 2009
Afinal, fui atrás da sua conversa de uma forma um bocado carneira, caro João André. Verificando melhor, o apelido do malogrado guarda-redes aparece vulgarmente escrito sob as duas formas: Enke ou Henke. Aqui (http://www.monstersandcritics.com/sport/soccer/article_1334419.php/Hannover_picks_new_captain) e em muitos outros sites, aparece Henke, noutros como Enke. Não domino a língua alemã para declarar a grafia mais correcta. No post, fica Enke só para lhe fazer a vontade e evitar as suas alergias mas, sff, recolha a mão do puxão de orelhas. Ou então tem muito trabalho pela frente a corrigir tantos que, em todo o mundo, nomeiam o malogrado atleta como Henke.
De João André a 14 de Novembro de 2009
Caro João, não se trata de um puxão de orelhas, apenas uma chamada de atenção. Por outro lado, só porque outros cometem erros não há razão para nós os cometermos, não é verdade?

A diferença entre uma e outra grafia não é menor, mesmo que lido em português soe o mesmo (o nosso "H" é mudo). Em alemão, contudo, o "H" tem um som levemente expirado com a parte superior da garganta, peloq ue faz diferença escrever "Enke" ou "Henke". Imagine a diferença de escrever "Tunes" ou "Tounes", por exemplo.

Pode confirmar a forma correcta de escrever o nome no artigo da Spiegel. Mesmo que não saiba alemão pode ver como está escrito o nome. E a Spigel é das melhores publicações (no que toca à escrita) da Alemanha.

Cumprimentos e nãoi veja nisto um puxão de orelhas, não é essa a minha intenção. Aliás, nisto de grafias estou a preparar-me para ver o festival de asneiras no jogo de hoje à noite, quando os comentadores disserem os nomes dos jogadores bósnios.
De João André a 14 de Novembro de 2009
Esqueci-me do link para o artigo da Spiegel:

http://www.spiegel.de/sport/fussball/0,1518,660709,00.html

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