Terça-feira, 10 de Novembro de 2009

O depoimento de Sacha

 

Há dias, entre os programas televisivos dedicados à queda do muro, apanhei um documentário-reportagem (julgo que na SIC-N) de que não lembro o título, a autoria e a produtora. Estava muito bem feito, passaram versões das várias partes, tinha uma poética estilística (sobretudo eficiente a captar os sentimentos dos “nostálgicos”) e um pudor heróico na recolha de depoimentos de antigos agentes e informadores da Stasi, a densidade fílmica era excelente. Como quase todos os documentários sobre o tema, deixou-me um peso doloroso pelo alcance aproximado e proporcionado às caves das ignomínias cruzadas, as humanas e as sociais, cometidas em nome do mais belo ideal (utopia) que considero ter habitado o desejo humano de justiça desde que a sociedade existe.
 

O momento mais pungente e mais revelador do documentário televisivo concentrou-se numa personagem real entrevistada, um tal Sacha. Foi como assistir ao depoimento de um pide vermelho. Sacha foi um dos informadores da Stasi mais prolixos, eficientes e produtivos. Representava a figura do intelectual inconformista e irreverente, era escutado, estimado e reverenciado nos meios intelectuais da RDA pelo seu estatuto de referência crítica face aos padrões rígidos da condução da vida cultural leste-alemã. Com base nesta capacidade de aceitação e penetração, Sacha sabia de quase todas as concordâncias e dissonâncias ocorridas na vida cultural da RDA durante as décadas da sua existência. Bem como sobre os afectos, os gostos e os desgostos dos agentes culturais. Mais os casos de amor, ódio e sexo ocorridos no meio. E de tudo quanto ele sabia, relatava escrupulosa e fielmente para que os chefes da Stasi lidassem com as ovelhas culturais da RDA (ele reconheceu que sempre disse TUDO à Stasi). Desmascarado na queda da RDA, Sacha tornou-se o informador da Stasi mais denunciado e odiado, o símbolo maior da perfídia do Estado policial paranóico em que a RDA se transformara. Foi julgado e cumpriu algum tempo de prisão. Com barba crescida, com um esgar cínico misturando amargura e culpa, denotando uma inteligência privilegiada e a memória exercitada típica dos espiões, Sacha confessou os meandros do seu zelo frente a um copo de cerveja. No fim do seu depoimento, seco e sucinto, Sacha contou como viveu a noite de 9 de Novembro de 1989. Com um timbre que aparentava sinceridade, e todo o seu depoimento pareceu um encontro com a verdade, Sacha disse que quando a mole imensa de berlinenses de leste se dirigiram ao Muro para passarem a Berlim Oeste, ele esqueceu-se que era da Stasi e, sentindo um apelo de libertação, juntou-se à multidão, misturou-se nela, foi e voltou através da frecha no Muro, embriagando-se naquela euforia de liberdade, alívio e esperança. Celebrando e não espiando. Verdade ou mentira, este depoimento, esta revelação, é o melhor retrato que conheço sobre o que eram o Muro e a RDA.

 

Publicado por João Tunes às 23:29
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5 comentários:
De Ana Paula Fitas a 11 de Novembro de 2009
À revelia do tema, posso pedir-lhe que leia umas "Perguntas Insidiosas..." que me andam a "atazanar" o juízo?... lá no A Nossa Candeia... e, se puder ajudar-me a pensar, agradeço, claro está :)
Abraço
De João Tunes a 11 de Novembro de 2009
Claro que li. Eu sou um seu leitor compulsivo. Mas para ajudar jovens a pensar, sobra-me idade. Nem com manivela conseguia descarregar a areia da sua camioneta.

De Ana Paula Fitas a 12 de Novembro de 2009
Solicitada ajuda ao Mestre para bem-pensar, recebo, na "volta do correio", um tão honroso elogio?!... reticências, só mesmo à ideia do "sobrar" porque o saber nunca é demais... e comentários, aqui ficam dois, a propósito da areia: a) a areia cola-se-nos à pele; b) pesa como o mundo, a areia depois da chuva...
Grande abraço :)
De Ana Paula Fitas a 14 de Novembro de 2009
:)

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