Terça-feira, 3 de Novembro de 2009

Do gulag ao gulash

 

O oportuno artigo de Pere Rusiñol sobre os acontecimentos na Hungria antes da queda do Muro começa com esta frase inspirada:
 
El gulag de la República Democrática Alemana (RDA) de Erich Honecker, que aún era estalinista cuando en la mismísima Unión Soviética ya se llevaba la perestroika, acabó siendo víctima del gulash.
 
Não tem sido considerado na conta devida as transformações húngaras sob influência da perestroika, nomeadamente na cúpula e na linha política do partido comunista no poder (*). Mas a corrosão dos equilíbrios e solidariedades internas ao Pacto de Varsóvia teve no pólo húngaro um importante factor de desgaste, nomeadamente a decisão tomada em Maio de 1989 de abrir a fronteira entre a Hungria e a Áustria (na foto, a polícia húngara retira o arame farpado de separação). E como o turismo nos países comunistas europeus estava praticamente restringido aos países da “comunidade socialista”, esta abertura de fronteira na Hungria fez disparar para números impressionantes o fluxo “turístico” de cidadãos vindos dos outros países comunistas, sobretudo alemães de leste mas não só, que se deslocavam massivamente à Hungria não para ali passearem mas para passarem para ocidente através da fronteira húngaro-austríaca.  
 

(*) – Lembro-me das aflições na altura pelas quais passava uma minha vizinha e amiga, militante do PCP (antes de 1974, tinha estado no exílio e na clandestinidade). Ela trabalhava na Embaixada da Hungria onde, dominando a língua magiar (uma língua difícil e que muito poucos portugueses sabiam), traduzia para português as resoluções e outros textos do “partido irmão” e do governo húngaros. Todos os dogmas estalinistas estavam a ser contestados de uma ponta a outra, incluindo a nova classificação da insurreição de 1956, sempre antes vista como uma “contra-revolução”, e que agora era considerada como uma revolução democrática e popular. A maior parte destes materiais destinavam-se a ser difundidos através dos canais de propaganda interna do PCP. Em vista dos seus conteúdos, as instruções da direcção do PCP, em pânico com tamanho “revisionismo”, era que o material devia ser guardado e escondido e depois destruído bem longe dos olhos dos militantes pois aquelas “atoardas” desmentiam versões marteladas durante décadas pela propaganda do PCP e, para mais, estavam assinadas pela mais alta direcção do “partido irmão”. Assim, a pobre da minha vizinha e amiga vivia o drama político e profissional de retribuir o ordenado que lhe era pago pela diplomacia húngara com trabalho de tradução cujo destino final era a trituradora e o caixote do lixo. Nada fácil era então a vida de uma esforçada militante comunista enquanto difusora de “propaganda contra-revolucionária e anticomunista” produzida ... pelos dirigentes comunistas húngaros. Ficou, para o saldo positivo, o muito proveito que me fez, então, a leitura daqueles textos inutilmente traduzidos e de que a minha vizinha me ia fornecendo exemplares como atestados da sua frustação militante-profissional. Estes e uns números do "Notícias de Moscovo" (edição em castelhano), os quais iam revelando a monstruosidade da repressão estalinista na URSS, que conseguia arranjar vasculhando numa livraria da CDL perto das Picoas, foram a minha segunda iniciação em "literatura subversiva", numa réplica retardada mas tão igual como a que me ocorrera na minha adolescência sob o salazarismo, a da descoberta com espanto, entusiasmo e fé da primeira literatura comunista que me chegou às mãos.

 

Publicado por João Tunes às 13:24
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