Sexta-feira, 15 de Dezembro de 2006

PINDJIGUITI DIZ-LHES ALGUMA COISA?

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O Massacre de Pindjiguiti na Guiné (Agosto de 1959) foi um acto de barbárie colonial que, a par de outros similares praticados nas restantes colónias africanas sob domínio português (nas roças em São Tomé, no Cassanje em Angola, dos macondes em Moçambique, etc), indicaram claramente, aos dominados, que a violência colonialista de Portugal não tinha limites nem escrúpulos e que só podia ser travada e derrotada pela luta armada. Todas estas barbaridades coloniais, autênticos bilhetes de identidade da natureza do domínio português em África e da prática política ultramarina de Salazar (o ditador que teimosamente se agarrou - e nos agarrou - a África sem nunca lá ter metido sequer um dedo dos pés), tornaram-se depois símbolos importantes como aglutinadores da mobilização para as guerras de libertação e foram fortemente glosados pelas propagandas dos movimentos guerrilheiros. Inevitavelmente, quando assim se passa, por fatalidade da propaganda, há a transfiguração de acontecimentos brutais em mitos e um consequente exagero sobre os factos e o número de vítimas, através da intenção de carregar as cores do sublinhado e ampliar o odioso. Daqui que só a distância e o trabalho paciente e ético dos historiadores possam depois cumprir o papel único para que a memória se aproxime do real.

 

Passadas três décadas sobre a descolonização/independências, é tempo de os historiadores fazerem o trabalho que lhes compete para que portugueses e africanos (e não só) incorporem nas suas memórias os factos marcantes da realidade colonial portuguesa. E, sem entender esta, a maneira portuguesa como tratámos os africanos e respondemos aos desafios independentistas, nada se conseguirá avaliar e interpretar sobre a descolonização e a forma complicada e acidentada (ainda não completada) como Portugal virou (está a virar) a agulha de África para a Europa. Essa obra de desbaste dos factos, com o arrefecimento do rigor, pode e deve ser feita, sobretudo, por historiadores portugueses e africanos.

 

Leopoldo Amado, um brilhante académico guineense, agora em vésperas de se doutorar pela Universidade Clássica de Lisboa, cuja amizade pessoal muito me honra e com quem muito tenho aprendido, tem dedicado os últimos anos a desbravar o estudo da guerra de libertação na Guiné-Bissau (tarefa árdua pela dificuldade de acesso aos arquivos, sobretudo os do lado do PAIGC). Com uma tenacidade e um alto mérito historiográfico que o tornaram já no maior especialista no estudo da formação e desenvolvimento do PAIGC e da guerra que o opôs ao Exército Português entre 1963 e 1974. No seu blogue, Leopoldo Amado acaba de colocar um texto sobre o Massacre de Pindjiguiti, dividido em duas partes (esta e esta), fundamental para se entender a génese do PAIGC e o desencadear das guerras de libertação na África portuguesa. Leitura a não perder pelos que não se conformam com a desmemória 

Publicado por João Tunes às 22:53
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5 comentários:
De Paulo Santiago a 16 de Dezembro de 2006
João
Notável o texto,ou textos,do Leopoldo Amado,postado
no"Lamparam"Está lá tudo,antes e pós Pindjguiti.
Se o"Botas"visse os ventos que sopravam,jamais a
guerra teria acontecido,a aceitação daquele Memorando em 12 pontos ,proposto pelo Amilcar Cabral,lúcido e não sectário,teria evitado os mortos e estropiados de um e outro lado,e,assim teríamos hoje,averdadeira"Guiné Melhor"
Abraço
Paulo
De Marco Oliveira a 17 de Dezembro de 2006
Uma página muito triste da história portuguesa do século XX.
De João Tunes a 17 de Dezembro de 2006
Elas são tantas. Mas há que as conhecer, história é história. E sem ela não há memória.
De Maria Lisboa a 23 de Julho de 2009
Foi triste o que aconteceu na guerra colonial, mas, mais triste ainda é ver os povos que tanto lutaram pela sua "independencia", a matarem se uns aos outros. Os Portugueses saíram do fascismo sem mortes e até hoje têm LIBERDADE, coisa rara em Africa.

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