Terça-feira, 1 de Setembro de 2009

Um Putin decente

 

Não deixa de ser um acto político de lucidez e decência que Vladimir Putin, primeiro-ministro da Rússia e que estará hoje na Polónia num acto público evocativo do início da Segunda Guerra Mundial, tenha declarado ao jornal polaco Gazeta Wyborcza que condena sem vacilação o pacto firmado entre a Alemanha nazi e a URSS em 1939 e que, quanto à matança de Katyn (em que, por ordem de Estaline, foram assassinados milhares de oficiais polacos e que os soviéticos, durante décadas, atribuíram aos nazis, até que, durante a perestroika, foram revelados os documentos que evidenciaram que a autoria desta mortandade pertenceu inteira ao comando do comunismo soviético), tenha dito: “A nação russa, que também sofreu a repressão estalinista, entende bem os sentimentos dos polacos acerca dos acontecimentos de Katyn”.

 

Publicado por João Tunes às 00:17
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5 comentários:
De Rui Silva a 2 de Setembro de 2009
É uma pena que a data que marca o início das hostilidades alemãs contra a Polónia esteja a servir para colocar a União Soviética no banco dos réus da II Guerra Mundial.

É também uma pena que as declarações de Putin estejam a ser selectivamente reportadas, e comentadas, já que o chefe de governo da Rússia recordou que o Pacto Germano-Soviético foi o último dos acordos e pactos bilaterais firmados antes do início da Guerra, sendo portanto posterior a outros que o João Tunes aqui recordou (lembro-me do texto sobre o Acordo de Munique). Houve mesmo um acordo Germano-Polaco, em 1934.
De João Tunes a 2 de Setembro de 2009
Obviamente que o pacto Hitler-Estaline não pode ser isolado do conjunto de cobardias de Estado, sobretudo da parte da França e da Inglaterra, ditadas pelo medo de enfrentar Hitler (mais o desejo de que este virasse a sua agressividade e apetite territorial "a leste"), que o precederam. Há, efectivamente, um contexto a ter em conta. Que está longe, muito longe, de justificar ou desculpar a mancha de vergonha e culpa do pacto germano-soviético e das suas consequências. Primeiro, este pacto fez parte do menu da invasão da Polónia (garantindo a colaboração da URSS em não perturbar a acção militar alemã, antes participando na ocupação partilhada da Polónia), o que transformou a URSS em co-iniciador da II Guerra Mundial, como aliado (interessado) de Hitler. Segundo, porque os interesses soviéticos no pacto foram de natureza essencialmente anexionista (além, de anularem ou retardarem o ímpeto da agressividade alemã para leste): anexação da parte oriental da Polónia, ocupação e anexação dos países bálticos (Estónia, Letónia, Lituânia). Terceiro, pela brutalidade criminosa com que os soviéticos cumpriram o pacto: colaboracionismo absoluto e estratégico com o exército nazi na ocupação da Polónia, execucão do massacre de Katyn, colaboração entre NKVD e Gestapo que incluiu inclusive a entrega de prisioneiros alemães que estavam no Gulag (alguns deles, comunistas alemães) à Gestapo para esta os internar em campos de concentração nazis. Quarto, porque a "ilusão" sobre a sinceridade da "amizade nazi" foi em grande parte responsável por, em 1941, quando Hitler se virou contra a URSS, o Exército Vermelho estar mal preparado, desguarnecido e decapitado de muitos dos seus chefes militares entretanto mandados fuzilar por Estaline. Quinto, porque a natureza secretíssima do conteúdo real do pacto celebrado foi uma manobra de embuste e mentira da propaganda soviética perante os povos e os militantes antifascistas do mundo, particularmente quanto aos comunistas dos outros países (imagine-se a perplexidade, angústia e desorientação dos antifascistas de 1939 que, acabada de terminar a guerra civil de Espanha em Abril, onde se apoiara e combatera o nazi-fascismo com o apoio soviético, se recebe a notícia do pacto nazi-soviético em Agosto e em Setembro se vê a Polónia repartida entre a URSS e a Alemanha). Como é que tudo isto evita "colocar a União Soviética no banco dos réus da II Guerra Mundial"?
De Rui Silva a 2 de Setembro de 2009
No enquadramento do pacto falta incluir o verdadeiro prólogo da II Guerra que foi, bem perto de Portugal, a Guerra Civil Espanhola, conflito em que os Soviéticos se envolveram muito activamente, e que também tem que ser considerado nesse desejo dos soviéticos de "anularem ou retardarem o ímpeto da agressividade alemã para leste".

