Domingo, 17 de Dezembro de 2006

Hitler para conhecimento de Estaline

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Deveras interessante um livro recentemente lançado pela “Aletheia Editores” (*) que é constituído pela tradução anotada de um dossier da NKVD (**) secreto e especialmente elaborado para leitura de Estaline e que resultou dos longos e minuciosos interrogatórios (1948/1949) a que foram submetidos dois oficiais SS (***), prisioneiros dos soviéticos, que tinham convivido muito proximamente com Hitler desde a sua subida ao poder e até os seus últimos dias.

 

O interesse da obra é de vários tipos: a) permite uma visão público-intimista do exercício do poder e condução da guerra pelo ditador nazi, tornando mais perceptível o desenho da sua paranóia e as suas fixações maníacas; b) a dinâmica da apreciação sobre o ditador alemão por parte de dois oficiais antes adeptos convictos do nazismo e seus seguidores e confidentes numa situação de perda do ídolo e derrota no contexto de passarem a prisioneiros do inimigo principal; c) a forma como a NKVD orientou o interrogatório e foi formatando os depoimentos de modo a satisfazer o “cliente”; d) definir o tipo de curiosidades que Estaline nutria sobre a figura de Hitler e que determinaram o menu do interrogatório, dos depoimentos e da síntese policial.

 

No conjunto, o resultado é mais um relatório policial, trabalhado como tal, embora de forma sofisticada, que uma abordagem histórico-biográfica. E as limitações óbvias de uma súmula trabalhada policialmente dos depoimentos de dois nazis derrotados e interrogados pelo “inimigo vencedor”, conduzida e refeita de forma a satisfazer a expectativa da encomenda, evidenciam-se em várias imprecisões e retoques que só se desmontam com a imprescindível ajuda das inúmeras anotações correctivas constantemente colocadas pelos organizadores da edição alemã (Mathias Uhl e Henrik Eberle). Mas as variadas imprecisões são desculpáveis ou reveladoras, na medida em que resultam de lapsos de memória de depoentes no estado de prisioneiros de guerra e do filtro policial soviético que não permitia desvios a caracterizações tabu segundo a expectativa daquilo que Estaline queria saber e queria ler (e não deixa de ser altamente significativo que grande parte da curiosidade de Estaline estivesse orientada para a vida particular e íntima do ditador rival, explicando-se por uma dialéctica de atracção-repulsa, muitas vezes imitativa, que seria a base em que os dois ditadores se viam um ao outro).  Além do mais, a condução particular dos depoimentos e da sua sistematização para as zonas sombra da actuação de Hitler e as suas motivações, atendendo ao conhecimento que os dois colaboradores tinham pelo acesso ao seu círculo mais privado, acrescenta humanidade e dimensão pessoal à forma de pensar, viver e actuar de Hitler. O resultado é altamente positivo tendo em conta a permanente acção de correcção histórica com que os organizadores-anotadores rechearam a obra.

 

Finalmente, não deixa de ser interessante e significante que o “dossier” que resultou dos interrogatórios de Günche e Linge, depois de lido por Estaline e, eventualmente, por alguns dos seus mais próximos parceiros de poder, tenha sido sepultado nos arquivos secretos soviéticos.

 

(*) – “O Livro de Hitler”, Aletheia Editores.

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(**) – NKVD: polícia política e agência de espionagem e contra-espionagem soviética no tempo de Estaline. Antes designada como Tcheka e OGPU, depois como KGB.

 

(***) – Otto Günche, ajudante de Hitler; Heinz Linge, mordomo de Hitler.

 

Imagem do cimo: Obra a óleo “Siamese Twins” (2004), Alla Tkachuk

 

Publicado por João Tunes às 22:18
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