Longe de mim querer fazer revisionismo histórico a propósito de coisa alguma. A minha idade e sobretudo falta de estudo em matéria de II Grande Guerra não me permite argumentar e contra-argumentar à altura, e sobretudo não quero cair no ridículo de desmentir a criminosa acção de Estaline antes, durante de pois do período 1939-1945.

É em todo o caso interessante verificar que Churchill não apenas compreendeu o Pacto como referiu em dado momento que teria feito o mesmo que os Soviéticos fizeram.

Sobre as responsabilidades do "Ocidente" no impulso à II Guerra aconselho a leitura do artigo de Olga Chetverikova, publicado em Português num site Resistir.info, que tanto descrédito vem granjeando por culpa própria, mas que contém muitos e interessantes textos sobre as mais diversas matérias.

O link é: http://resistir.info/crise/impulso_secreto.html
De João Tunes a 2 de Setembro de 2009
Se pretende dizer que a guerra civil de Espanha foi um prólogo de comportamentos das grandes potências (em que o mexilhão que se lixou foi o povo espanhol) que iria desembocar na II Guerra Mundial, estou de acordo consigo. De facto, Espanha revelou o fraco caracter anti-nazi dos governantes franceses e ingleses (preferiram uma Espanha fascista a um Espanha comunista), a determinação agressiva e belicista da Alemanha nazi e da Itália fascista, a forma contraditória e mesmo dúplice como Estaline lidava com os seus inimigos e aliados. E, neste último aspecto, a "ideia do pacto nazi-soviético" já pairou na intervenção soviética em Espanha. Estaline não só não interveio em Espanha à altura das necessidades da República como o fez de forma controlada e gerida segundo os seus interesses de Estado (e com contrapartidas bem empoladas, fazendo pagar toda a ajuda militar a preços inflacionados através da entrega pela Espanha de todas as suas reservas em ouro), mandando efectivamente muito material militar importante para a primeira defesa republicana (tanques, aviões, artilharia) quando Madrid foi ameaçada no início da guerra mas que esteve muito abaixo do fornecido pela Alemanha e pela Itália, alguns conselheiros, tanquistas e aviadores (mas não destacamentos militares organizados e completos como o fizeram a Alemanha e a Itália), evitando envolver-se demais num confronto bélico com alemães e italianos. E, no final (a partir de 38), os soviéticos não só rarearam e suspenderam a ajuda militar como mandaram o Komintern retirar as Brigadas Internacionais, deixando para os espanhóis a gestão da derrota militar às mãos de Franco e nazi-fascistas. Provavelmente, em Abril de 39, quando Franco desfilou em Madrid, os primeiros rascunhos do entendimento da URSS com Hitler já estavam a ser desenhados. E a perfídia comunista comandada por Estaline já navegaria em volta de 180 graus do antifascismo pró-espanhol para o colaboracionismo com Hitler e que viria a desembocar nas canetas de Molotov e Ribbentrop que assinaram o pacto da vergonha.

Quanto às culpas do "Ocidente" no eclodir da II GM, elas são conhecidas e são parte viva das vergonhas das democracias nas suas atitudes perante as ditaduras e o belicismo. Mas se falamos do deflagrar da II Guerra Mundial, pela invasão da Polónia, os dados objectivos são estes: a Inglaterra e a França declararam a guerra à Alemanha como resposta à invasão nazi da Polónia, três dias depois dos nazis passarem a fronteira polaca; a URSS colaborou com a Alemanha e partilhou a ocupação da Polónia, juntando à rapina a ocupação de três estados bálticos independentes e soberanos. Não há volta a dar, são os factos.
De Rui Silva a 2 de Setembro de 2009
Caro João, em matéria de Guerra Civil espanhola não me vou alongar, até porque sei que é um tema que domina, e ao qual dedicou aliás uns interessantes textos no BotaAcima. Recordo um deles (#9), sobre este tema:

http://botaacima.blogs.sapo.pt/2876.html

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